Segurança

“Só porque estou num lugar pobre”, diz mulher que afirma ter sido agredida por PM

Para a trabalhadora, se ela vivesse em um bairro nobre de Curitiba, jamais seria vítima de um comportamento truculento

Redação RIC Mais
Redação RIC Mais com informações de Marcelo Borges, da RIC Record TV Curitiba
“Só porque estou num lugar pobre”, diz mulher que afirma ter sido agredida por PM
Foto: Reprodução/Grupo RIC

26 de agosto de 2021 - 18:48 - Atualizado em 27 de agosto de 2021 - 12:47

A técnica de enfermagem Suelen Oliveira Ribas de Araújo, de 36 anos, viveu cenas de um pesadelo dentro da própria casa no bairro Xaxim, em Curitiba, durante a tarde da última quarta-feira (25). Segundo ela, a residência foi invadida por policiais militares, um deles a agrediu, quebrou um celular e chegou a puxar o cabelo de uma de suas filhas, uma criança de 11 anos. (Veja vídeo abaixo) 

Suelen conta que tudo começou quando a filha mais velha, uma adolescente de 16 anos, ligou a música para limpar a casa. Algum tempo depois, uma viatura da Polícia Militar chegou no local e ela foi informada pelos agentes que eles estavam atendendo um chamado de perturbação de sossego, feito pela vizinha. 

Surpreendida com a chegada dos policiais, a trabalhadora explicou que a vizinha não havia solicitado que o som fosse abaixado e também alegou que o aparelho não estava ligado tão alto. “Eu fui falar com eles, falando: ‘Olha, o som está ligado, mas eu estou dentro da minha casa e não está tão alto porque minha caixa nem é tão potente. Ele falou: ‘É, mas não importa. Seu vizinho está incomodado’. Daí, eu entrei para dentro e continuei mexendo nos meus papéis e ele estava falando lá com ela [vizinha]. Eu pensei: ‘Vou responder processo e não tem o que fazer”. 

Minutos depois, Suelen e as três filhas, de 16, 11 e 8 anos, levaram um susto quando os PMs, simplesmente, entraram na residência e informaram que iriam levar o aparelho de som embora. 

“Ele falou que ia levar o rádio e eu simplesmente tirei o rádio da tomada, tanto que na imagem vê que não tem som ligado. E eu falei: ‘Não precisa’. Daí, eu falei: ‘Você não pode levar uma coisa que não é sua. Eu desligo, eu não sou bandida. Aí, ele falou que já que estava desobedecendo, eu ia ser presa. Eu falei: ‘Mas por que? Por que eu não quero que você leve?’ Daí começou toda a confusão”,

explica a mulher. 

Conforme o relato da técnica, a sua filha mais velha resolveu filmar com o celular o que estava acontecendo, mas o aparelho foi derrubado no chão por um dos policiais. O que ele não sabia apesar da tela ter quebrado com a queda, a gravação continuou e flagrou o desespero das quatro mulheres diante da abordagem

Suelen conta ainda que foi imobilizada com um mata-leão, algemada e que, enquanto sua filha de 8 anos entrou em choque o começou a chorar, a de 11 anos tentou intervir sem entender bem o que ocorria, foi então, que ela teria sido puxada pelos cabelos por um dos PMs. “Nisso que ele deu um tapa no celular dela, ele me deu um mata-leão e me algemou. No intuito de me proteger quando ele me pegou, ela foi no meio, daí ele simplesmente puxou ela pelo cabelo e tirou ela de perto, a de 11 anos. Mas ela ficou nervosa, a outra começou a chorar”, explica. 

Inconformado, a mulher mostrou a uma equipe da RIC Record TV as marcas deixadas em seu corpo, principalmente no rosto, braços e pernas, de acordo com ela, pela abordagem truculenta e ressalta que acredita que só foi tratada de tal maneira porque é pobre e não vive em um bairro de classe média

“Eu estou me sentindo pior do que um lixo porque eu só trabalho. Só porque eu sou uma mulher que estava com meus filhos em casa. Só porque estou num lugar pobre, de baixa renda, fizeram tudo isso na minha casa, invadiram como se eu fosse uma bandida”,

desaba Suelen. 

Por fim, Suelen foi colocada dentro da viatura, levada ao cartório do 13º Batalhão da Polícia Militar, obrigada a assinar um termo circunstanciado e o aparelho de som foi apreendido. 

“Me colocaram dentro da viatura, no camburão, na parte de trás, antes de ele me colocar ele ainda me desferiu dois chutes. […] Algemada, eu sai da viatura, ele puxava a algema para trás, eu ainda pediu minha bombinha porque eu tenho asma”. Suelen completa ressaltando que a violência partiu de apenas um dos policiais e que o outro chegou a prestar auxílio quando ela precisou: “O outro policial que estava junto, ele ainda colocava a bombinha na minha boca para me dar o remédio”. 

O que diz a PM

Em nota, a PM informou que a mulher se negou a diminuir o volume do som, deu um tapa em um dos policiais e foi contida e algemada por estar “agitada”. Veja na íntegra:

“O atendimento da Polícia Militar ao caso tratado na reportagem ocorreu porque houve uma denúncia de perturbação do sossego. Segundo o Boletim de Ocorrência, a equipe chegou ao endereço por volta de 14h30 e a solicitante conversou com os policiais militares no local, relatando que o som alto é recorrente e que naquele dia estava “insuportável”. A equipe tentou conversar com a mulher que estava causando a perturbação, porém, segundo o documento, ela se negou a baixar o volume, inclusive virou às costas aos policiais e aumentou mais ainda o som.

Diante da situação, a equipe da PM adentrou ao local para fazer o encaminhamento da infratora, a qual reagiu e desferiu um tapa no rosto de um dos policiais militares. Ela foi contida com o uso progressivo da força e, por estar agitada e sem colaborar com a abordagem, foi algemada, conforme previsão legal. Ela foi encaminhada à 1ª Companhia do 13º Batalhão para ser lavrado o Termo Circunstanciado, sendo posteriormente liberada. O aparelho de som foi apreendido e a solicitante decidiu por representar contra a mulher. O caso deve seguir com os trâmites do judiciário.”