13/10/2017 - 05h00

Com dinheiro no clube, cartola são-paulino tentar gerir crise

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GIANCARLO GIAMPIETRO E PAULO PASSOS

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando o São Paulo apresentou o atacante argentino Ricardo Centurión, em fevereiro de 2015, havia no palco também uma figura enigmática, que se introduzia como torcedor e investidor para bancar a contratação.

Pouco mais de dois anos depois, em maio de 2017, Vinícius Pinotti, 41, dessa vez era a própria notícia, ao ser nomeado o diretor-executivo de futebol do clube.

"Sempre sonhei em estar aqui, mas não imaginava que seria tão rápido assim", disse à reportagem.

Pinotti passou a ocupar o cargo justamente quando o time enfrenta uma das fases mais complicadas de sua história, envolvido, pelo segundo ano seguido, na luta contra o rebaixamento.

Chegou lá ao se projetar como novo quadro político de uma instituição desesperada por reformulação e respaldado por sua fortuna, por mais que não goste da observação.

"Foi um investimento barato", diz sobre os 4 milhões de euros (R$ 15 milhões em valores atuais) por 70% dos direitos de Centurión.

Ele é dos poucos dirigentes que seguiu no cargo após a renúncia de Aidar, em outubro de 2015, e a primeira eleição de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco.

Na verdade, se fortaleceu com a mudança. Sua influência extravasou a área que chefiava na gestão anterior, o marketing. Voltou a ajudar o clube em 2016. Os empréstimos somaram cerca de R$ 21 milhões.

Diz ainda ter colaborado financeiramente com a campanha do atual presidente.

Com o segundo mandato de Leco assegurado em abril e a mudança estatutária, Pinotti foi um dos quatro executivos nomeados. Recebe salário em torno de R$ 10 mil, remuneração simbólica, até dez vezes menor que a de alguns antecessores.

As dívidas do clube com o dirigente são pagas em longas prestações, seguindo correção monetária.

Não há pressa. A família herdou do pai, Anizio, ações da Natura, da qual representa um dos blocos do grupo de controle da empresa.

Em seu antebraço direito, estampa tatuagem que diz: "Pai, meu herói".

Com seu capital, passou a atuar como investidor. Mas gosta de lembrar a origem de baixa classe média, na zona sul paulistana.

Não descarta colocar mais dinheiro no clube. Diz que, por ora, não é necessário.

"É algo que se fala, até por ter sido feito recentemente em um co-irmão [o Palmeiras]. Mas o São Paulo também precisa caminhar com as próprias pernas. Hoje estamos em posição superavitária."

SUBINDO

A reportagem falou com pessoas que tiveram contato direto com o diretor em suas diversas atribuições em meio à ascensão repentina no clube.

Existe a crença de que Pinotti seria capaz de oferecer ao futebol mais profissionalismo e reestruturação gerencial. É visto como alguém que sabe mexer com finanças.

A dedicação ao trabalho e ao clube é apontada como diferencial, antes mesmo de abrir expediente no centro de treinamento da Barra Funda.

Por outro lado, há ressalvas quanto a sua escalada.

Uma linha crítica questiona quais seus predicados para ser o diretor de futebol.

Aponta-se que não seria do ramo e não teria a experiência para lidar com o vestiário.

Pinotti diz poder oferecer "governança" —um termo que lhe é muito caro— e que, para questões esportivas, estaria cercado por especialistas.

Registre-se também a presença constante do presidente Leco no CT. A palavra final será dele, tal como aconteceu na demissão de Rogério Ceni.

Em termos de chegadas e partidas, batalhou persistentemente pela volta de Hernanes.

Na contramão, com habilidade, costurou a rescisão do meia Wesley, hoje no Sport, economizando R$ 5 milhões.

Seus defensores dizem que talvez o futebol precise justamente de uma visão de fora.

Lembram que, no marketing, também poderia ser considerado um "forasteiro", mas que deu resultado.

Em época de vacas magras, trouxe patrocínios. O clube não fechava um acordo de longo prazo para marcas na camisa havia dois anos. Embora os valores sejam considerados baixos para o mercado, internamente os contratos foram pontos a seu favor.

Foi ele, porém, que contratou o ex-gerente de marketing Alan Cimerman, demitido em agosto por justa causa sob acusação de práticas corruptas relacionadas a shows no Morumbi.

Pinotti também tem se dedicado a incrementar o estafe em torno do time profissional. A contratação de Altamiro Bottino, ex-Palmeiras, como coordenador científico, foi um passo nessa direção.

JOGO ARRISCADO

Alguns aliados creem que o diretor possa ter se precipitado em assumir o cargo nas atuais circunstâncias.

Não só pela fase delicada do time, mas também pela instabilidade política do clube, deflagrada durante o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio e agravada pelos escândalos envolvendo Aidar.

"Sabia dos riscos, mas isso me move", disse Pinotti.

O temor é de que não esteja preparado para as pressões de um cargo de repercussão pública. Está agora exposto à opinião de milhões de torcedores e ao jogo político do clube.

Seus aliados reconhecem que pode ser impulsivo, se provocado. "Não sabe ouvir não" foi uma das frases usadas para descrevê-lo.

Profissionais ligados à campanha de Leco citam uma postura excessivamente defensiva diante de notícias contrárias.

Tendia a ver as digitais da oposição. O grupo rival contava com o apoio de outro milionário de papel recente no Morumbi: Abílio Diniz.

Ao menos o time vive paz momentânea com a torcida.

Em setembro, Leco articulou visita de representantes das organizadas e de outros grupos ao CT do clube.

Pinotti já esteve próximo da Independente. Admite que, na arquibancada, tendia a se posicionar ao lado da organizada. Mas nunca foi filiado.

Agora diretor, sabe que será avaliado apenas pelos resultados do time em campo.

O São Paulo luta para evitar o rebaixamento no Brasileiro. Seria um duro golpe ao seu projeto, mesmo que só tenha assumido o cargo em maio.

Espera que não haja mais nenhuma entrevista coletiva tão cedo com mudanças no departamento de futebol.

A troca de comando é algo já recorrente no São Paulo. Com Leco, desde outubro de 2015, entre diretores e vice-presidentes, Pinotti foi o oitavo dirigente nomeado.

"O clube precisa acreditar numa ideia e seguir em frente", disse o executivo.

Fonte: Folhapress