Saúde

A vacina da Rússia que o Paraná pretende produzir é confiável?

Com exceção da palavra do governo da Rússia, não há ainda dados científicos suficientes que comprovem que a vacina seja eficaz ou segura

Gabriel
Gabriel Azevedo com informações da Reuters
A vacina da Rússia que o Paraná pretende produzir é confiável?
(Foto: Divulgação/Agência Brasil)

11 de agosto de 2020 - 12:56 - Atualizado em 11 de agosto de 2020 - 13:03

A vacina contra a Covid-19 aprovada pela Rússia nesta terça-feira (11), que será vendida no mercado internacional com o nome de Sputnik 5 – referência ao primeiro satélite lançado ao espaço da história, pela extinta União Soviética – é alvo de desconfiança da comunidade científica internacional e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Confira como a vacina da Rússia funciona.

Nesta terça-feira, o infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Oswaldo Cruz), Júlio Croda, classificou a vacina da Rússia como “muito arriscada” e disse que a Sputinik 5 não apresenta “nenhum dado de eficácia”.

A principal preocupação da comunidade médica sobre a vacina da Rússia, que o Paraná vai produzir no Brasil, é com a falta de transparência.

Com exceção da palavra do governo da Rússia, não existe nenhuma evidência científica de que a vacina funcione ou seja segura.

Segundo o infectologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Edimilson Migowski, existe um completo desconhecimento da vacina desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, em Moscou.

“Por mais que os pesquisadores envolvidos tenham sido eficientes no desenvolvimento da vacina”, é complicado afirmar, como feito pelo presidente Vladimir Putin, que a vacina traz um prologado efeito de imunização, porque o período estudado é curto para ter a certeza sobre a eficácia.

Queimando etapas

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em todo mundo, existem 166 vacinas contra o novo coronavírus em desenvolvimento.

Do total, apenas seis estão na fase 3 de testes, a última etapa de desenvolvimento de um imunizante. São elas: Oxford/AstraZeneca; Coronav (Sinovac/Instituto Butantan);  Sinopharm (Wuhan); Beijing Sinopharm; Moderna e BioNTech/Pfizer. Dessas, três estão em testes em voluntários no Brasil.

Na plataforma da OMS, a vacina da Rússia consta na fase 1. No entanto, de acordo com o as autoridades russas, a pesquisa já se encontra no fim da fase 2.

Porém, os resultados dos testes realizados ainda não foram publicados em nenhuma revista científica.

Em meados de julho, a agência de notícias russa TASS disse que o Ministério da Defesa alegou que nenhum dos voluntários da fase 1 relatou qualquer problema ou efeito colateral.

Mesmo neste caso, apenas 38 pessoas receberam a vacina, e os resultados completos não foram divulgados. Existe uma preocupação de que a Rússia “queimou etapas” para sair na frente.

“Acelerar o progresso não deve significar comprometer a segurança”, disse o porta-voz da OMS, Tarik Jasarevic, em entrevista coletiva, acrescentando que a organização está em contato com as autoridade da Rússia para analisar o progresso da vacina.

O que são as fases de testes de uma vacina?

  • Fase 1: é o primeiro estudo a ser realizado em seres humanos e tem por objetivo principal demonstrar a segurança da vacina. 
  • Fase 2: tem por objetivo estabelecer a sua imunogenicidade. 
  • Fase 3: é a última fase de estudo antes da obtenção do registro sanitário e tem por objetivo demonstrar a sua eficácia. Somente após a finalização do estudo de fase III e obtenção do registro sanitário é que a nova vacina poderá ser disponibilizada para a população.

São Paulo rejeita vacina da Rússia

Nesta terça-feira, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que o Instituto Butantan foi procurado pelo governo da Rússia para que pudesse produzir a vacina no Brasil, mas negou o acordo.

“A (vacina) russa não. Não sou capaz de avaliar se é boa ou não é, se tem o aval da Organização Mundial da Saúde (OMS). Não quero fazer pré-avaliação. Houve uma procura, mas foi respondido que já temos uma associação com o laboratório chinês Sinovac para a produção da CoronaVac. Não faria sentido algum ter uma segunda alternativa no mesmo Butantan, cujo objetivo é o mesmo”.