Saúde

Bolsonaro critica vacina pediátrica da Covid-19 e ataca Anvisa

Bolsonaro afirmou que não conhece crianças que morreram de Covid-19; dados das secretarias estaduais de Saúde mostram que pelo menos 301 crianças entre 5 e 11 anos morreram da doença no país

Reuters
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Bolsonaro critica vacina pediátrica da Covid-19 e ataca Anvisa
Presidente Jair Bolsonaro

6 de janeiro de 2022 - 20:50 - Atualizado em 6 de janeiro de 2022 - 21:06

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) – O presidente Jair Bolsonaro voltou a levantar suspeitas sem comprovação sobre a vacinação de crianças contra a Covid-19 e atacar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta quinta-feira (6), um dia após o Ministério da Saúde incluir a faixa etária de 5 a 11 anos na campanha nacional de imunização.

Em entrevista a uma rádio de Pernambuco exibida nas redes sociais do presidente, Bolsonaro afirmou que não conhece crianças que morreram de Covid-19, apesar de dados das secretarias estaduais de Saúde mostrarem que 301 crianças entre 5 e 11 anos morreram da doença no país até o início de dezembro. O presidente disse que há interesses por trás na aprovação das vacinas pediátricas.

“Você vai vacinar teu filho contra algo que o jovem por si só a possibilidade de morrer é quase zero? O que está por trás disso? Qual é o interesse da Anvisa por trás disso? Qual é o interesse das pessoas taradas por vacina? É pela sua vida? Pela sua saúde? Se fosse, estariam preocupados com outras doenças, e não estão. Quando se trata de criança, não se deixe levar por propaganda”,

disse.

Bolsonaro considerou lamentável a decisão da Anvisa de autorizar a vacina e repetiu que sua filha Laura, de 11 anos, não será vacinada.

Em sua tradicional live de quinta à noite, o presidente voltou à carga contra a imunização das crianças ao destacar que a Pfizer não vai se responsabilizar por eventuais efeitos adversos, e ainda pediu que os país levem os filhos ao médico imediatamente caso tenham sintomas após serem vacinados.

“Se o teu filho, após a vacina, tiver qualquer problema, não responsabiliza a Pfizer. A Pfizer fez a vacina e está aí sendo testada –como a própria Pfizer diz– que tem certos efeitos colaterais que vamos tomar conhecimento ao longo de 2022, 23 e 24, por aí afora. Então a Pfizer não se responsabiliza por efeito colateral”,

disse ele, sem mostrar qualquer evidência que embase essas considerações.

Na transmissão, o presidente disse que, pelo fato de a imunização não ser obrigatória, nenhum prefeito ou governador poderá impedir crianças de serem matriculadas nas escolas por falta de vacina.

Em uma nota de repúdio publicada após as declarações do presidente, a Sociedade Brasileira de Pediatria disse que a população não deve temer a vacina, mas, sim, a doença que ela busca prevenir.

“A vacina previne a morte, a dor, sofrimento, emergências e internação em todas as faixas etárias. Negar este benefício às crianças sem evidências científicas sólidas, bem como desestimular a adesão dos pais e dos responsáveis à imunização dos seus filhos, é um ato lamentável e irresponsável, que, infelizmente, pode custar vidas”,

afirmou.

DECISÃO

O Ministério da Saúde divulgou na quarta-feira o cronograma de chegada das vacinas da Pfizer para a faixa etária de 5 a 11 anos, 20 dias depois de a Anvisa ter aprovado o uso do imunizante, que tem uma dosagem menor que a dos adultos.

Dada a resistência do presidente, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, criou uma consulta pública via internet e uma audiência pública para debater as diretrizes da vacinação infantil, o que atrasou ainda mais o início do processo, que deve começar somente na segunda quinzena de janeiro.

Por pressão de Bolsonaro, o ministério queria impor a necessidade de prescrição médica e autorização por escrito dos pais para a aplicação da vacina nas crianças. Com o resultado da consulta pública, em que a vasta maioria das pessoas foi contrária, e da audiência, onde especialistas e secretários de Saúde deixaram claro que a medida era inviável, o ministério voltou atrás.

Ainda assim, durante a entrevista onde foram anunciadas as medidas, a secretária de combate à Covid-19, Rosane Melo, ajudou a semear dúvidas ao dizer que seria “imprescindível” que os pais consultassem um médico antes da vacinação. A medida não é necessária, segundo especialistas, nem será obrigatória.

Em sua fala na rádio, Bolsonaro diz para a população não se deixar levar por “propaganda” –que na verdade não existe no caso de vacinas– e insinua que podem existir efeitos colaterais desconhecidos na vacinação infantil.

(Reportagem adicional de Ricardo Brito)

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