Política

Bolsonaro diz que Moro sempre teve “propósito político” e declara confiança em urna eletrônica

Presidente elogiou operação Lava Jato, criticou duramente Sérgio Moro, “voltou atrás” na sua opinião sobre as urnas eletrôncias e mandou a terceria via chegar, que ele está preparado para o “embate”

Giselle
Giselle Ulbrich
Bolsonaro diz que Moro sempre teve “propósito político” e declara confiança em urna eletrônica

8 de novembro de 2021 - 07:48 - Atualizado em 8 de novembro de 2021 - 08:10

Na entrevista que o presidente Jair Bolsonaro deu às mídias do Grupo RIC, ele deu um panorama geral sobre o que pensa do atual cenário político e o que espera das próximas eleições. Começou falando da Operação Lava Jato, mostrando apoio ao trabalho anticorrupção feito pela instituição.

“Eu falei há alguns meses, no ano passado, que por mim não existiria Operação Lava Jato. Por mim, porque não dou trabalho pra Polícia Federal. Por mim, o pessoal da PF está sem trabalhar, porque nós internamente combatemos a corrupção, nada mais. E digo mais, se eu tivesse o poder para acabar com a Lava Jato, tu acha que o Lula não teria acabado? A Dilma não teria acabado? Porque a Lava Jato foi em cima deles. Eu não tenho esse poder, nem quando você fala em Polícia Federal, nem o diretor geral da Polícia Federal, nem o ministro da Justiça, o qual ele está subordinado, sabem das operações que vão acontecer. Eles me ligam às 6h, 6h30 da manhã, quando começam as operações e dizem: ‘Presidente, fiquei sabendo agora aí de uma operação’. Aí eu digo: ‘Toca o barco. Cada um se responsabiliza sobre os seus atos’. A Polícia Federal sempre fez uma excelente trabalho de combate à corrução no Brasil”, disse ele.

Sérgio Moro e Deltan Dallagnol

Claro que falar em operação Lava Jato conduziu a entrevistas para o âmbito político, já que alguns que atuaram na operação hoje estão entrando para a política. Um deles é ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que está se filiando ao Podemos, além do ex-procurador Deltan Dallagnol, que acaba de anunciar sua saída do Ministério Público Federal para possivelmente trilhar o mesmo caminho do colega de Lava Jato.

“Você começa entender um pouco mais as coisas. Começa a entender o que eu passei com o ministro Sérgio Moro. Ele sempre teve um propósito político, nada contra, mas fazia aquilo de forma camuflada. Ele tinha intenção sim de ir pro Supremo (Tribunal Federal). Num primeiro momento, achei justa a intenção dele. Depois veio a questão da Polícia Federal. Eu não queria interferir em nada, queria interlocução. O então diretor da Polícia, que era do Paraná, nunca veio me apresentar um diretor, como faço na comunidade militar, que o general me apresenta o comandante da região, o coronel, o comandante de Brigada. É comum, não é querer interferir. E o Moro, eu sempre dei o ministério com poder de veto meu. Eu indico, se ele não gostar, troca. E foi combinado assim com todos os ministros. E quando eu mostrei pra ele dois superintendentes que deveriam ser trocados, e por nomes indicados por ele, ele se fechou em copas, não aceitou. Começaram os problemas. Eu nunca pedi pra ele pra me blindar. Eu pedi: Não deixe me chantagear”,

afirma Bolsonaro.

E o presidente ainda criticou Moro pelas suas duas demissões seguidas. A primeira do cargo de juiz e a segunda do Ministério Justiça. Afirmou que “como é que pode uma pessoa abrir mão de 23 anos de magistratura, para saber que podia ser demitido (do ministério) no dia seguinte e jogar toda a carreira fora?”, disse ele. E Bolsonaro afirma ainda que Moro resolveu “jogar sujo” para ser indicado ao STF. Opresidente afirma que queria trocar o superintendente da Polícia Federal no Paraná, Maurício Valeixo. Moro era contra e, na versão de Bolsonaro, tentou uma “manobra”: “Você me indica pro Supremo e depois o futuro ministro (da justiça) troca o Valeixo”, afirma o presidente. Como não houve acordo, Moro pediu demissão do Ministério da Justiça.

“Logicamente ele tinha um prestígio muito grande junto à opinião pública, fez um trabalho muito bom na Lava Jato, ajudou a redirecionar o futuro do Brasil. Mas o propósito político dele e do Dallagnol começa a se revelar agora. Ser candidato é um direito deles. Agora, nós estamos aí para o debate. Se ele vier candidato, se eu vier também, a gente vai trocar ideias por ocasião do debate, sem problema nenhum. E o povo escolha aí quem achar que deve melhor administrar o Brasil”,

desafiou Bolsonaro.

Urnas eletrônicas

Depois de toda a polêmica que Bolsonaro causou em relação às urnas eletrônicas, falando que não eram confiáveis, ele pareceu dar um passo atrás e dar seu “voto de confiança” ao processo eletrônico de votação. Mas explicou que é porque há um fato novo nisso tudo. Em uma de suas lives semanais, ele mostrou laudos da Polícia Federal, que demonstrariam que hackers passaram oito meses dentro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), antes das eleições, fato que só foi revelado após o segundo turno. E que o próprio TSE apagou depois os rastros deixados pela ação dos hackers, os famosos “logs” de sistema.

“Por que o TSE fez isso? Então nós demonstramos realmente que, entre outras coisas, tinha alguma coisa que precisava ser feito lá (nas urnas). O que o ministro Barroso fez? Primeiro foi contra. E depois via portaria convidou instituições para participar do processo (de auditoria das urnas para as próximas eleições)”,

disse Bolsonaro.

Entre as instituições que vão monitorar participar de todo o processo estão as Forças Armadas, diz o presidente, para garantir que não haja nenhuma irregularidade nas urnas. Ainda assim, ele não abandonou o discurso que prefere o voto impresso, ao lado da urna eletrônica, “como frazem 99% dos países democráticos”, disse.

Terceira via e convite para o “ringue”

Muito tem se falado em terceira via no Brasil, ou seja, nem esquerda, nem direita, em terceira opção viável de voto. E Bolsonaro disse que não está nem um pouco preocupado com isto. E ainda criticou Moro chamando-o de “candidato vaselina”, “esses que querem ser amigos de todo mundo. Esses não dão certo”, afirmou o presidente.

E conforme o cenário que está sendo montado no momento, com alguns nomes já confirmados à disputa presidencial, a campanha pode ser bastante “quente” no ano que vem. Mas Bolsonaro não se mostrou preocupado em ser o alvo principal de todos os possíveis candidatos.

“Se tiver arranca rabo no debate, o bicho vai pegar, não tem problema não. Jamais eu vou usar palavras doces, até porque eu não levo jeito para isso, pra arrancar a simpatia das pessoas. Campanha minha de 2018, diziam que eu não gostava de mulher. Então eu gosto de outra coisa né. Diziam que eu era homofóbico, mas eu não gosto também daquelas pessoas. Diziam que eu não gostava de nordestino, era racista. que Era xenófobo. Quando me chamaram de misógino a primeira vez, eu confesso, eu não sabia o que era isso. Peguei o assessor e perguntei: o que é isso? Estou sendo criticado ou elogiado? aó o assessor disse: ‘Tão dizendo que você não gosta de mulher’. Me acusaram de tudo, e vencemos isso aí com um partido que tinha oito segundos de televisão. … Eu jogo dento das quatro linhas, não posso admitir alguém jogar fora das quatro linhas. Aí você tem uma luta desigual. Estamos dentro da normalidade, respeito a Constituição, respeito os militares, devo lealdade ao povo brasileiro, acredito em Deus, e estou, no meu entender, fazendo o melhor que eu posso fazer. Se tem alguém que possa fazer algo acima do que eu faço, se apresente, dispute as eleições e, se ganhar, boa sorte“,

disse Bolsonaro, convidando para o “ringue”.

Assista à entrevista na íntegra: