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“A doença não segue padrão”, alerta mulher que teve a família contaminada pelo coronavírus

Lucas
Lucas Sarzi
“A doença não segue padrão”, alerta mulher que teve a família contaminada pelo coronavírus

11 de abril de 2020 - 00:00 - Atualizado em 1 de julho de 2020 - 14:47

Depois de passar pelo apuro de ter a família inteira contaminada, a servidora pública Sandra Pantoja, 40 anos, resolveu fazer um alerta público e contar às pessoas sobre como o novo coronavírus agiu não só em seu organismo, mas também no de seu marido e em seus dois filhos. Através de uma postagem nas redes sociais, feita até de um jeito bem didático, Sandra deu alguns detalhes e mostrou que o vírus atingiu cada um de sua casa de um jeito e destacou: “não é brincadeira“.

“Percebi que mesmo com todas as informações disponíveis, as pessoas querem ouvir de quem pegou a doença como ela é, quais são os sintomas, como foi para você essa experiência. Também senti que as informações são apresentadas num padrão geral pela mídia: os sintomas são febre, tosse seca e falta de ar, porém não é bem assim: eu percebi que não há um único padrão. A doença se manifesta de diferentes maneiras em cada pessoa e foi o que aconteceu aqui em casa“, destacou Sandra sobre os motivos que resolveu fazer seu relato.

Sandra se contaminou no dia 14 de março e sentiu os primeiros sintomas quatro dias depois. Conforme o relato, sentiu febre, dor de cabeça, falta de ar e leve tontura. Tudo isso também veio acompanhado de cansaço, fadiga, dor muscular e perda de apetite. Ela sentiu ainda náuseas, além da perda do olfato e do paladar.

Apesar de não precisar de internação, a servidora pública levou pelo menos quatro semanas de isolamento. Segundo ela, a febre ia e voltava, mas não teve febre tão alta: a maior temperatura registrada foi de 38,2º, mas na maioria dos dias teve entre 37,4 e 37,9º.

Marido internado

Já com o empresário José Pantoja Neto, 40 anos, o marido de Sandra, que se contaminou antes, no dia 11 de março e começou a se sentir doente três dias depois, a situação complicou um pouco. Os primeiros sintomas foram parecidos: febre, dor de cabeça, falta de ar, cansaço, fadiga, dor muscular e perda do apetite. Mas o empresário teve também tosse seca e diarreia.

Uma semana depois de começar a sentir os sintomas, José piorou, a respiração chegou a 24 vezes por minuto e precisou ser internado. No hospital, os médicos constataram que, além da covid-19 (doença provocada pelo novo coronavírus), ele já estava com pneumonia e seus leucócitos (glóbulos brancos) e plaquetas estavam baixos.

José, que também não teve febre tão alta (o maior registro foi de 38,2º), foi medicado desde o começo dos sintomas com quatro tipos de remédios diferentes, três antibióticos e um antiviral que ficou conhecido no tratamento da gripe H1N1, o Tamiflu. Depois de 13 dias, os sintomas amenizaram e José começou a se recuperar.

Publicado por Sandra Pantoja em Quinta-feira, 9 de abril de 2020

Alerta importante!

Recuperados, o casal se uniu para contar o que passou e, principalmente, alertar as pessoas. “Não dê bobeira ao vírus, fique em casa“, diz o alerta publicado por Sandra. Segundo a mulher, seus dois filhos – de 6 e 8 anos – também podem ter se contaminado, embora um deles tenha ficado sem nenhum sintoma (o chamado assintomático) e o outro apenas com coriza, tosse e coceira na garganta. “Imagina se outros infectados assintomáticos continuarem com sua vida normal? Uma hora você cruzará com ele”.

O alerta de Sandra é para que as pessoas fiquem, sim, ao máximo em casa. “Se você não precisa sair, não se exponha. Nós ficamos quatro semanas isolados, conseguimos comprar tudo por aplicativo, whatsapp ou telefone. Pagamos por transferência bancária ou app, se precisava usar o cartão, usávamos a função de aproximação e muito álcool gel”, destacou.

A experiência da família com o vírus é a de que cada pessoa tem um sintoma. “A cada dia os médicos descobrem um novo sintoma, como perda de olfato e miocardite (que inclue dor no peito, batimentos cardíacos anormais e falta de ar). Não descarte a doença, ela é altamente contagiosa e já está aí. Esse vírus é traiçoeiro, agrava muito rápido, não afeta só o grupo de risco e não, não é só uma gripezinha“.

Ver as pessoas nas ruas nos últimos dias assustou a servidora pública, pois percebeu que muita gente não está levando a sério o que está acontecendo. “Parece que as pessoas acham que a doença não é tudo isso, que não é tão letal como está sendo em outros países. Da mesma forma que aconteceu comigo, pode acontecer com qualquer um. Essa também foi uma das minhas intenções, não só esclarecer como é a doença, mas alertar as pessoas que a doença está aqui na cidade, que é muito importante o isolamento social. Queria deixar claro que o vírus não circula, quem circula são as pessoas“.

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A família toda de Sandra acabou contaminada. Foto: Arquivo Pessoal.

Dias difíceis!

Sandra comentou que os dias que ficou doente não foram fáceis. “Olhando para trás a gente nem acredita que deu conta do recado e que chegou até aqui com um pouco de sanidade mental. Eu e meu marido ficamos doentes juntos, com poucos dias de diferença. Estávamos em quarentena, as crianças em casa, sem possibilidade de ninguém me ajudar, pois iriamos expor essa pessoa ao risco de contaminação“, disse.

Durante os dias em que esteve doente e viu o marido piorar, percebeu que a covid-19 não segue o mesmo padrão das outras doenças, como uma gripe que a gente se medica e os sintomas passam. “Um dia fiquei com a temperatura elevada, tive um cansaço absurdo, uma prostração, dor muscular, não conseguia fazer nada. No dia seguinte, amanheci ótima, sem nenhum sintoma, até a tosse tinha passado. Depois de 2 dias, alguns dos sintomas voltaram piores, outros mais amenos, e quando você pensa que está melhorando, você amanhece ruim“, destacou, explicando que foi nestes dais ruins que seu marido acabou internado.

A servidora pública, que não tem familiares por perto, disse que contou com a ajuda de amigos, que chegaram a enviar uma cesta com bilhete. “No outro dia um amigo de um dos meus filhos fez um brownie para ele e a mãe deixou em nosso portão. Nesse mesmo dia uma amiga trouxe uma sacola de coisas de mercado, com guloseimas para as crianças, e coisas gostosas para deixá-las mais felizes. Em outro dia as mães colocavam seu filhos em chamada de vídeo para alegrarem o dias dos meus filhos e eles esquecerem um pouco da doença. Foi lindo“.

Relembrando o que passou, Sandra diz que não sabe como aguentou, mas que a ajuda de todas as pessoas que se envolveram foi importante. “Pois mesmo isolados em quarentena nunca estivemos sozinhos. Os amigos médicos “vigiavam” os sintomas do Neto e nos orientavam. Os vizinhos, amigos de infância, da faculdade, do trabalho, da escola dos meus filhos, sempre se ofereceram para ir ao mercado, farmácia, tudo que precisássemos. Então, a lição que tiro disso tudo é que o ser humano é humano, é bondoso, é solícito, é solidário, e vi na nossa doença diferentes grupos se unindo para nos ajudar, um senso de comunidade e coletividade incrível. Espero que após essa pandemia isso continue“.