Segurança

“Fala para a criança ser torturada”: Família descobre ‘manual de conduta’ que suspeito de matar esposa e enteado teria escrito

Na “carta”, Eliseu descreve tópicos sobre a criação de Renan, de apenas nove anos, filho de Vany com um ex-companheiro

Daniela
Daniela Borsuk com informações da RIC Record TV Curitiba
“Fala para a criança ser torturada”: Família descobre ‘manual de conduta’ que suspeito de matar esposa e enteado teria escrito
(Foto: Redes Sociais)

11 de outubro de 2021 - 16:03 - Atualizado em 11 de outubro de 2021 - 17:31

A família de Ivanilda de Magalhães de Castro e Renan de Magalhães Ribeiro, vítimas de Eliseu de Castro Silva, ficou indignada após encontrar uma espécie de manual de conduta escrito pelo suspeito. Na “carta”, Eliseu descreve tópicos sobre a criação de Renan, de apenas nove anos, filho de Vany com um ex-companheiro. O documento teve, inclusive, data e horário decretados para que Vany desse início às ordens de Eliseu com relação ao filho dela. Eliseu confessou que matou a esposa, Vany, e o enteado, Renan, com golpes de faca no dia 1º de setembro deste ano, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba. O suspeito está preso.

A família contou em entrevista ao Balanço Geral Curitiba, que percebia que Eliseu não gostava muito do enteado, mas que ele nunca foi visto sendo agressivo. “Foi revoltante, a gente já tinha uma certa impressão de que ele não gostava do menino, mas a gente viu que ele era um cara abusivo, agressor, um ditador […] tem umas partes pesadas [da carta] que ele fala para a criança ser torturada“, descreveu o irmão de Vany, Samuel Magalhães.

“A gente percebia, quando a gente se reunia em família, teve uma vez que ele falou que se o Renan fosse, ele não ia. Aí ele mandou o Renan para a casa do pai dele. Aí outras vezes, da gente se encontrar, o Renan tinha que ficar sentado na cadeira, ele não deixava brincar com as crianças, as crianças brincando. Sempre assim, aquela doutrinação com o piá. Na frente da gente ele nunca bateu, mas ele falava assim ‘a hora que a gente chegar em casa, você vai ver'”.

contou Samuel.

No manual, intitulado como “Pontos à serem trabalhados com o Renanzinho” se destacam os trechos em que a criança de seis anos deveria ser ensinada a “temer” a mãe e que, se não o fizesse, teria que “pagar as consequências”.

“O primeiro passo é ele adquirir temor! Pq quem não teme, não respeita! Você como mãe deve ser soberana, falar com ele, e ele atender imediatamente. Se assim não o fizer, terá que pagar as consequências”.

informa o documento.

Ainda, o pequeno Renan não deveria fazer nada sem autorização, fosse entrar em cômodos, pegar qualquer coisa dentro de casa ou ligar equipamentos.

“Todas as vezes que ele fizer mimo, manha, cruzando os braços e reinando, fazendo beicinho, etc, deverá, imediatamente ser penalizado! E se estiver em local que não é possível bater nele, assim que chegar em casa e for tomar banho, ele deve ser lembrado da infração cometida, e levar uma surra!”

diz um dos tópicos.

Pelo que diz o manual, ele foi escrito ainda em 2018, quando a criança tinha seis anos. O documento não está assinado, mas a família frisa que foi escrito por Eliseu. Caso o suspeito negue a autoria da carta, poderá ser realizado um exame grafotécnico para averiguar a veracidade do documento.

O advogado da família de Vany, Igor Ogar, afirma que o documento encontrado reforça a tese de que Eliseu era manipulador e que isso pode indicar que o assassinato da esposa e do enteado do suspeito não tenha sido algo momentâneo.

“É muito importante essa carta e o conteúdo todo de provas que já conseguimos juntar ao processo até esse momento, porque mostram que o Eliseu, diferente do que ele alega, do que informa, apesar de ser uma pessoa que fala muito bem, manipuladora, normalmente é uma qualidade das pessoas que são manipuladoras, mostra que ele já vinha com um histórico de manipulação, um histórico de crueldade, contra a Vany e contra o enteado, não foi um surto momentâneo. Ele já vinha com maus-tratos levantados por informações da família, por essa carta, e todas as outras circunstâncias que já deixaram apresentadas também no próprio processo, que o Eliseu se tratava de uma pessoa que tratava esse menor, esse jovem, seu enteado, com muita crueldade”, disse o advogado Igor Ogar.

Samuel ainda relatou que a filhinha de Vany e Eliseu, a menina de dois anos que foi trancada em um cômodo da casa e poupada pelo pai está fazendo acompanhamento psicológico. “No começo foi difícil, ela chamava a mãe, acordava de madrugada chamando a mãe, falava que estava com medo do pai, foi complicado para a gente, ela contando assim que o pai pegou a mãe, contou alguns detalhes”, disse Samuel. O tio da menina contou que ela está se recuperando aos poucos.

Crime premeditado?

De acordo com o advogado da família de Vany, Igor Ogar, é possível que o crime tenha sido premeditado. “Nós temos elementos que dão conta que esse crime pode ter sido premeditado. Temos informações recentes de uma vizinha, a vizinha de muro da casa da Vany, que deu a informação já aos familiares de que, nos dias anteriores ao cometimento desse duplo homicídio, com feminicídio, a Vany havia dito a ela: ‘se alguma coisa me acontecer, a filha – porque talvez já imaginava nesse cenário que ela seria a única sobrevivente diante de uma eventual ameaça – deveria ficar com determinado irmão. Então ela já tinha um certo conhecimento, acredito que motivado em razão de ameaças, de que se ela viesse a faltar, e o irmão também, a filha deveria ficar com determinado familiar, falou para a vizinha dias, ou dia antes, do crime.”

Em nota, o advogado Igor José Ogar, que representa a família da vítima, declarou que a carta escrita por Eliseu, demonstra e sedimenta a qualificadora do feminicídio”. Ele ainda ressaltou que o texto, escrito pelo assassino, “demonstra os horrores que a esposa Vany, era submetida pela hierarquia e subordinação ditatorial que impunha o marido. Inclusive, há mais de 2 (dois) anos vivendo violência psicológica, além de demonstrar o ódio exacerbado que o acusado imprimia sobre a criança que foi vítima junto com sua mãe de um brutal assassinato”.