Saúde

Educar para a vida

Educar para a vida envolve ajudar os filhos a adquirir repertórios psíquicos e habilidades para alcançar autonomia e independência, de forma que possam enfrentar a vida de forma mais saudável. Acontece de forma gradativa ao longo do desenvolvimento.

Educar para a vida
Educar para a vida

20 de fevereiro de 2021 - 10:33 - Atualizado em 20 de fevereiro de 2021 - 11:07

Educar para a vida certamente inclui ajudar seu filho a adquirir autonomia, como comer, andar, dormir, tomar banho, escovar os dentes, falar etc., como também a desenvolver a sua inteligência levando-o à escola e demais contextos que possam expandir seu lado cognitivo. Mas, isso não basta para que tenha os repertórios necessários para enfrentar a vida.

Educar para a vida envolve especialmente ajudar o seu filho a adquirir habilidades e capacidades psíquicas para lidar com as pequenas frustrações da infância, depois com as peculiares angústias da adolescência e posteriormente para enfrentar os grandes desafios do mundo adulto, este que é repleto de injustiças e desigualdades. É assim o ciclo da vida.

É preciso aprender desde cedo que não se pode ter tudo o que se quer e nem a todo tempo, nem mesmo o sabor preferido, a alegria da brincadeira, a festa na piscina, a música embalando a dança, as risadas com os amigos e as sensações dos filmes, animações e games. É preciso também aprender a comer direito, a dormir na hora certa, a estudar, a arrumar o quarto, a levar o prato para a pia e também a lavá-lo. Aprender a dividir também é preciso, o brinquedo, o espaço, o tempo e a vez. Até mesmo é indispensável aprender a ser gentil, a perdoar e a pedir perdão, agradecer, ser benevolente e empático. Provavelmente, esses aprendizados serão mais relevantes do que saber usar o tablet aos dois anos.

Educar para a vida é construir um ser transformador, canalizando a sua inteligência para o bem, sensibilizando seus sentimentos, potencializando suas virtudes, estimulando as conquistas e o fortalecimento de princípios e valores consistentes, como nos orienta o Instituto Brasileiro de Educação Moral.

É ajudar o seu filho a desenvolver uma autonomia moral diante da vida, que seria uma aptidão para perceber o mundo à sua volta, as pessoas e a si próprio, e saber interagir com tudo e todos de acordo com princípios éticos e morais que prezam pela dignidade humana, a liberdade, a solidariedade e a igualdade.

A autonomia moral se estabelece gradativamente ao longo do desenvolvimento, em que os filhos vão amadurecendo com uma autoestima que os posicione diante dos outros e de si próprios de uma forma mais saudável.

Se o seu filho for inteligente e não tiver um adulto responsável ajudando-o a canalizar o seu potencial para o bem, sua vida poderá vir a ser uma desgraça. Se o seu filho tiver potencial para liderança e não tiver ajuda para aprender a compaixão poderá se tornar um tirano. Se for esperto nas brincadeiras e não houver quem corrija as suas trapaças, por menores que sejam, poderá se especializar nelas. Se diante das descompensações emocionais não obtiver ajuda para enfrentá-las de forma saudável poderá aprender que gritar, espernear, bater, morder, quebrar, prejudicar outros e a si próprio são práticas aceitáveis.

Se os filhos tiverem nos pais um exemplo de descontrole emocional diante dos desafios e frustrações da vida, em que o clima relacional familiar vivido é tenso e opressor ou permissivo, e sem fronteiras ou ainda cheio de intervenções inadequadas ou mesmo negligenciadas, poderá herdar uma maldição comportamental, emocional, relacional, psíquica e espiritual pior do que qualquer maldição que possa provir do além.

Dessa forma, educar um filho para a vida vai muito além de aprender algumas técnicas para fazê-lo obedecer e se enquadrar a uma normatização ou a condicioná-lo como se fosse um animalzinho de estimação que abana o seu rabinho ou se aninha em seu colo de forma aconchegante, habilmente treinado pelo mecanismo de recompensa.

Dentre todos os objetivos que os pais possam ter para os seus filhos, o objetivo de ajudá-los a adquirir uma autonomia moral deverá estar no topo da lista. As intervenções parentais poderão e deverão ajudar os filhos a encontrar um caminho profissional, na medida em que se aproximarem do mundo adulto. No entanto, juntamente com a profissionalização é imprescindível que se tornem seres humanos capazes de gerenciar suas emoções e relações, assumindo a responsabilidade por suas escolhas e posicionamentos diante dos inevitáveis desafios da vida adulta. Na infância e adolescência os pais são os principais responsáveis para educar e a partir da vida adulta espera-se que os filhos estejam aptos para assumir suas vidas com autonomia e independência. Novos desafios de crescimento e desenvolvimento virão, e assim será até o final da vida.