Coronavírus

Vacina da UFPR contra a covid-19 deve ficar pronta em 2022, diz reitor

A vacina paranaense não depende da importação de insumos, poderá ser recombinada para combater as variantes do novo coronavírus, tem o custo estimado em R$ 10 a dose e, dependendo dos resultados, tem a possibilidade de ser aplicada até mesmo na forma de spray nasal

Redação RIC Mais
Redação RIC Mais com UFPR
Vacina da UFPR contra a covid-19 deve ficar pronta em 2022, diz reitor
Foto: Marcos Solivan/Sucom UFPR

26 de abril de 2021 - 15:41 - Atualizado em 27 de abril de 2021 - 00:24

Durante a tarde desta segunda-feira (26), representantes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e órgãos estaduais realizaram uma coletiva de imprensa para falar sobre a vacina da UFPR contra a covid-19. Na entrevista, o reitor da instituição de ensino, Ricardo Marcelo Fonseca, explicou que a previsão é de que o imunizante, que ainda está em fase de teste, fique pronto em 2022 e que o requerimento para ingresso na fase clínica com ensaios em humanos, junto à Anvisa, ocorra dentro de aproximadamente seis meses. 

Fonseca lembrou que apesar de parecer um imunizante que chegará tardiamente para a população, a vacina paranaense poderá revolucionar o combate do Brasil à covid-19 nos próximos anos. “Essa vacina é necessária para o Brasil e para o mundo não só neste ano de 2021, será muito provavelmente ao longo dos próximos anos. Nós ainda não temos resultados concretos da chamada fase quatro – das fases clínicas, ou seja, aquelas que dão conta da imunização ou do tempo de imunização que os vacinados têm após receberem suas doses. Não sabemos portanto se ela dura oito meses, se ela dura um ano, se ela dura oito anos. As vacinas são assim, não é à toa que nós temos no Brasil uma campanha de vacinação para a gripe todos os anos. De modo que então, é absolutamente plausível, que não esperemos que exista essa grande chance de que a vacina contra a covid-19 tenha que ser reaplicada permanentemente. Ademais temos as questões das variantes e precisamos, portanto, fazer apostas para o nosso futuro.”

Ainda conforme o reitor, a vacina da UFPR contra a covid-19 não depende da importação de insumos, demonstrou até agora eficácia igual ou até mesmo superior a vacina AstraZeneca/Oxford, poderá ser recombinada para combater as variantes do novo coronavírus, tem baixíssimo custo – estimado em R$ 10 a dose e, dependendo dos resultados, poderá ser aplicada também na forma de spray nasal

O administrador da UFPR lembrou ainda que o estudo do imunizante só é possível graças às pesquisas desenvolvidas por professores e estudantes ao longo dos anos. “A tecnologia que tem sido aplicada nessa vacina deriva de pesquisas do nosso programa de pós-graduação em Bioquímica. É o resultado de um investimento em pesquisas, apesar de todas as dificuldades que temos tido ao longo das últimas décadas.  Essa tecnologia pode ser facilmente recombinada na vacina para eventuais variantes, mas para também outras doenças que não conseguirmos erradicar no Paraná e no Brasil como dengue, chikungunya e até mesmo leishmaniose.”

Como a vacina da UFPR é feita?

A tecnologia utilizada na vacina da UFPR envolve a produção de partículas de um polímero biodegradável, revestidas com partes específicas da proteína Spike, que é responsável pela entrada do SARS-Cov 2 nas nossas células.

Essa proteína é produzida com o auxílio da bactéria Escherichia coli, ou seja, em uma forma capaz de aderir ao polímero. A vacina é composta pelo polímero e pela proteína sintética, sendo que as partículas terão na sua superfície a proteína S, de forma semelhante ao próprio vírus. Com essa solução, não é necessário o uso do coronavírus inteiro para a produção da vacina.

A vacina da UFPR contra a covid-19 está em estudos pré-clínicos. (Foto: Marcos Solivan/Sucom UFPR)

De acordo com o professor da UFPR Emanuel Maltempi de Souza, doutor em Bioquímica e coordenador da pesquisa, essa configuração de nanopartículas induz o organismo a uma resposta eficaz. “O corpo tende a reconhecer a partícula, desmontá-la, pegar as partes que são sensíveis e fazer anticorpos contra elas. Por isso, é importante que estejam nesse formato”.

Embora existam outras vacinas em desenvolvimento com esse princípio, o diferencial do projeto desenvolvido pela UFPR está na nanopartícula que abriga a proteína Spike. O polímero utilizado é biodegradável e biocompatível, ou seja, não tem efeitos tóxicos no organismo, conforme explica o professor. “Se injetamos esse material em uma pessoa, não se espera nenhuma reposta. Agora, se recobrirmos com as proteínas do vírus, teremos uma resposta só contra essas proteínas”.

Outra característica única da vacina da UFPR é que o biopolímero faz dois papéis: além de carrear as proteínas ao seu redor, ele é adjuvante. Ou seja, aumenta a resposta imunológica, sem a necessidade de indução de uma segunda substância. Sendo assim, a vacina se torna muito mais econômica que as demais existentes no mercado, com preço estimado entre R$ 5 e R$ 10 por dose.

“Nós fizemos três ensaios em animais e os soros desses animais mostraram níveis muito altos de anticorpos, ou seja, nós obtivemos reação positiva contra a proteína do coronavírus com o soro diluído pelo menos 16 mil vezes. Em várias situações nós chegamos a diluir o soro 500 vezes e ainda tivemos resposta positiva. Nós também já iniciamos os testes em fase celular e tem sido positivos até agora, mas não foram completados”, explica Souza.

Estágio atual da pesquisa

Testes em camundongos revelaram que, após duas doses da vacina da UFPR, a quantidade de anticorpos produzidos alcançou concentração maior que a da parceria AstraZeneca/Oxford. Porém, para avançar para os testes clínicos, ainda são necessários três ensaios-chave. O primeiro deles é o de neutralização, em que se busca verificar por quanto tempo o nível de anticorpos permanece alto no organismo dos animais. Além disso, é necessário comprovar se esses anticorpos são capazes de bloquear a infecção pelo vírus, o chamado efeito neutralizante. “O que estamos vendo agora é quanto tempo dura essa resposta, para determinar se os efeitos da vacina são transitórios ou duradouros”, explica o professor da UFPR.

O ensaio seguinte será o de proteção animal, em que se verificará qual é a melhor dose da vacina para proteger o organismo. Para isso, os animais, vacinados ou não, serão expostos ao vírus vivo.

Por fim, o teste toxicológico verificará se diferentes concentrações da vacina da Universidade Federal do Paraná poderão trazer efeitos colaterais ao animal de forma global, tais como febre, danos ao sistema hepático ou renal. Só com o ensaio toxicológico concluído é que será possível solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a autorização para o início dos ensaios clínicos.

“Quanto ao cronograma, nós temos algumas análises que não conseguimos fazer nos nossos laboratórios como o estudo toxicológico, por exemplo. Aqui no Brasil nós sabemos de um laboratório que tem as credenciais da Anvisa para fazer esse tipo de teste. Então, obviamente que isso depende da agenda desse laboratório, e do tempo que esses testes vão levar. É um dos pontos que eu vejo que podem variar nesse cronograma”, diz o pesquisador Marcelo Muller dos Santos, que também participa do estudo.

Informamos aos nossos visitantes que nosso site utiliza cookies. Ao usar nosso site, você concorda com nossos Termos de Uso. A maioria dos navegadores aceita cookies automaticamente. Para ver quais cookies utilizamos, acesse nossa Política de Privacidade.