Coronavírus

Fisioterapeuta comenta momento da despedida: “A primeira coisa que aprendi foi o choro da morte”

Profissional da linha de frente revela que é capaz de identificar o choro de quem perdeu alguém “é um choro desesperador, um choro que dói na alma, e a gente tem que escutar isso todo dia”

Guilherme
Guilherme Becker / Editor
Fisioterapeuta comenta momento da despedida: “A primeira coisa que aprendi foi o choro da morte”
(FOTO: THALES RENATO/ PREFEITURA DE SÃO LEOPOLDO)

23 de março de 2021 - 12:42 - Atualizado em 24 de março de 2021 - 09:32

Na rotina dos profissionais da linha de frente da covid-19 estão diversas funções técnicas que somente eles são capazes de executar. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, auxiliares de enfermagem são capacitados para exercer com maestria a técnica aprendida durante anos de estudos. Porém, a fisioterapeuta Leandra Alainz revelou que nos leitos de UTI o trabalho destes profissionais vai muito além da teoria dos livros.

“Quando temos contato com paciente na hora da morte nós viramos humanos, nós saímos do automático. Quando alguém está morrendo ninguém está preocupado em quantas horas vamos fazer, não estamos preocupados em quantos atendimentos vamos fazer, não pensamos se vamos carimbar a pasta dele, em quantas vezes teremos que visitar o leito. A gente está preocupado se ele está com frio, se ele precisa de alguma coisa, se o lado que ele está deitado é confortável”,

comentou Leandra.

A profissional, que viralizou nas redes sociais após compartilhar textos emocionantes sobre a rotina da UTI covid, revelou detalhes em uma de suas publicações sobre o difícil momento da despedida de pacientes

“Todos nós da área de saúde temos isso, essa preocupação, esse além. Essa coisa que fica fora da profissão. Eu como fisioterapeuta tenho várias funções, e nenhuma delas é colocar o cobertor neles, mas é tudo que eu quero fazer neste momento. É fazer um carinho, dizer que estamos juntos. Esse carinho, contar uma história, compartilhar algo, fazer uma chamada de vídeo, isso traz humanização ao atendimento e que permite sermos mais humanos”,

contou Leandra.

O choro da morte

Além da dor de perder um paciente, os profissionais ainda compartilham momentos de luto com os familiares das vítimas. Apesar de não serem responsáveis por levar a triste notícia aos parentes, Leandra lembrou que uma das primeiras coisas que aprendeu dentro do hospital foi identificar o “choro da morte”.

“Se você colocar cinco choros, um atrás do outro, eu vou saber exatamente quem perdeu alguém, porque é um choro desesperador. Um choro que dói na alma e a gente tem que escutar isso todo dia. Os familiares nos perguntam ‘porque eles morreram’, ‘ele era novo’, ‘ele não tinha nada’, e nós não sabemos o que dizer”,

disse emocionada.

Para estes momentos, Leandra destaca que precisa ser forte, porém, só consegue isto porque do outro lado está alguém que precisa de força. “A gente é só um pouco mais forte do que os que perdem, e só somos um pouco mais fortes porque precisamos ajudar eles. Se eu pudesse, eu gostaria de sentar e chorar com cada família que perde alguém!, contou.

Além disso, no momento da pandemia, a cada paciente que deixa um leito, outro já aparece precisando dos mesmos cuidados, ou mais. Neste caos da saúde, os profissionais precisam ser super-heróis e tirar energia de onde já não existe mais

Confira o texto de Leandra Alainz na íntegra sobre despedida:

E quando o prognóstico não é bom?
E quando a gente mexe e remexe no paciente, administra todo tipo de medicamentos, faz todos os procedimentos possíveis, juntando técnico de enfermagem, enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista, e médico na beira leito. Discutindo mil vezes o caso e mesmo assim o paciente não responde?
E quando a morte é eminente?
Tiramos as vestes da alma e seguramos, literalmente, a mão deles.
Passamos por um processo de revezar atenção, falamos mil vezes se preciso “Dona fulana, a senhora não tá sozinha tá? Tem muita gente cuidado da senhora, não precisa ter medo, vamos ficar aqui contigo”
“Seu fulano, pode ficar tranquilo que vamos dar um remédio para melhorar, logo logo isso vai passar”
Cada profissional do seu jeito se compadece e chega pertinho do leito, ajusta máscara, põem um cobertorzinho, olha mais uma vez, abre as cortinas para ter visão, confere batimentos, cuida a saturação, oferece água. Cada profissional vai compartilhando com o paciente, mesmo que com dor, o caminho do fim.
Os profissionais da saúde acostumam-se a lidar com mortes porque precisam trabalhar depois dela, precisam ir para o próximo paciente, o hospital tá lotado, leito não fica parado. Mas todo o profissional da saúde tem ao menos uma história que deixou cicatriz.
E a COVID é um emaranhado de cicatrizes, mas vendo o processo me orgulho de ser profissional da saúde.
Que todos os profissionais da saúde lembrem que eles realmente fazem a diferença, mesmo e principalmente quando o fim é eminente.
Força para todos!