Clarice Ebert
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Por Clarice Ebert

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Será que casados são mesmo eternos namorados?

Comumente inúmeros casados declararam no dia dos namorados que são “eternos namorados”. Isso é possível ou é apenas um clichê popular?

Será que casados são mesmo eternos namorados?
Casados eternos namorados

20 de junho de 2020 - 19:23 - Atualizado em 30 de junho de 2020 - 11:35

Casados eternos namorados

No dia dos namorados, as redes sociais ficaram repletas de lindas fotos de casais apaixonados e românticos. O que chamou especialmente a atenção foi a avalanche de casais casados afirmando em suas postagens a expressão “somos casados e eternos namorados”. Essa expressão é muito bonita e evidencia a permanência conjunta de pessoas que pretendem estar em uma relação permeada pelas pautas do namoro. As postagens podem evidenciar uma realidade do casal ou mesmo um desejo, quando essa expressão nem sempre reflete a realidade da vida conjunta, o que sugere uma reflexão. Será que os casados são mesmo eternos namorados?

O namoro é uma fase do relacionamento

Tradicionalmente sabe-se que o namoro é uma fase do relacionamento de um casal que antecede as fases do noivado e do casamento. No entanto, se namoro envolvesse somente a fase preliminar da vida a dois, certamente não poderia ser aplicado para quem já está vivendo uma fase mais avançada do relacionamento como, no caso, a fase do casamento. Mas, o que garante que os casados sejam efetivamente “eternos namorados”? O que a fase do namoro contém que poderia perpetuar eternamente nas fases ulteriores do relacionamento de um casal?

O que significa namoro?

Bastou vasculhar rapidamente a internet para chegar a um significado muito simples: “Namoro significa a relação afetiva mantida entre duas pessoas que se unem pelo desejo de estar juntas e partilhar novas experiências” (1). De acordo com esse significado, podemos pensar em algumas características para avaliar se um casal casado pode se afirmar como “eternos namorados” ou não.

Casados são eternos namorados se o casamento for uma relação afetiva mantida entre ambos

Basicamente significa que duas pessoas estão comprometidas e envolvidas na relação, não apenas uma delas. No entanto, não é qualquer envolvimento, pois envolve uma proatividade para manter a relação como afetiva. Caso não houver esse compromisso com o sistema do casamento, talvez tenham deixado de namorar após o cerimonial. Por outro lado, namorar como casado, muitas vezes, pode ser compreendido equivocadamente, como se envolvesse apenas o encontro sexual. Por esse entendimento, muitos casados, se consideram um casal que namora pelo simples fato de se encontrarem sexualmente, mesmo que na maior parte do tempo, ao invés de expressões de afeto, estejam se atritando, desqualificando e negligenciando.

O encontro sexual no casamento não pode ser caracterizado como namoro se estiver dissociado da relação afetiva

O encontro sexual até pode fazer parte do namoro, mas esse encontro dissociado da relação afetiva promovida por ambos cônjuges, não pode ser caracterizado como namoro no casamento. Sexo no casamento, sem afeto, está mais para uma relação objetal, em que se cumpre com o que se entendia antigamente como um “dever conjugal”, no qual se têm tarefas para atender uma necessidade fisiológica apenas. Por esse viés, um casal casado ao ter um evento sexual no dia dos namorados (ou em outros dias) não significa que sejam “eternos namorados”. Assim sendo, um casal casado, para que se perpetue namorando, deverá manter sua relação afetiva em sua dinâmica.

A afetividade no casamento envolve carinho, ternura, aceitação, reconhecimento, diálogo, serviço, solidariedade, compaixão, empatia, admiração, amor e respeito. Essas expressões devem ser manifestações recíprocas e podem ser avivadas, caso se tornem deficitárias na caminhada conjugal.

Casados são eternos namorados se permanecerem unidos pelo desejo de estarem juntos

Um casal casado, pode se manter unido pelo matrimônio por muitas razões. Dentre essas razões, uns seguem juntos por causa dos filhos, outros por conta do patrimônio, outros por estarem subjugados a relações tóxicas, ou por dependências diversas. Ainda há os que permanecem juntos por repetições de padrões familiares ou pela fidelidade a crenças religiosas. Qualquer uma dessas razões, utilizadas como justificativas para manter a relação do casamento, pode indicar que os envolvidos, não importa o tempo de casamento, deixaram de ser “eternos namorados”. Talvez sua vida conjunta se configurou em uma república muito bem administrada ou em um sistema caótico. No entanto, para se configurar como namoro no casamento, uma das características será que o casal esteja junto porque assim o deseja.

Casados são eternos namorados se desejarem partilhar as novas experiências da vida

Infelizmente, muitas vezes, se compreende o “cerimonial do casamento” como se fosse o casamento em si, e garantisse uma vida satisfatória a dois. Muitos casados, cegados por esse mito, comumente diminuem o investimento na relação após o cerimonial, ou até mesmo abdicam da relação, assumindo posturas individualistas. Sendo assim, perdem gradativamente a sua conexão e deixam de perceber as inúmeras oportunidades de partilhar as novas experiências que a vida a dois oferece. No entanto, para que casados se mantenham “eternos namorados”, uma das evidências será o desejo de partilhar as novas experiências da vida.

Diante das vicissitudes da vida, não importa o que acontecer, os casados que são “eternos namorados” se mostrarão abertos a partilhar tantos os sabores como os dissabores, tanto as alegrias como as tristezas, bem como os aprendizados que a vida de casado oferecer.  

Será que os casados são mesmo eternos namorados?

Após o exposto acima, talvez a resposta mais coerente para essa pergunta seja: depende. Por um lado pode-se dizer que casados são “eternos namorados” quando, em seu casamento, ambos são proativos em manter a relação como afetiva, de maneira tal que se mantém unidos pelo desejo de estar juntos e para partilhar, em parceria, as novas experiências da vida. Caso contrário, a expressão “eternos namorados” poderá ser mero clichê popular, e o namoro terá sido algo vivido apenas na fase preliminar ao casamento e não perpetuado na relação de casados. No entanto, seguir namorando após o cerimonial, pode se tornar uma realidade para o casamento, não importa a fase. Essa possibilidade pode ser aplicada quando os envolvidos se dispõem a reavivar as pautas listadas acima. Requer algum empenho, mas os frutos desse investimento serão verdadeiramente saborosos.

(1) Significado de namoro. Disponível em: https://www.significados.com.br/namoro/