Clarice Ebert
Vida Familiar

Por Clarice Ebert

Saúde
Clarice Ebert

O casamento pode prejudicar a saúde mental?

Apesar de ser uma via importante para o crescimento pessoal, será que o casamento pode prejudicar a saúde mental? Veja nesse texto algumas dinâmicas conjugais que podem contribuir para esse prejuízo.

O casamento pode prejudicar a saúde mental?
O casamento pode prejudicar a saúde mental?

9 de janeiro de 2021 - 16:52 - Atualizado em 9 de janeiro de 2021 - 17:27

O casamento e a saúde mental

O casamento pode ser uma via importante de crescimento pessoal e favorecer a saúde mental em muitos aspectos. Especialmente quando ambos estão envolvidos de forma proativa para construir o vínculo em sua conjugalidade. Por essa via os cônjuges estão empenhados no aprofundamento de sua intimidade e experimentarão o sentido da vida a dois. No entanto, é importante esclarecer que intimidade não quer dizer sexualidade. A vida sexual deveria ser parte da intimidade, mas infelizmente nem sempre é. Pois é possível haver muito sexo sem intimidade alguma. Geralmente é assim nos relacionamentos objetais. Intimidade diz respeito a um relacionamento onde ambos são parceiros um do outro, de maneira que possam ser pessoas que pensam, sentem, desejam e participam nas decisões, em todas as áreas. Para essa possibilidade, ambos exercem a aceitação pelo que cada um é em sua essência e individualidade. Fazem esse movimento sem impor mandos e perspectivas pessoais ao cônjuge. Quando em um casamento apenas um dos cônjuges tem espaço para desejar, opinar e decidir, pode haver sensível comprometimento da saúde mental. Para saber se um casamento está ameaçando a saúde mental dos envolvidos é importante observar alguns sinais. Nesse texto se dá especial atenção para o narcisismo, a psicopatia, a comunicação violenta, a deslealdade, a dependência emocional e o individualismo.

Narcisismo

Uma pessoa narcisista dificilmente se importa com o outro. O mais importante para o narcisista é que sejam satisfeitas as suas vontades, na hora e do jeito que ele quiser. No casamento ele se percebe superior e considera que seu cônjuge é um privilegiado por estar com ele. Segundo a ótica narcísica, o cônjuge deveria sentir-se honrado em submeter-se e promover atos de servidão e dedicação exclusiva. Até mesmo quando o cônjuge paga as contas do narcisista, este entende que o pagante está em posição de privilégio ao fazer isso. As posturas narcísicas se apresentam na vida conjunta corriqueira em inúmeros aspectos, podendo envolver a decisão para o local de férias, para o que se vai comer, para o estabelecimento das rotinas, como se relacionar com a família e amigos, como gastar o dinheiro, bem como a configuração da vida sexual. O cônjuge em suas diferenças e particularidades, raramente é aceito, apenas em algumas concessões que apresentarem ganho para o narcisista. Para o narcisista, o cônjuge é apenas um objeto de interesse para a obtenção de ganhos pessoais. Costuma ser desqualificador, manipulador, sedutor e impositivo, e raramente se arrepende. Em suas imposições comumente isola o cônjuge dos relacionamentos com a família e amigos, querendo-o como objeto de exclusividade. Um casamento onde um dos cônjuges é narcisista, ou ambos são, se configura em relacionamento tóxico ou mesmo abusivo. Pode afetar seriamente a saúde mental. O cônjuge narcisista dificilmente aceita propostas de ajuda ou de tratamento psicoterapêutico individual ou de casal, pois em sua ótica a pessoa errada e insuficiente é sempre o outro. Mesmo assim, o cônjuge de uma pessoa narcisista precisa buscar ajuda para reestruturar sua saúde mental ou para minimizar os riscos de perdê-la.

Psicopatia

Nem todos os narcisistas são psicopatas, mas todos os psicopatas são narcisistas. O diferencial ainda se estabelece pela falta de empatia, ausência de arrependimento e o potencial exacerbado para a maldade e perversão. Estudos indicam que a psicopatia pode ser leve, moderada ou grave, mas qualquer nível pode ser devastador, mesmo que o psicopata em questão não seja um matador em série. No casamento, o psicopata não se importa com o sofrimento do cônjuge, às vezes até mesmo se diverte com isso. Isso não quer dizer que uma pessoa com uma insensibilidade aqui ou ali seja um psicopata. Mas, o psicopata carrega em si uma insensibilidade que se manifesta nas imposições e manipulações cotidianas e recorrentes. O cônjuge é apenas um objeto para dar manutenção ao seu poder, status e/ou diversão. Pode matar fisicamente, mas nem sempre. Às vezes, as “mortes” são de âmbito subjetivo, como a aniquilação da identidade do cônjuge, por exemplo. Um casamento assim, pode ser altamente tóxico e abusivo. Uma pessoa casada com um cônjuge psicopata corre sérios riscos de morte e de adoecimento mental, e precisa buscar ajuda o quanto antes.

Comunicação Violenta

A comunicação ofensiva, sistematicamente recorrente, pode sinalizar um relacionamento abusivo e tóxico. Comumente inclui desqualificação, rotulação, comparação, diminuição, interpretação, acusação, culpabilização, julgamento e condenação. É especialmente devastador quando essa comunicação estiver agregada às palavras “sempre” ou “nunca”. Elas geram a desesperança do reconhecimento de que possa haver mudança, melhoria ou recuperação de si mesmo, do outro e da relação. Expressões como: “Você sempre é”, “Você sempre faz” ou “Você nunca é”, “Você nunca faz”, carregam afirmações que expressam valorações definitivas, como se fossem diagnósticos fechados. Em um casamento onde há comunicação violenta, os envolvidos podem se cansar do relacionamento. Ao invés de se encontrarem como pessoas, numa reciprocidade que nutre o bem-estar conjunto, o casal acaba se repelindo e se distanciando. Mesmo que pessoas violentas em sua comunicação sigam juntas, podem experimentar uma interatividade nada prazerosa, em que estar com o outro gera um fardo, muitas vezes, insuportável, o que pode comprometer a saúde mental. Para minimizar esse comprometimento será importante que ambos se abram ao aprendizado para uma comunicação não violenta, que seja dialógica, numa reciprocidade de fala assertiva e escuta empática.

Deslealdade

O casamento é um relacionamento onde comumente se deposita confiança e credibilidade no cônjuge. Em experiências de traição, a lealdade transita para a desconfiança. A desconfiança evolui na medida em que a deslealdade se mobiliza em semeaduras que detonam a confiança do cônjuge. Este, quando aguçado por rastros de informações equivocadas, muitas vezes se torna um habilidoso detetive, às de voluntariamente, outras vezes involuntariamente. As incógnitas se dissolvem muitas vezes em descobertas surpreendentes e angustiantes. A desconfiança pode se estabelecer em várias situações da vida conjugal, desde pequenas mentiras a grandes enganos. Quanto mais deslealdade, mais desconfiança haverá. Assim se estabelece uma dinâmica retroalimentativa nada prazerosa. Não poder confiar no cônjuge, pode instaurar muitas angústias e prejudicar profundamente a saúde mental. A descoberta de traições relacionais, sexuais e financeiras, por exemplo, pode gerar inúmeras sensações de vulnerabilidade e insegurança, possibilitando a evolução para depressões e/ou ansiedades patológicas, afetando significativamente a saúde mental. O arrependimento e a reparação de danos são caminhos possíveis para a reconstrução da confiança, mas requer um trabalho de evolução como pessoa para o caminho da lealdade. O perdão dado da outra parte não significa um “cala boca, não se fala mais nisso”, mas uma possibilidade de abertura para se tratar em profundidade a dinâmica do casal. A liberdade conjunta se estabelecerá na medida em que a decisão seja pela transparência e não haja mais nada a esconder.

Passividade/Agressividade

Importante dizer que os conflitos estão presentes em qualquer casamento, mesmo os considerados “casamentos santos”. O que torna um casamento mais funcional ou disfuncional não é a presença e/ou a ausência de conflitos, mas a forma de enfrenta-los. O comportamento passivo/agressivo é uma das formas disfuncionais de enfrentar os conflitos conjugais e familiares. Basicamente por suas características que não favorecem as resoluções dos problemas de forma adequada e pelo sofrimento que estabelece na relação com o cônjuge, o que prejudica a saúde mental. Os recursos inadequados geralmente incluem piadas sarcásticas para “alfinetar” o cônjuge, com tons irônicos, ou insultos e ridicularizações. O cônjuge passivo/agressivo comumente fica emburrado e se recusa a falar no assunto. Às vezes, pode arquitetar vinganças mentais ainda por algum tempo após o evento ocorrido que promoveu a chateação. Apesar de tentar disfarçar a raiva, fica de mau-humor, gerando um clima pesado e tenso ao convívio. Se comporta com revanchismo e retaliações, apresentando birra, teimosia e desfazendo combinados. A raiva gera um ressentimento que até mesmo pode impedir o contato visual com o cônjuge. Mesmo após aceitar o pedido de desculpas, a raiva pode continuar ativa internamente, de forma indeterminada, as vezes por horas ou dias. Para superar essa condição é importante reconhecer que a raiva é um sentimento válido e quem a sente pode aprender a lidar melhor com ela. O aprendizado da assertividade pode ajudar na expressão dos sentimentos, pensamentos e necessidades de uma forma construtiva e não hostil. Envolve aprender a comunicar a sua perspectiva e os seus sentimentos sem ofender o cônjuge. A assimilação dessa habilidade pode favorecer a saída da dinâmica da passividade/agressividade.

Dependência Emocional

A dependência emocional no casamento se estabelece quando uma pessoa depende do cônjuge para ser feliz, para sentir-se bem, sentir-se amada, ou mesmo para dar passos na vida, como tomar decisões ou obter provisões, entre outros. A dependência emocional pode trazer sofrimentos leves ou mesmo evoluir para problemas mentais que necessitem de tratamento. Comumente, quem convive com um cônjuge assim, se envolve numa trama de dependência emocional e acaba se tornando codependente. Por um lado, tem uma pessoa numa postura de “sanguessuga”, que transfere para o cônjuge a realização de todas as expectativas de felicidade e segurança, e por outro lado tem o cônjuge que aceita o desafio, mesmo que de forma inconsciente. Apesar de ser uma tarefa do impossível, esse cônjuge se debruça em ações e movimentos para atender as expectativas lançadas sobre ele. No entanto, por conta da impossibilidade de suprir as pautas da dependência emocional no casamento, poderá haver sérios prejuízos para saúde mental. Aquele que fica na expectativa experimenta frustrações e decepções, pelo fato do outro não dar conta da tarefa. Aquele que assume a tarefa de satisfazer as expectativas pode entrar em exaustão emocional. Uma evolução indicada, seria cada um se responsabilizar por sua própria realização e felicidade, e promover na relação uma interatividade sem tantas demandas. Assim a convivência poderá ser um celeiro de trocas afetivas e experiências enriquecedoras, ao invés de uma cratera de insatisfações.

Individualismo

No individualismo há uma tendência de a pessoa viver exclusivamente para si, com ações independentes e atitudes bastante egoístas. Usa como base a sua satisfação, a sua verdade e tende a ditar as regras nas relações. No casamento, costuma organizar sua vida e agenda de forma isolada, sem levar em conta a vida e a agenda do cônjuge. Apesar de seu estado civil constar como “casado” ainda assume posturas solteiras na relação do casamento. Não reconfigura suas relações com a família de origem, nem com os amigos, hobbies, sonhos ou objetivos. O cônjuge é um mero personagem em uma história de interesses pessoais e individualistas, podendo ser descartado assim que não mais servir aos seus desejos egoístas. O vínculo dificilmente se forma em casamentos onde o individualismo esteja presente. Não incluir o cônjuge na vida e na agenda poderá trazer muito sofrimento por meio de desencontros e sentimento de rejeição pela falta de inclusão, causando brigas e desconexões, que podem afetar a saúde mental. Uma situação assim, se torna desprazerosa e o individualista comumente, ao invés de aceitar o convite para a construção de uma interconexão, acaba simplesmente descartando o cônjuge. Assim sendo, muitos relacionamentos evoluem para separações. Ainda é preciso dizer que individualismo não é o mesmo que individualidade. A individualidade precisa ser mantida em qualquer relação, mesmo no casamento. Ela diz respeito de quem o indivíduo é em sua pessoalidade, identidade e singularidade. Já o individualismo é diferente, pois revela uma restrição na habilidade de construir vínculo. Um cônjuge individualista conseguiria ultrapassar o seu individualismo ao abrir-se também para as perspectivas da pessoa com quem está casado, e levá-las empaticamente em consideração.  

Relacionamentos conjugais mediados pelo narcisismo, psicopatia, comunicação violenta, deslealdade, dependência emocional e individualismo, podem trazer sérios prejuízos para a saúde emocional dos cônjuges.

Ainda é importante dizer que as relações conjugais, em sua dinâmica interativa, se estabelecem via retroalimentação e não é diferente em relações que apresentam as características citadas no texto acima, mesmo nas mais tóxicas e abusivas. É numa dinâmica retroalimentativa que são nutridas e mantidas as relações no casamento. Importante destacar que há sempre duas pessoas envolvidas, tanto na construção das dinâmicas funcionais como das disfuncionais. Para mudar as dinâmicas negativas no casamento, causadoras de prejuízo para a saúde mental, é muito comum os casais necessitarem de ajuda. Se for o seu caso, pelo bem da sua saúde mental, do seu casamento e da sua família, não hesite em buscar.

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