Clarice Ebert
Vida Familiar

Por Clarice Ebert

Saúde

3 de maio de 2020 - 00:00

Atualizado em 4 de junho de 2020 - 14:52

Manutenção do relacionamento

A construção de um relacionamento de amor, na convivência conjugal, envolve o compromisso com a manutenção do relacionamento.

Clarice Ebert
Vida Familiar

Psicóloga e terapeuta familiar no Instituto Phileo. Professora, palestrante e escritora. Autora do livro "Eduque seu filho, nisso há esperança".

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Manutenção do relacionamento

O compromisso com a manutenção do relacionamento

A construção de um relacionamento de amor, na convivência conjugal, envolve o compromisso com a manutenção do relacionamento. Isso significa que haverá disponibilidade e proatividade recíproca para o enfrentamento dos desconfortos e para a resolução dos conflitos. No entanto, é importante dizer que resolver conflitos não precisa necessariamente ser visto como um combate em uma guerra. Visto que, se o casal se dedicar, no dia-a-dia, a desenvolver sua criatividade, poderá encarar as diferenças e os desconfortos como oportunidades para o crescimento. Nesse sentido, é mais coerente se empreender na manutenção do relacionamento do que promover grandes resgates de graves deteriorações, apesar de serem necessários às vezes.

Metáfora “cupins do relacionamento”

A manutenção do relacionamento envolve o cuidado das pequenas coisas. Para uma melhor compreensão desse cuidado, Steven Carter (1) apresenta a metáfora “cupins do relacionamento”. O autor, observando os cupins em um batente de uma janela de sua casa, fez uma analogia entre o relacionamento conjugal e a devastação que os cupins podem fazer em sua manobra. Cupins são insetos que se infiltram em peças de madeira e, mesmo sendo criaturinhas mínimas, podem, com pequenas mordidinhas, destruir uma peça inteira de madeira, deixando-a completamente oca. Da mesma forma, os pequenos desconfortos do dia-a-dia, se forem negligenciados, podem corroer gradativamente um relacionamento.

Checagem contínua das pequenas ameaças

Para Steven Carter, os casais que se ocupam da manutenção do relacionamento checam regularmente se há presença de “cupins” em sua relação. Os “cupins do relacionamento” podem ser pequenas ameaças do dia-a-dia, quando os casais se envolvem em uma série de conflitos. Por exemplo, a maneira certa de apertar o tubo da pasta de dentes, a posição correta do papel higiênico, a elaboração de uma receita culinária, ou mesmo as complexidades em torno da administração financeira e da educação dos filhos. Os diversos desacordos, muitas vezes, são mediados apenas por uma série de justificativas defensivas. Steven Carter apresenta uma lista de pequenas coisas, que muitas vezes são usadas como aquelas em que se diz “não faz mal”, e que podem representar um “cupinzeiro gigantesco” para a relação conjugal. Assim assume-se a popular postura do “não dá nada”, que cria uma falsa sensação de que o relacionamento se manterá incólume.

Exemplos de pequenas coisas como “cupins do relacionamento”

Não faz mal se eu não perguntar a opinião dela”. “Não faz mal se eu não estiver prestando muita atenção”. “Não faz mal se eu não for totalmente sincera sobre isso”. “Não faz mal se eu não me esquecer de ligar avisando que vou chegar atrasado”. “Não faz mal se eu não tirar minhas roupas sujas do chão”. “Não faz mal se eu não disser ‘eu te amo’”. “Não faz mal se eu não retornar a ligação dele nesse instante”. “Não faz mal se eu não trocar o rolo de papel higiênico”. “Não faz mal se eu comer o pedaço de bolo que ela estava guardando para mais tarde”. “Não faz mal se eu preparar uma bebida para mim, mas não me oferecer para preparar uma para ele também”. “Não faz mal se eu não arrumar a cama hoje”. “Não faz mal se eu nem sempre disser obrigado”. (p.20)

Percepção do que pode corroer o relacionamento

Por certo, a lista apresentada por Steven Carter pode conter muitos outros “cupins” do tipo “não faz mal se eu…”. Portanto, é importante que cada casal se exercite na percepção de quais podem ser os “cupins do relacionamento”, que estão corroendo o seu casamento. Assim sendo, será possível perceber que nem sempre são as grandes coisas que corroem a satisfação da convivência a dois. Com efeito, geralmente a ocorrência de pequenos incidentes negativos e repetitivos pode ser como as mordidinhas dos cupins escondidos em um armário. Com o passar do tempo destroem qualquer estrutura de madeira, por mais bela e forte que seja. Da mesma forma, os pequenos incidentes mal cuidados, podem destruir o mais admirável e sólido dos casamentos.

O enfrentamento dos desconfortos na manutenção do relacionamento

Cada cônjuge deve se empenhar em descobrir quais são as questões que perturbam seu parceiro ou parceira. Da mesma forma também deverão se ocupar em revelar um para o outro do que angustia. A partir dessa descoberta,os cônjuges poderão promover criativamente um acolhimento dos desconfortos, para que sejam minimizados na convivência. À vista disso, Steven Carter diz que é importante aprender a lidar com as próprias frustrações, ansiedades e estresses, e também com as do cônjuge. Portanto, esse é um desafio que faz parte do processo de construção de um relacionamento mais saudável. Desse modo, simplesmente ignorar, esconder ou exigir que o outro aceite suas ansiedades e estresses, não seriam boas posturas, pois poderão colocar em risco a relação conjugal.

As posturas de negligência, isolamento ou imposição, ao invés de minimizar as ameaças corrosivas e destrutivas, contribuem para que as dificuldades relacionais sejam mantidas, alimentadas e até mesmo fortalecidas.

Amorosidade e o potencial criativo na manutenção do relacionamento

Os cônjuges que direcionarem a sua amorosidade e utilizarem o seu potencial criativo para lidar com as pequenas situações presentes no dia-a-dia na convivência conjugal, possivelmente experimentarão maior harmonia. Apenas “empurrar os problemas com a barriga”, o que seria o mesmo que protelar, adiar ou deixar para depois algo que precisa ser feito, não elimina as dificuldades, pode até mesmo aumentá-las. Sendo assim, cônjuges que optam por prestar atenção um no outro, e em explorar formas assertivas de lidar com as situações do cotidiano, seguem melhor em sua caminhada conjunta.

Proatividade em reciprocidade

Na medida em que for proativo em reciprocidade na manutenção do relacionamento, o casal estará mais alerta na percepção do surgimento de novos “cupins” em seu relacionamento. Assim, os cônjuges terão mais recursos para trabalhar em sua remoção, antes que se forme um imenso “cupinzeiro” com potencial de destruir a estrutura de seu relacionamento. Ainda é importante lembrar que, possivelmente, novos “cupins” surgirão, ou seja, não serão eliminados de uma vez por todas. Portanto, será necessário compreender que esse aspecto faz parte da convivência em qualquer relacionamento.

Os casais mais proativos em reciprocidade, de forma contínua, na percepção do que pode corroer o relacionamento, no enfrentamento dos desconfortos e na mobilização de seu amor e respeito, caminharão melhor na manutenção de seu relacionamento.

Assim sendo, não apenas manterão um relacionamento de aparências, mas poderão verdadeiramente experimentar o sentido da vida a dois.

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(1) CARTER, Steven. Como fazer o amor dar certo. Rio de Janeiro: Sextante, p. 19-22.