Clarice Ebert
Vida Familiar

Por Clarice Ebert

Saúde
Clarice Ebert

Para manter a chama do amor

Para se manter a chama do amor, alguns elementos são indispensáveis, que similarmente ao fogo para crepitar, precisa de combustível, calor e ar.

Para manter a chama do amor
Chama do amor

28 de fevereiro de 2020 - 00:00 - Atualizado em 4 de junho de 2020 - 15:01

A chama do fogo

Os especialistas (1) afirmam que para se produzir fogo é imperativo que ocorra uma combustão, que por sua vez, necessita do combustível, do calor e do comburente (do ar) para acontecer.

  • O combustível é algo que queima e é o que alimenta o fogo, sendo um campo de propagação (um pedaço de madeira, uma vela, um papel, gasolina, entre outros). Na presença do combustível o fogo caminhará por ele, podendo aumentar ou diminuir a faixa de atuação.
  • O calor é o que gera inicia o fogo, fazendo com que se propague pelo combustível. Seria aquela faísca elétrica ou chama ou superaquecimento. O calor pode ser obtido com o atrito, como riscar um fósforo, por exemplo. O combustível precisa de aquecimento para produzir gases, que combinados com o comburente (ar) formam uma mistura inflamável.
  • O comburente é o ativador do fogo e dá vida às chamas, é o oxigênio, que é o elemento presente no ar que respiramos. Se o oxigênio estiver presente em uma porcentagem muito baixa, não haverá chama, somente brasa.

Sem ar não há oxigênio e sem oxigênio não há fogo. Sem sabedoria não há respeito e sem respeito não há amor.

Uma metáfora para manter a chama do amor

A chama do fogo pode ser uma excelente metáfora para uma reflexão sobre como manter a chama do amor para a vida a dois. O fogo pode ser equiparado com a dinâmica relacional do casal. É muito comum os casais idealizarem a vida a dois, como sendo uma dinâmica envolvente e prazerosa. Imaginam que uma dinâmica assim se manifesta quando existe atração mutua num desejo de ambos estarem juntos, tanto na expressividade sexual, como afetiva e interativa. No entanto, o que poucos parecem saber é que, apesar da atração ser indispensável, ela será insuficiente para manter a chama do amor na vida a dois.

A atração é indispensável, mas também insuficiente

Assim como o fogo não crepita somente com o combustível, o amor não se manterá somente com a atração. Uma gasolina, por exemplo, não gerará fogo sem o calor e o ar. Da mesma forma, para o relacionamento de um casal, não basta ter atração (a química), pois será necessário também haver atenção carinhosa e respeitosa de ambos (que seria como o calor para o fogo) e também a sabedoria na convivência (que seria como o ar para que se forme a mistura inflamável).

A atração para manter a chama do amor

A atração é a química da paixão, que geralmente aproxima um casal e o instiga a uma conexão, que leva ao desejo de se unirem para uma vida a dois. O apaixonar-se pode ser um sentimento arrebatador, gerado por inúmeras idealizações por quem se está apaixonado. Ocorre uma atração por quem se imagina que o outro é, e pelo que se projeta nele em termos de expectativas de felicidade. É prazeroso e é uma porta de entrada necessária para que ocorra a conexão com alguém que se escolhe para a parceria na caminhada da vida.

O mito da suficiência da atração

Os casais que considerarem que a atração basta para manter a chama do amor para a vida a dois, poderão deparar-se com muitas frustrações. Não porque a vida a dois é uma chatice ou uma prisão que extermina a paixão, mas porque, ilusoriamente, o casal entra na vida a dois acreditando no mito da suficiência da química da atração. Seria o mesmo que acreditar que ter um tonel de gasolina parado em um canto de uma oficina seria o suficiente para provocar uma combustão. Certamente, assim como não basta ter o combustível para ocorrer o fogo, também não basta haver somente a atração para manter a chama do amor na vida a dois.

A atenção para manter a chama do amor

Um casal, mesmo que sinta atração um pelo outro, precisa compreender que para manter a chama do amor ainda são necessários outros elementos. Um deles será a atenção carinhosa e respeitosa. Na dinâmica da atenção mutua, as sinalizações e solicitações do outro devem ser levadas em consideração. Isso significa que algumas posturas deverão ser realinhadas para gerar bem estar a ambos no relacionamento.

Na vida a dois, será necessário deixar de fazer algo, às vezes, não porque é proibido, mas por respeito ao outro.

Dar atenção ao outro e a si próprio, faz com que um casal melhore sua escuta e sua forma de falar. A atenção passa pela arte da comunicação. Ambos devem se envolver em comunicar de forma mais efetiva o quanto o outro é importante. Prestar mais atenção ao que o outro solicita, pode ser um dos elementos que faltava para reacender a chama do amor.

Conduta comunicativa do valor do outro

Na medida em que desenvolvem uma conduta comunicativa do valor do outro, ambos contribuem para a construção de sua autoestima. Essa dinâmica reforça o querer estar junto, o que contribui para manter a chama do amor, assim como o calor para gerar o fogo. Dessa forma, para que um casal consiga manter a chama do seu amor, a atenção carinhosa e respeitosa deve se unir à atração. No entanto, ainda assim, esses dois elementos serão insuficientes. Seria o mesmo que ter a gasolina e o calor, mas sem o ar. Não haverá oxigênio e sem o oxigênio não haverá fogo. Da mesma forma, além da atração e da atenção, será necessário o elemento da sabedoria, para que a chama do amor seja mantida a médio e longo prazo na vida a dois.

A sabedoria para manter a chama do amor

A sabedoria, para a convivência de um casal que deseja manter a chama do seu amor, pode ser equiparada ao comburente para a ocorrência do fogo. O comburente é o ar, que fornece o oxigênio para a combustão. A sabedoria manterá o casal perceptível e sensível às necessidades um do outro. Não que tenham que ser responsáveis em suprir as necessidades um do outro, pois essa será uma tarefa do impossível. Especialmente porque humanos não conseguem suprir plenamente a expectativa de felicidade uns dos outros. Esse suprimento é trabalho pessoal de cada um. Na vida a dois ninguém é deus de ninguém, mas são seres humanos buscando se amar e respeitar. Dessa forma, a postura de facilitadores do caminho um do outro é a que mais favorece um casal que busca manter a chama do seu amor.

Facilitadores do caminho

A sabedoria na convivência viabiliza a postura de ambos como facilitadores do caminho um do outro, para que tenham suas necessidades supridas. Isso significa basicamente que cada um deve se posicionar no relacionamento para não ser um muro que bloqueia a felicidade, nem corda que amarra e boicota os sonhos, nem areia movediça que suga o sucesso, e nem erva daninha que invade o espaço e mata a essência do outro. Ser um facilitador no relacionamento alivia o fardo de ter que suprir o outro em todas as suas expectativas e confere a ambos a responsabilidade na adesão ao processo do crescimento pessoal.

O ar necessário para o relacionamento

A sabedoria no relacionamento é o elemento fundamental para que os cônjuges sigam abertos um ao outro no olhar, no falar, no ouvir e no abraçar. Sabiamente percebem que as diferenças são as riquezas que cada um traz, portanto, ao invés de aniquilá-las, se empenham para integrá-las ao relacionamento.

A sabedoria representa o ar para o relacionamento, que dá o espaço na medida suficiente, sem aglutinações, mas também sem desligamentos.

O melhor dos fogos, quando sufocado, apaga

Um fogo apaga quando dele se elimina o ar. Por exemplo, quando colocamos um copo em cima de uma vela acesa, a chama se extinguirá imediatamente. Atitudes opressivas, aglutinadoras, pegajosas, abusivas, invasivas, impositivas e desrespeitosas têm o mesmo efeito para um relacionamento. Apagam a chama do amor. O desejo de ficar junto vai se extinguindo gradativamente, na medida em que estar com o outro gera um contínuo estado de alerta, já não sendo mais possível estar à vontade na presença do outro.

Ar demais também apaga o fogo

Tanto a eliminação do ar, como a presença de ar em excesso têm o poder de apagar o fogo. Atitudes individualistas, egocêntricas, hedonistas, narcisistas, materialistas, reservadas, distantes e refratárias trarão a mesma consequência para o relacionamento, apagarão a chama do amor entre um casal. Pessoas casadas, por exemplo, não darão conta de manterem a chama do seu amor no casamento, se continuarem com posturas de solteiras. Estar casado envolve um compromisso com o sistema do casamento de forma proativa, na utilização dos elementos necessários para manter a chama do amor, que são a atração, a atenção e a sabedoria.

E agora, o que fazer se a chama do amor acabou?

Muitas vezes casais se separam por concluírem que “a chama do amor acabou”. Caso tenha acabado, considera-se a hipótese de que não souberam implementar os elementos necessários para manter a chama acesa. Uma avaliação de sua dinâmica será muito útil, pois simplesmente separar-se e iniciar um novo relacionamento, poderá levar à experiências similares na relação seguinte. Aquilo que não se enfrenta no relacionamento atual, é bem provável que se enfrentará no próximo. Dessa forma, vale muito revisar a dinâmica do relacionamento atual. Pois é possível que em um relacionamento onde se tem a sensação de que “a chama do amor acabou”, na realidade, apenas esteja faltando um dos elementos para gerar nova combustão.

A vida a dois é uma importante via de crescimento pessoal

Na maioria das vezes a falta de sabedoria na convivência para a dinâmica do amor tem a ver com as penúrias pessoais que trazemos para dentro do relacionamento. Quando um casal compreende que a vida a dois é também uma importante via de crescimento pessoal, ambos podem amadurecer para manter a chama do amor na convivência.

O crescimento passa por uma revisão pessoal

A revisão pessoal é requisito para o crescimento, mas não deve ocorrer numa caminhada individualista e distante do outro. Essa dinâmica se dá numa parceria com o outro mas, especialmente, também num confronto com o lado destrutivo do outro, bem como de si mesmo. Nesse sentido, no processo de amadurecimento, às vezes, o sofrimento poderá ser inevitável. Guggenbühl-Craig (2) explica que somente no friccionar das próprias feridas, e se perdendo, é que se é capaz de aprender sobre si mesmo, Deus, o outro e o mundo. Dessa forma, o casamento como via de crescimento pode até ser doloroso, mas também, além das dificuldades, se experimenta uma profunda satisfação existencial, a qual fortalece a convicção de que faz sentido avançar juntos como casal.

Um palco de encontros dialéticos entre dois parceiros

O casamento como via de crescimento é palco de encontros dialéticos, onde os parceiros são os protagonistas da vida conjunta. Nessa trama ocorre o descobrimento da alma, quando acontece uma abertura ao outro e a si mesmo. Seguindo assim, a sabedoria vai ganhando espaço e ambos aprendem que estar na companhia do outro, esse que é tão diferente, é um dos melhores presentes que a vida proporcionou. Sabiamente, arejar a alma para o encontro, sem medo de se aproximar e de atritar, ou mesmo de se afastar, às vezes, pode ser o novo “oxigênio” que estava faltando para reacender a “chama do amor”.

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Referências

(1) https://wandersonmonteiro.wordpress.com/2015/05/10/teoria-do-fogo/

(2) GUGGENBÜHL-GRAIG, A. O casamento está Morto, Viva o Casamento. São Paulo: Edições Símbolo, 1980.

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