Clarice Ebert
Vida Familiar

Por Clarice Ebert

Saúde
Clarice Ebert

As marcas da família

As marcas da família podem deixar registros positivos, mas também podem deixar um legado de destruições. Como não ficar refém de suas amargas maldições?

As marcas da família
As marcas da família

22 de setembro de 2020 - 10:00 - Atualizado em 22 de setembro de 2020 - 11:11

A Família

A família é o berço que embala os filhos para a vida, e assim sendo deixa suas marcas. A constituição da identidade se inicia na família, porque nela estão as primeiras pessoas da rede de relações com as quais uma pessoa estabelece interação. A família é quem promove a noção de individualidade, de pertencimento, de diferenciação e o processo de socialização. O pertencimento confere segurança e estabilidade. A diferenciação promove a individualidade, num reconhecimento das diferenças entre o eu e outro. A socialização favorece a inserção em sistemas extrafamiliares.

As marcas da família no desenvolvimento psicossocial

O terapeuta familiar e pesquisador Minuchin * nos ensina que na medida em que é requerida maior flexibilidade e adaptabilidade dos membros de uma sociedade, a família se torna cada vez mais significativa, sendo a matriz do desenvolvimento psicossocial. Para o autor

“Somente a família, a menor unidade da sociedade, pode mudar e, apesar disso, manter suficiente continuidade para criar filhos que não serão ‘estrangeiros numa terra estranha’, que estarão firmemente enraizados, o suficiente para crescerem e se adaptarem” (p.53).

O autor enfatiza ainda que a tarefa psicossocial da família se tornou mais importante do que nunca, especialmente pela importante função de promover a proteção psicossocial de seus membros.

As marcas da família no sentido de pertencimento

A família é o nosso núcleo básico de pertencimento, sendo o nosso primeiro laboratório social. Com nossos pais, avós e tios aprendemos a nos relacionar com figuras de autoridade e com nossos irmãos e primos aprendemos a nos relacionar com nossos iguais. Esses aprendizados nos acompanharão em todo o ciclo da vida da família e também em contextos extrafamiliares.

As marcas da família e suas ressignificações

A vida familiar pode ser uma bênção, mas também pode ser um amargo palco de maldições. Somos todos filhos (as) de nossos pais e para seguirmos como adultos precisamos levar as bênçãos de nossa casa materno/paterna, mas é preciso também desvincular das maldições. As marcas da família precisam passar por elaborações e ressignificações. Devemos ser gratos pelo que recebemos e que nos construiu como pessoas, ao mesmo tempo em que precisamos perdoar aquilo que nos traumatizou e que mantém nossas emoções intoxicadas ou congeladas no tempo, prejudicando o desenvolvimento do nosso potencial. Caso contrário é possível que em cada situação atual se atualizem nossas emoções infantis não resolvidas.

As marcas da família pelas imperfeições dos nossos pais

Geralmente o retrato de pai e mãe nos mostra uma figura envolta de sabedoria, inteligência, equilíbrio, amor, carinho, cuidado, abnegação, responsabilidade etc. Muitas vezes é assim, mas nem sempre. Pais e mães são humanos e como tais por vezes são inseguros, ríspidos, insensatos, impacientes etc. Não há pai e mãe perfeitos, todos erram e deixam suas marcas na família por meio de suas imperfeições. Por melhor que tenha sido a convivência com nossos pais, alguma lacuna vai ficar. A vida virá com novos desafios para novos aprendizados. É preciso compreender que os pais não são os únicos responsáveis por todas as mazelas da vida. Da mesma forma também não são os únicos responsáveis por todas as alegrias e sucessos da vida.

As marcas da família podem ser perdoadas

Para podermos seguir melhor no curso da vida é preciso perdoar. Caso contrário é possível ficar refém das expectativas de cuidado não atendidas por nossos pais/mães. Apenas transferimos essas expectativas para novas pessoas, que podem ser o cônjuge, os filhos, os amigos. É importante lembrar que no decorrer do desenvolvimento não somos meros expectadores e receptáculos do que nossos pais nos dizem ou fazem, pois assumimos também um papel atuante em contínua interação com os pais e também com outras pessoas nos diversos contextos nos quais crescemos, ou seja, somos participantes do processo.

As marcas da família e a nossa responsabilidade

A nossa participação no processo de desenvolvimento nos chama à responsabilidade diante dos desafios que a vida nos apresenta. Mesmo que tenham sido vivenciadas situações traumáticas em alguma fase da vida em que não havia força, nem autonomia para mudar os impasses negativos e que suas consequências ainda são sentidas intensamente na fase atual, isso não significa uma determinação de fracasso até o fim da vida. Apesar de não podermos mudar em nada o nosso passado e nem desfazer os males que nos foram imputados na infância, ou em qualquer outra fase da vida, podemos mudar assumindo novas posturas, “consertar” e reconquistar a integridade perdida a partir do tempo atual que estamos vivendo.** E assim, podemos conviver harmoniosamente com nossa história e caminhar amadurecendo na medida em que avançamos.


*Minuchin, S (1982). Famílias: funcionamento e tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas.

**Miller, Alice. O drama da criança bem dotada. São Paulo: Summus, 1997.