Clarice Ebert
Vida Familiar

Por Clarice Ebert

Saúde

22 de janeiro de 2020 - 00:00

Atualizado em 4 de junho de 2020 - 15:02

A infantolatria e as férias frustradas da família

A infantolatria é deflagrada em famílias nas quais as crianças imperam em seus desejos e demandas, são donas de si, dos outros, do ambiente e das férias, e os demais membros familiares orbitam em torno delas.

Clarice Ebert
Vida Familiar

Psicóloga e terapeuta familiar no Instituto Phileo. Professora, palestrante e escritora. Autora do livro "Eduque seu filho, nisso há esperança".

A infantolatria Clarice Ebert
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A infantolatria e as férias frustradas da família
A infantolatria

A infantolatria

Infantolatria é uma palavra composta por duas palavras, “infância” e “idolatria”. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a infância seria o período entre zero e dez/doze anos, no qual ocorrem mudanças especialmente significativas, em termos biológicos e cognitivos. Isso significa que as demandas da infância devem ser atendidas com responsabilidade e afetividade, o que exigirá dos pais empenho, abnegação e muita dedicação. O ambiente familiar se altera completamente com a vinda de uma criança e isso deve ser acolhido como uma bênção e não como uma maldição. No entanto, quando famílias se tornam infantólatras, facilmente essa bênção se transforma em uma subjugação maldita. Em famílias onde se instala a infantolatria, as demandas dos demais membros familiares são extintas e todos desenvolvem um hiperfoco na criança da casa.

A infantolatria envolve uma veneração e divinização da infância, como se a criança fosse um ser sagrado que não pode ser frustrado e nem contrariado. Os demais familiares orbitam em torno dela com posturas de veneração e servidão.

A família sujeita à “dona do pedaço”

Na infantolatria quem manda na casa é a criança, que se comporta como a “dona do pedaço”. A família infantólatra se sujeita facilmente às demandas e vontades da criança. É ela quem dita as regras, os horários, as brincadeiras, as comidas, os passeios, as sonecas e os banhos. Também é ela quem define o que se faz e o que não se faz na vida familiar. No início, é natural que a chegada do bebê desestruture a rotina da família. Esse aspecto não deve ser visto como uma fatalidade, pois um bebê tem demandas livres que precisam ser atendidas. No entanto, essas livres demandas não podem durar para sempre.

Gradativamente os pais devem auxiliar seus filhos a desenvolverem uma estrutura interna de autoconfiança para conviverem em família e sociedade.

Caso contrário, a criança “dona do pedaço” cresce e vira o adolescente “dono do pedaço”, e dificilmente sairá dessa posição. Posteriormente, mesmo que alcancem a faixa etária adulta, crianças e adolescentes “donos do pedaço”, encontrarão dificuldades em se tornar efetivamente adultos.

A infantolatria dos pais permissivos

A infantolatria tende a ser exercida por pais com perfil permissivo. A permissividade parental é típica de pais que são extremamente focados no bem estar dos filhos. O objetivo principal é eliminar, ao máximo, as possibilidades de frustração. São pais que se transformam em recursos infindáveis para atender à todas as necessidades e desejos dos filhos. O foco nem é tanto no aprendizado dos filhos, mas em sua satisfação e apaziguamento. Com essa postura parental, os filhos aprendem que os pais existem apenas para isso, para promover o seu bem estar e felicidade. Dessa forma, narcisicamente, os filhos desenvolvem uma relação utilitária com seus pais, de forma que os usam para atingir os seus interesses. Não aprendem a levar em consideração as necessidades dos outros, muito menos as de seus pais.

Os filhos de pais permissivos assumem o controle da família, onde vale o que eles querem, da forma e no momento que determinarem.

Os pais se tornam verdadeiros súditos desses reis e rainhas que saíram da barriga materna e que governam a família, muitas vezes até com certa tirania.

As férias dos reis e das rainhas que saíram da barriga

A postura utilitarista desses reis e rainhas mirins, que saíram da barriga materna, implementam as férias de acordo com os seus desejos. Esses soberanos podem embirrar, gritar, jogar-se ao chão ou mesmo fazer greve de fome, caso algum passeio em família não for direcionado de acordo com suas vontades ou se não tiverem o sabor do sorvete disponível quando quiserem. O interessante é que uma criança nem sempre sabe o que é melhor para ela, o que a acalma, nutre e auxilia na relação com os demais. Os adultos da relação, que são os pais, deveriam saber, ou pelo menos deveriam buscar saber. No entanto, ao fazerem todas as vontades dos filhos, estão favorecendo as posturas narcisistas dos filhos. Dessa forma, há grandes chances de as férias em famílias serem frustradas.

As férias frustradas da família

Parece óbvio dizer que o grupo familiar é composto por outras pessoas também, não apenas pelas crianças. Os demais membros familiares também merecem ser vistos, ouvidos e atendidos, até mesmo o papai, a mamãe, as irmãs e os irmãos mais velhos. Caso contrário, a frustração poderá ser companheira inseparável da família em suas férias. Mas, antes que alguém compreenda essa proposta de forma equivocada, é necessário esclarecer que não se pretende propor a inversão dos papéis narcísicos, ou seja, deixar de focar nas crianças para apenas focar no desejo dos pais, ou dos adultos. A ideia é fazer com que todos participem e usufruam das férias em família numa interação respeitosa e empática.

Tirando os ídolos do andor

Ao contrário da infantolatria, a família pode se estruturar em papéis mais adequados para sua convivência. Para isso, é necessário mudar os ídolos de lugar, ou melhor, tirá-los do andor. Basicamente significa liberar as crianças desse difícil papel de serem os ídolos da família. Ao contrário do que parece, ser o ídolo da família, ou o rei ou a rainha da casa, exige muita energia psíquica das crianças. Definir as rotinas, os passeios, as comidas, as regras da casa e as instruções para a família, são tarefas muito pesadas para as crianças. Com essa carga elas tendem a ficar estressadas, irritadas, insaciáveis e insatisfeitas. Por isso, seria de bom tom que os adultos da casa assumissem essas tarefas e aliviassem as crianças delas. Nesse movimento, não somente os filhos ficarão aliviados, mas os pais igualmente.

Os pais ao assumirem suas tarefas, perceberão que ao invés de mais carga, se verãoaliviados, pois se livraram de mandos desordenados de soberanos ainda imaturos e inábeis para a coordenação da vida familiar.

Com as novas posturas em família é possível perceber que, de acordo com a faixa etária, todos podem participar, tanto na organização das férias e na elaboração do que será feito, como também na experimentação das alegrias desse período em família. Dessa forma, não somente as crianças usufruirão das férias, mas também os demais membros da família. Portanto, se as férias familiares desse ano foram frustradas, experimente tirar os ídolos do andor para as próximas.

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