Política

Médica Nise Yamaguchi vai processar senadores da CPI da Covid

Nise está pedindo R$ 320 mil por danos morais a Otto Alencar e a Omar Aziz, ambos do PSD. Ela os acusa de humilhação, preconceito à mulher e misoginia.

Giselle
Giselle Ulbrich
Médica Nise Yamaguchi vai processar senadores da CPI da Covid
Médica Nise Yamaguchi depõe à CPI da Covid no Senado

20 de junho de 2021 - 19:58 - Atualizado em 20 de junho de 2021 - 20:01

A médica oncologista Nise Yamaguchi, que prestou depoimento à CPI da Covid, do Senado, no dia 1.º de junho, vai processar dois senadores da comissão: Omar Aziz e Otto Alencar, ambos do PSD, o primeiro do Amazonas e o outro da Bahia. Conforme a médica, que é acusada pelos senadores de fazer parte de um “gabinete paralelo” no governo do presidente Jair Bolsonaro, ela foi humilhada durante sua fala e os acusa de preconteico às mulheres e misoginia. Nise pede R$ 320 mil em danos morais (R$ 160 mil de cada senador), que pretende doar integralmente a hospitais que tratam câncer infantil.

Durante o depoimento, Nise Yamaguchi foi questionada pelos senadores sobre a existência de um gabinete paralelo ao ministério da Saúde, a mudança na bula de medicamentos e o uso comprovadamente ineficaz da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. 

Em determinado momento, o senador Otto Alencar perguntou à médica a diferença entre vírus e protozoário. “Na grade curricular brasileira, os protozoários são estudados no 4° ano do estudo fundamental, fato este que por si só, demonstra a intenção de Otto Alencar em diminuir e humilhar publicamente Nise Yamaguchi, desprestigiando seu conhecimento científico.”, aponta a defesa da médica.

Ainda na ação, os advogados de Nise colocam que o senador Omar Aziz, presidente da Comissão, nada fez para amenizar os ataques à medica e ainda a humilhou mais um tanto. Durante explicação sobre tratamento precoce de Nise, Aziz a interrompeu e disse: “Quem está nos vendo não acredite nela. Tem que vacinar. A vacina salva. Tratamento precoce não salva”.

Os advogados de Nise ainda compara o que ocorreu com ela ao depoimento de Mariana Ferrer, chamando o episódio de “manterrupting“, nome em inglês que significa as várias interrupções que um homem faz à fala de uma mulher. No caso de Mariana Ferrer, vítima de estupro, ela foi humilhada pelo advogado do acusado de cometer os crimes, durante a sessão de julgamento.

Numa entrevista que deu à rede de TV CNN, neste domingo (20), Aziz disse que está tranquilo, nega misoginia e ainda chama Nise de mentirosa. Conforme o senador, Nise disse que foi à Brasília apenas três vezes participar de aconselhamentos ao presidente, quando na realidade, o senador diz que tem provas de que ela foi 13 vezes à capital federal e, em oito destas vezes, pagou a passagem em dinheiro vivo.

A questão do pagamento das passagens aéreas também foi tema abordado por Otto Alencar neste fim de semana, em seu Twitter:

Carta aberta à imprensa

Neste domingo (20), Nise divulgou uma carta berta à imprensa sobre o assunto. Confira na íntegra:

“São notórios e de conhecimento nacional o desrespeito e a humilhação por mim sofridos durante o depoimento prestado à CPI da pandemia no Senado Federal no dia 1º de junho de 2021.

Médica há mais de quatro décadas, nunca imaginei passar por situação parecida. É triste perceber que, na Casa do Povo Brasileiro, mesmo após décadas de evolução, ainda se perpetuem comportamentos misóginos.

Por diversas vezes, tive minhas falas e raciocínios interrompidos. Ignoraram meus argumentos e atribuíram a mim palavras que não pronunciei. Não foi por falta de conhecimento que deixei de reagir, mas, sim, por educação. Não iria alterar a minha essência para atender a nítidos interesses políticos.

A partir daquele momento, passei a ser extremamente vilipendiada nas redes sociais com agressões em tons ameaçadores, o que é muito preocupante para um estado democrático.

Não faço parte de nenhum partido político. Atuei nos últimos cinco governos como colaboradora eventual, pelo bem da saúde do Brasil e do mundo, sendo que entre 2007 e 2011, participei oficialmente do gabinete do Ministério da Saúde. Meus principais trabalhos foram em ações de controle do tabaco, tratamento personalizado e de precisão do câncer, dentre outros afazeres de compliance e governança.

Agradeço o apoio do Conselho Federal de Medicina, do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal e às inúmeras manifestações de apoio de entidades de classe e de apoio à mulher e ao idoso. Atendo os meus queridos pacientes em Brasília e em São Paulo e deles, de suas famílias e dos colegas, tenho recebido um reconfortante apoio.

Na qualidade de mulher e de idosa, optei por entrar com uma ação judicial contra os senadores Omar Aziz e Otto Alencar, como uma medida para restaurar minha integridade e a de diversos outros médicos brasileiros, os quais também foram afetados com os discursos proferidos pelos parlamentares naquele dia.

Todos os valores ganhos com a causa serão revertidos a hospitais que tratem de crianças com câncer.”

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