Política

Desde quando povo na rua é golpe?

Bolsonaro tem direito de repassar mensagens sobre movimento marcado para as ruas dia 15 e isso não configura golpe, mas prática da democracia, governo do povo desde a Grécia antiga

Desde quando povo na rua é golpe?

27 de fevereiro de 2020 - 00:00 - Atualizado em 5 de junho de 2020 - 10:24

“Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo”, disse o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Bolsonaro, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, no intervalo de uma solenidade oficial no Palácio do Planalto, onde ocupa um gabinete, numa rodinha de colegas, entre os quais estavam os ministros da Secretaria Geral do Governo, general Luiz Eduardo Ramos, encarregado da negociação com o parlamento, da Economia, Paulo Guedes, e da Cidadania, Onyx Lorenzoni.

Pode-se alegar que ele não sabia que estava sendo sequer ouvido por pessoas fora do restrito círculo palaciano. Acontece que a transmissão seguia sem interrupções e suas palavras voaram, como diria o ex-presidente Temer, para fora da sede do governo. E produziram uma crise volátil e explosiva, conhecida pelo palavrão que disparou na frase seguinte. O presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), ameaça convocar o oficial a dar explicações sobre o que considerou insulto à instituição democrática. Terá sido? Há, no mínimo, controvérsias. Pois não foi um pronunciamento oficial, E, sobretudo, não é mentira.

Com a permissão que me dá o sagrado direito à liberdade de expressão, deixo aqui, nestas linhas, registrado que, sim, o Senado e a Câmara dos Deputados chantageiam o Executivo a pretexto de uma proclamada ausência de seus mandatários nas discussões dos temas na pauta das duas Casas.

O tema do desabafo era a desfaçatez com que os chefões das Mesas do parlamento avocam a eles próprios e a seus pares o direito de liberar emendas ao Orçamento da União para financiar obras municipais e estaduais em suas bases eleitorais, ao custo de R$ 30 bilhões e sem fiscalização na execução. Com chance de me expressar com mais clareza, não se trata de chantagem, mas de assalto. Se o general tivesse sido tão desabrido, já poderia estar amargando a solidão de uma sala do puxadinho de luxo do senador Luiz Estêvão no presídio da Papuda.

Os indignados defensores da honra da República e dos coleguinhas pegos em flagrante roubando o erário não chegaram a tal ponto. Mas não precisaram esperar muito para, em consequência do desabafo flagrado pelo refletor amigo (“muy amigo”),  anabolizar o efeito maligno depois de uma consequência mais radical, digamos, do impropério do responsável pela segurança do chefe de Estado e do governo. Este em pessoa não viu nada de mais em repassar uma mensagem de WhatsApp conclamando o povo a ir às ruas, em ato marcado para 15 de março, apoiando-o e criticando o Congresso. Nem os limites intransponíveis do “forte apache” bastaram para desviar o tiroteio inimigo com que sua iniciativa foi recebida.

A ser verdade, como parece, que o próprio Pr (presidente) tuitou convocando uma manifestação contra o Congresso (a democracia) estamos com uma crise institucional de consequências gravíssimas. Calar seria concordar. Melhor gritar enquanto se tem voz, mesmo no Carnaval, com poucos ouvindo”, escreveu Fernando Henrique Cardoso, em péssimo vernáculo.

É o de menos. Onde estava esse senhor quando um ex-presidente de seu partido, dito social-democrata, Eduardo Azeredo, inventou o mensalão, forma criativa de furtar o erário? Onde ele tem andado, que ainda não percebeu o acinte à Nação de seu correligionário e amigo Aécio Neves, gravado pedindo propina, desfilar como um zumbi pelos corredores da Câmara dos Deputados, fingindo-se inocente?

“Esses absurdos, exageros e atropelos têm de parar”, disparou o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ). O que esse cavalheiro teria a comentar sobre o fato de seu correligionário que dá nome à Organização Criminosa Ricardo Coutinho escapar da prisão após ter sido gravado ao longo de nove anos achacando o dirigente da Cruz Vermelha gaúcha Daniel Gomes, e agora portar tornozeleiras, condizentes com sua deselegância, por benesse da ministra Laurita Vaz, do Superior Tribunal de Justiça?

Ciro Gomes, eterno fracassado das disputas presidenciais, tendo sido derrotado sempre no primeiro turno, disse que “é criminoso excitar a população com mentiras contra as instituições democráticas”. Criminoso, coronelzinho de Sobral, é subir numa escavadeira para atropelar PMs amotinados, como fez seu irmãozinho, também aloprado, Cid Gomes.

O presidente da República, qualquer que ele seja, embora possa muito, não pode tudo, pois lhe é vedado, sob pena de incidir em crime de responsabilidade, transgredir a supremacia político-jurídica da Constituição e das leis da República!”, disse o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello.

Este afronta contribuintes, que lhe pagam os mais altos vencimentos do serviço público, faltando a sessões de julgamento para tratar doença que o imobiliza, em vez de renunciar ao cargo vitalício. Aliás, quem afronta a Constituição seria Bolsonaro, que repassou uma mensagem de WhatsApp, ou o povo, que irá à rua reclamar? Não do Congresso, mas dos mandachuvas que chantageiam o Executivo e desprezam decisão dele no STF de afastar o deputado Wilson Santiago (PTB-PB), pilhado pegando propina que encarece obra para mitigar a sede dos sertanejos do Vale do Rio do Peixe, segundo a Operação Pés de Barro?

Aqui está o busílis. Esses maganões de pés de barro fogem da essência para jogar nos manifestantes e quem apoiem, como o presidente, de seus próprios crimes. Não são seus críticos que desonram a Câmara, o Senado e a cúpula do Judiciário leniente e desleixado, mas seus maus membros: suspeitos, assustados, acusados, condenados e presidiários do mar de lama do qual são exalados os miasmas da corrupção. E também os (apud Saulo Ramos) “juizinhos” (de quê mesmo, excelência?) que cospem no prato de cidadãos que os sustentam à tripa forra, deixando os chefões de quadrilheiros da política, seus padrinhos, leves, livres e lampeiros.

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