Mulher

O surgimento da sororidade e suas mudanças ao longo de seis décadas

O conceito foi usado de diversas maneiras desde sua criação, de ferramenta política a apoio emocional

Maria
Maria Miqueletto / Repórter Especial

O termo sororidade foi proposto pela primeira vez no final da década de 1960, pela escritora, artista, educadora e ativista feminista estadunidense Kate Millett. Desde então, o conceito sofreu transformações diversas vezes. Foi usado como base para criação de organizações, como a National Organization of Women (NOW), nos Estados Unidos, em 1966, e para grupos de apoio em anos mais recentes, explicitando seu lado emocional.

Para entender os diversos usos do conceito de sororidade, é preciso levar em conta o que o movimento das mulheres e o feminismo reivindicavam em cada época. Abaixo, construímos um breve apanhado histórico com as fases e marcos mais relevantes.

O movimento das mulheres e suas lutas

A primeira fase do feminismo, chamada de “primeira onda”, surgiu no século 18, com a Revolução Francesa, com destaque para a obra de Mary Wollstonecraft A Vindication of the Rights of Woman, de 1792. As militantes reivindicavam os mesmos direitos que os homens já recebiam, como a inclusão na cidadania e, em especial, o acesso à educação. Foi a primeira denúncia “oficial” sobre a subordinação das mulheres, como explica Elizabete Rodrigues da Silva, no artigo Feminismo radical — pensamento e movimento.

Nessa época, com a Revolução Industrial, os homens ganharam um papel social — como trabalhadores — e as mulheres não. “Foi designado trabalho produtivo para os homens e reprodutivo para as mulheres. A Revolução Industrial atribui o trabalho produtivo aos homens e não se pensa nos trabalhos das mulheres”, explica Marlene Tamanini, doutora em ciências humanas, professora do programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal do Paraná e coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR.

Nos séculos 19 e 20, com o movimento das sufragistas, as militantes passaram a lutar pelo direito ao voto, à propriedade, contratos de trabalho, escolha de marido, à educação, legislação contra estupro no casamento e acesso ao espaço público. No Brasil, a onda chegou em 1832, quando Nísia Floresta, considerada a primeira feminista brasileira a publicar em veículos de imprensa, lançou a obra Direito das mulheres e injustiça dos homens, uma tradução do trabalho de Wollstonecraft. 

Marcha das mulheres sufragistas, em Nova York, em 1910. A foto é da fotógrafa considerada a primeira fotojornalista dos Estados Unidos, Jessie Tarbox Beals. Foto: Jessie Tarbox Beals/arquivo da Schlesinger Library.

Em meados da segunda metade do século 20, houve, em alguns lugares, a ruptura com a corrente liberal — e o surgimento da chamada “segunda onda”, caracterizada pelo feminismo radical. As lutas eram perpassadas por investigação acadêmica sobre a origem das desigualdades, o entendimento do sistema patriarcal, reivindicação do direito ao divórcio e creches para os filhos das mulheres, controle sobre o próprio corpo e criminalização da violência contra elas. A época foi marcada, também, pelo questionamento dos limites entre privado e público — explicitado na frase “o pessoal é político”. É proposto, nessa época, o conceito de sororidade.

Na década de 1980, o termo é questionado, a partir do surgimento da contestação de “mulheres” enquanto seres múltiplos, não apenas “mulher” como ser universal. “Isso faz com que se percebam as diferenças, as singularidades dentro do contexto de igualdade das mulheres”, analisa Tamanini. Um fato importante da época foi a publicação de um artigo da historiadora afro-americana Hezel V. Carby, intitulado White women, listen! Black feminism and the boundaries of sisterhood, no qual criticava os conceitos propostos por Millett, pois ele não contemplava o entendimento da vida das mulheres negras.

Esse é o gancho para a “terceira onda”, nos anos 1990, caracterizada pelas interseccionalidades múltiplas, contestação da mulher vítima do sistema, inserção da discussão do racismo e homofobia e das micropolíticas. “É um feminismo da diferença, de respeito à diversidade e de reflexão em quem são os atores que têm voz na sororidade”, complementa Tamanini.

Nos anos 2000, presencia-se a profissionalização do feminismo. A população LGBT ganha espaço público, são executadas políticas transversais de gênero, as discussões voltam aos direitos reprodutivos das mulheres, com ampliação de sujeitos de orientação sexual — não mais apenas homem e mulher.

Recuperação do termo sororidade e seu lado emocional

A ativista feminista espanhola Julia Cámara explica que a recuperação da ideia de sororidade pelo movimento feminista atual não segue diretamente o conceito proposto por Millet — mas, primordialmente, as ideias dos feminismo comunitários latino-americanos. Para a ativista, a melhor definição do conceito hoje, de acordo com seu uso, é da antropóloga Marcela Lagarde, que define sororidade como “amizade entre mulheres diferentes e pares, cúmplices que se propõem trabalhar, criar e formar, que se encontram e reconhecem no feminismo, para viver a vida com um sentido perfeitamente libertário.”

Isso fica nítido pelo caráter emocional da sororidade, com a criação de grupos de apoio psicológico e de conversa. “Não se pensa sororidade sem pensar em cuidado. E ele tem que ser pensado em família, Estado, com todos os agentes. Hoje temos sistemas de cuidado fragilizados na transnacionalização do trabalho das mulheres, que precisam sair para conseguir dinheiro e comida”, observa Tamanini.

“Não se pensa sororidade sem pensar em cuidado. (…) Hoje temos sistemas de cuidado fragilizados na transnacionalização do trabalho das mulheres”

Para exemplificar o lado emocional do termo teórico, Tamanini relembra da análise feita por Maria Izabel Machado em clubes de troca, ligados à economia solidária, realizados na região metropolitana de Curitiba. “O ponto principal era ser ouvida, poder falar. ‘Eu me tornei gente depois que consegui falar, eu deixei minha depressão’, ‘o Troca me fez gente, fez eu me sentir mais viva, não tenho mais vergonha de falar’, diziam as mulheres.” Isso é sororidade e empoderamento.

A pesquisadora explica que a sororidade ainda assume um resquício patriarcal da rivalidade feminina, mas isso já não é o ponto central. O foco são as atitudes colaborativas. “Está surgindo um novo tipo de organização da sororidade, mais diluído, mas com temas centrais compartilhados. As mulheres são cúmplices, pra isso tem que conversar entre si.” Os temas centrais na luta são o assédio, violência doméstica, movimento “não é não”, reivindicação da própria voz e narrativa de vida e superação da insegurança. “A ideia é que elas se ajudem nas tarefas do dia a dia, nas redes sociais, criem uma rede de apoio, que se sintam seguras ao lado de outras mulheres, mas também desenvolvam mais expressões jurídicas”, complementa.

Sobre Kate Millett

A obra mais conhecida da escritora, artista, educadora e ativista feminista estadunidense é a Política Sexual, lançada em 1968. O livro foi um marco no movimento feminista ao apresentar um panorama histórico da exclusão das mulheres legal, política e culturalmente. Foi essa sua tese de doutorado na Universidade de Columbia. Influente da segunda onda do feminismo, suas obras e pensamentos perpassam temas como direitos humanos, aborto, emancipação das mulheres, amor livre e maternidade compulsória.

Informamos aos nossos visitantes que nosso site utiliza cookies. Ao usar nosso site, você concorda com nossos Termos de Uso. A maioria dos navegadores aceita cookies automaticamente. Para ver quais cookies utilizamos, acesse nossa Política de Privacidade.