Notícias

Manifestantes são colocados em ‘lugares trocados’ em Curitiba

Redação RIC Mais
Redação RIC Mais

10 de maio de 2017 - 00:00 - Atualizado em 10 de maio de 2017 - 00:00

Militância pró-lula se reuniu na Praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba (Foto: Portal RICMais)

A esquerda, agora à noite com Lula incluído, está protestando na praça que homenageia um político conservador, e a direita, diante do museu de um comunista

*Por Thiago Momm, do Portal RIC Mais

“Eu tenho nojo de coxinha também”, diz o homem esguio de terno justo, cabelos brancos e olhos azuis para a mulher com a estrelinha número 13 no peito.

Os dois estão na Praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba, em meio a algumas centenas de manifestantes pró-Lula, aos quais agora à noite, às 19h30, acaba de se juntar o próprio ex-presidente.

O homem de terno é uma das poucas pessoas não-uniformizadas que o jornalista vê na praça durante quase uma hora.

Batuques e vuvuzelas sonorizam o começo da tarde, churrasquinhos aromatizam o ar. O tempo está úmido, o céu é cor de gelo, boa parte da militância permanece relativamente atenta. Do centro para o fundo da praça o movimento escasseia, e por ali já são poucas as pessoas conectadas ao que está sendo vociferado no palco.

O jornalista tem a impressão de ter escutado a frase “Lula lacrimejando põe a mão na água” saindo da boca de Vicentinho, o político e sindicalista. Em seguida, ele fala de Padim Ciço e de como Lula fez a água chegar no sertão. Isso ele com certeza disse, porque o jornalista então já tinha virado para o palco e estava anotando.

Talvez para irritar os militantes, o misto de sebo e livraria do outro lado da rua mantém “Lava Jato”, o livro de Vladimir Netto, em destaque.

Bolinho

A três quilômetros dali, diante do Museu Oscar Niemeyer, cerca de 150 pessoas (em uma contagem às 14h16) faziam o contraponto amarelo-patriota à caricatura vermelha-sindicalista. Diante do vasto gramado e da imensa edificação em forma de olho espelhado na frente do museu, o bolinho humano não parece grande coisa. O Pixuleco, talvez do tamanho da metade do olho do museu, é o único destaque do cenário.

“Patriota trabalha”, é a justificativa pronta de um homem que está entre os aparentes líderes por ali. Ele exagera o total de presentes ao gravar um discurso com o seu telefone, aparentemente para postar nas mídias sociais. As pessoas ali são mais de 300, afirma, e então convoca as pessoas a aparecerem ali “depois do trabalho”.

“Ninguém, né?”, diz o pipoqueiro para um manifestante, o monte de pipoca salgada aproximadamente pela metade e o de pipoca doce quase intacto. O homem que vende camisetas da República de Curitiba boceja.

Lugares trocados

Os reunidos diante do Museu Oscar Niemeyer são difamados como coxinhas, mas o café do museu não vende um quitute tão obscenamente plebeu – o que mais se chama a atenção são os quiches. A coxinha de frango é vendida, em um combo de R$ 7,50 com refrigerante, na praça Santos Andrade.

Aliás, os manifestantes foram colocados hoje em lugares trocados. O arquiteto Oscar Niemeyer, que dá nome ao museu, era fã de Lula até o final dos seus 104 anos de vida, e quando discordou do ex-presidente foi por considerar que ele deveria ter se colocado ainda mais à esquerda quando estava no poder.

Já a personalidade que dá nome à praça, José Pereira dos Santos Andrade, presidente do Paraná (como se chamava o governador na época) por duas vezes no final do século 19, foi um conservador – em uma época, vale dizer, em que políticos progressistas eram bastante raros, como lembra ao RIC Mais Renato Mocellin, que é professor de História do Curso Positivo e tem mais de 40 livros publicados.  

Mocellin lamenta a polarização política que vive o país, especialmente em dias como o de hoje. Niemeyer, ele lembra, foi membro do Partido Comunista, mas o governo de Lula jamais poderia ser caracterizado assim – “foi no máximo uma socialdemocracia”, avalia o professor, afirmando que o governo Lula inclusive se pareceu com o FHC.

Coros fracos

“Vamos lembrar as hashtags pra continuar lá em cima”, diz uma militante ao microfone, repassando o #ForaTemer e #LulaEuConfio para os militantes. Um helicóptero sobrevoa a Santos Andrade. Uma das placas na praça pede liberdade para “Vaccari, Palocci e Zé Dirceu”. Vincentinho deixou o microfone, um deputado petista mineiro assume. O discurso é menos febril. Ele tenta conspirar um pouco, mas a temperatura não sobe. “Em Lula eu confio”, diz. O público parece relutante.

Um pouco depois, um deputado petista catarinense tenta puxar um clássico “olê, olê, olá, Lula, Lulaaa”, mas o coro morre em segundos. Um comentário sobre o fato de a filha e a mulher de Eduardo Cunha não estarem presas, por exemplo, entusiasma muito mais. Outro comentário que funciona é o de que Lula fez, no seu governo, tanto pelo povo quanto pelas elites. “Mas o povo é grato. A elite não, é mal agradecida. Não agradece o que Lula fez pelos aeroportos”.

O discurso cheio de ideias fixas e vodus retóricos segue, mas o público vai cansando, refletindo cada vez mais a pasmaceira do céu.

O clima vai para o Museu Oscar Niemeyer esperando um pouco mais de animação. Não encontra muita. Um cartaz mal-educado diz “Basta seu b…”. Um coro de “Lula / ladrão / teu lugar é na prisão” não se alastra. Alguns apitos soam, algumas pessoas fazem saltar as veias do pescoço ao gravarem depoimentos exaltados para os seus telefones.

O manifestante com microfone que disse que os presentes eram mais de 300 acusa os “mortadelas” de terem vindo a Curitiba pelo ganho de R$ 200 cada. Como eles seriam “40 mil” pessoas, o gasto com a militância pró-Lula teria custado R$ 8 milhões – pagos pelo imposto de cada um de nós, concluiu o homem

“Movimento maravilhoso”, ironiza um passageiro filmando de dentro de um carro, durante a parada no sinal. Os manifestam se irritam. O carro arranca e o quase começo de conflito não dá em nada.

Na noite desta quarta, os dois lados da manifestação ainda podem se encontrar.

Leia também
Brasil dividido: Lula e Sérgio Moro empatariam como candidatos
Eleições presidenciais: ‘República de Curitiba’ derrotou Lula seis vezes
Justiça nega dois pedidos da defesa de Lula

Informamos aos nossos visitantes que nosso site utiliza cookies. Ao usar nosso site, você concorda com nossos Termos de Uso. A maioria dos navegadores aceita cookies automaticamente. Para ver quais cookies utilizamos, acesse nossa Política de Privacidade.