Internacionais

Premiê do Líbano renuncia em meio à crise causada pelas explosões de Beirute

Estadão
Estadão Conteúdo

10 de agosto de 2020 - 21:20 - Atualizado em 10 de agosto de 2020 - 21:40

O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, renunciou nesta segunda-feira, 10, após milhares de pessoas irem às ruas nos últimos dias exigindo uma responsabilização das autoridades públicas pela maior catástrofe em tempos de paz na história do país.

O premiê disse em um discurso na TV que um nível de corrupção “maior do que este governo” precipitou os eventos que levaram às explosões. “Só Deus sabe quantas catástrofes eles estão escondendo”, disse Diab, em uma aparente referência à elite governante do país.

“Hoje estamos seguindo a vontade do povo em sua demanda de responsabilização ??pelo desastre (…) e o desejo de uma mudança real”, afirmou Diab, sucessor do ex-primeiro-ministro Saad Hariri, que já havia renunciado em outubro em meio aos protestos populares por mudanças no país.

A renúncia de Diab significa que o Líbano precisará formar um novo gabinete de governo. O presidente Michel Aoun aceitou a renúncia e pediu para Diab continuar tomando conta do governo até que um novo gabinete seja formado. Aoun tem rejeitado os pedidos para uma investigação internacional sobre as circunstâncias da explosão, dizendo que isso “atrasará” a justiça para os mortos. Mas ativistas dizem que uma investigação libanesa permitirá que a elite política corrupta evite a responsabilização.

Sob pressão, Aoun chegou a declarar na sexta-feira que a tragédia pode ter sido causada “por intervenção externa”, citando a hipótese de “um míssil”. “É possível que tenha sido causado por negligência ou por uma ação externa, com um míssil ou uma bomba”, disse ele.

A explosão de 4 de agosto no porto de Beirute matou 160 pessoas, feriu milhares e desabrigou centenas de milhares. A raiva cresceu em uma nação já familiarizada com décadas de prevaricação governamental – a tragédia foi causada por 2.750 toneladas de materiais explosivos deixados por seis anos em um galpão no principal porto do país, apesar dos reiterados avisos de segurança.

Protestos eclodiram no fim da semana passada exigindo uma mudança de regime e a renúncia do primeiro-ministro. Para muitos libaneses, a explosão foi a gota d’água em uma crise prolongada que envolve o colapso da economia, a corrupção endêmica e governos disfuncionais.

Diante da raiva de uma população cansada, o ministros das Finanças, Ghazi Wazni, e a ministra da Justiça, Marie-Claude Najm, anunciaram nesta segunda-feira, 10, suas renúncias, o que eleva a quatro os pedidos de demissão de integrantes do Executivo após a tragédia.

No domingo, 9, a ministra da Informação, Manal Abdel Samad, e o ministro do Meio Ambiente, Damianos Kattar, deixaram o governo. Nove deputados também renunciaram aos cargos.

Os protestos contra o governo nos últimos dias foram os maiores desde outubro. Os manifestantes também acusaram a elite política de desviar recursos do Estado em benefício próprio. Durante as manifestações, os libaneses pediram “vingança” contra a classe política.

“Todos significa todos”, disseram nos últimos dois dias os manifestantes. Efígies de muitos dos políticos, incluindo do presidente e de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, foram penduradas em forcas durante os protestos.

“Há apenas uma pessoa que controla este país, é Hassan Nasrallah”, afirmou um dos nove deputados que anunciou sua renúncia, Nadim Gemayel. “Para eleger um presidente, nomear um primeiro-ministro (…) você precisa da autorização de Hassan Nasrallah”.

Poder compartilhado

O Líbano não é dominado por um governante forte, mas tem vários líderes e partidos que representam os grupos sectários do país e compartilham o poder. Os cargos são distribuídos por cotas entre 18 denominações religiosas, e o Parlamento é meio cristão e meio muçulmano.

O primeiro-ministro deve ser sempre um muçulmano sunita, o presidente é um cristão maronita e o presidente do Parlamento, um xiita. O presidente é indicado pela Assembleia Nacional por dois terços dos votos. Depois, indica um premiê após consultar o Parlamento. (Com agências internacionais)