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ESPECIAL-Amazônia está perto de seu ponto de inflexão? Três estudos do mundo real revelam ameaças

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ESPECIAL-Amazônia está perto de seu ponto de inflexão? Três estudos do mundo real revelam ameaças
Beatriz Marimon e Ben Hur Marimon conversam durante sua pesquisa na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, em Nova Xavantina

21 de outubro de 2021 - 20:55 - Atualizado em 21 de outubro de 2021 - 20:55

Por Stephen Eisenhammer

OURO PRETO DO OESTE, Rondônia (Reuters) – Gertrudes Freire e sua família vieram para a grande floresta em busca de terra e chuva. Eles encontraram ambos em abundância meio século atrás, mas o verde selvagem do sudoeste da Amazônia se provaria difícil de domar.

Quando chegaram ao povoado de Ouro Preto do Oeste, Rondônia, em 1971, o local era pouco mais que um solitário posto de seringueiros abraçando a única estrada principal que cortava a selva como uma cicatriz vermelha de poeira.

Sentada na varanda da casa de fazenda da família no calor sufocante da estação seca da Amazônia, Gertrudes, agora com 79 anos, cabelos grisalhos bem penteados atrás das orelhas e um sorriso que mostra meia dúzia de dentes teimosos, relembra as dificuldades e a esperança.

Seus filhos se lembram do medo. Medo das onças, das comunidades indígenas e do mitológico Curupira: figura do folclore brasileiro de pés virados para trás que induz visitantes indesejáveis a deixá-los perdidos entre as árvores.

A família construiu sua casa na floresta. Eles construíram as paredes com os troncos resistentes da cashapona e cobriram o telhado com as largas palmeiras do babaçu. Não havia eletricidade e, em alguns dias, o único alimento era castanha-do-pará. À noite, na escuridão e com fome, eles ouviam a chuva em cascata. A vida era úmida.

Até que deixou de ser.

Perto da casa de Gertrudes havia um igarapé tão largo que as crianças –com idades entre 5 e 12 anos à época– se desafiavam a chegar ao outro lado. Eles o chamavam de Córrego da Onça. Agora não tem um metro de largura e pode ser ultrapassado com um único passo.

A perda de tais riachos e os problemas mais amplos de água de que fazem parte deixam os cientistas apreensivos.

Ao abranger uma área aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos excluindo Alasca e Havaí, e responsável por mais da metade das florestas tropicais do mundo, a Amazônia exerce poder sobre o ciclo do carbono como nenhum outro ecossistema terrestre na Terra. A perda de árvores em um ano extremamente seco em 2005, por exemplo, liberou uma quantidade adicional de dióxido de carbono na atmosfera equivalente às emissões anuais da Europa e do Japão juntas, de acordo com um estudo de 2009 publicado na revista Science.

À medida que mais e mais floresta é cortada, os pesquisadores dizem que a perda da cobertura corre o risco de atingir um limite –um ponto de inflexão– após o qual a floresta e o clima local terão mudado tão radicalmente a ponto de desencadear a morte da Amazônia como floresta tropical. Em seu lugar, cresceria uma floresta mais baixa e seca ou savana.

As consequências para a biodiversidade e as mudanças climáticas seriam devastadoras, extinguindo milhares de espécies e liberando uma quantidade colossal de dióxido de carbono na atmosfera que sabotaria as tentativas de limitar as mudanças climáticas globais.

O ponto de inflexão da Amazônia marcaria uma mudança final na capacidade da floresta tropical de se sustentar, um momento final após o qual as árvores não podem mais alimentar as nuvens com umidade suficiente para criar a quantidade de chuva necessária para sobreviver.  

Modelos climáticos previram outros chamados pontos de inflexão que afetam os sistemas equilibrados de longa data da Terra, por exemplo, o aquecimento que faz com que o permafrost siberiano derreta e libere grandes quantidades de emissões, ou a camada de gelo da Groenlândia derretendo a uma taxa que a precipitação de neve anual não pode mais compensar a perda.

Exatamente onde fica esse ponto na Amazônia, a ciência ainda não está certa. Alguns pesquisadores argumentam que a modelagem atual não é sofisticada o suficiente para prever tal momento. Mas estão se acumulando evidências de que, em certas áreas, manifestações localizadas do ponto de inflexão podem já estar acontecendo.

A Reuters rastreou três extensas experiências na Amazônia para dar uma visão do mundo real da degradação antes prevista apenas por simulações de computador.

Uma família que tem cultivado esta parte exuberante da floresta tropical por quase 50 anos. Um casal de cientistas que vem monitorando milhares de árvores individuais por décadas. E um químico atmosférico que coletou amostras de ar de muito acima do dossel florestal por anos. Suas perspectivas revelam o impacto de longo prazo do desmatamento: nas chuvas, na floresta ainda em pé e nas emissões globais.

Juntos, eles mostram a extensão perigosa das mudanças operadas na maior floresta tropical do mundo e um possível vislumbre do que está por vir.

Mesmo enquanto a ciência aprende mais sobre o impacto de longo alcance da destruição que começou há muitos anos ou mesmo décadas atrás, o desmatamento aumentou sob o presidente Jair Bolsonaro, que apoia uma maior abertura da Amazônia para mineração e agricultura. No ano passado, uma área maior que o Líbano foi cortada da floresta tropical e, embora os dados preliminares para 2021 apontem para um ligeiro declínio na comparação anual, o desmatamento permanece em um nível não visto no Brasil desde 2008.

O ecologista Paulo Brando, um dos principais cientistas que estudam as mudanças na saúde da floresta amazônica, resume: “Há um limite para quanta merda o sistema pode aguentar.”

TERRA DA SEDE

Ano após ano, a família Freire desmatou mais e mais da sua parte de floresta na fronteira oeste do Brasil.

Em 1976, depois de derrubar alguns hectares e obter permissão para usar um pedaço do pasto de seus vizinhos, eles investiram em 10 bezerros e um reprodutor –o início de um negócio de laticínios que ao longo dos anos se tornaria um rebanho bem-sucedido de cerca de 400 cabeças.

Mas o medo da seca assombrava o trabalho. Eles vieram do Vale do Jequitinhonha (MG), 2.500 quilômetros de distância, onde décadas de agricultura de corte e queima secaram e degradaram a terra, deixando seu povo na pobreza. A faixa semiárida tornou-se conhecida como o “Vale da Miséria”. Mesmo com a abundância de água, eles sentiram que o mesmo poderia acontecer em sua nova casa.

A erosão do solo, como a que assolou o Vale do Jequitinhonha, frequentemente acompanha a rápida e caótica expansão agrícola. Terras despojadas de vegetação nativa, especialmente quando transformadas em pastagens e duramente trituradas pelo gado que pasta, perdem a capacidade de reter água no solo e na folhagem. A chuva escorre da superfície alterada em ondas repentinas, arrastando a camada superficial do solo para riachos e rios que entopem e secam.

O Brasil é abençoado com as maiores reservas de água doce do mundo. Mas a ascensão implacável de uma das potências agrícolas do mundo, combinada com as mudanças no clima global, estão ajudando a reduzir esse recurso vital. Dados divulgados este ano pela MapBiomas, uma colaboração entre universidades, organizações sem fins lucrativos e empresas de tecnologia, mostram que o Brasil perdeu 15% de suas águas superficiais nas três décadas anteriores a 2020.

Para a família Freire, as últimas dúvidas sobre o ressecamento da terra escoaram-se em um dia árido de 1991. Um vaqueiro disse a Gertrudes que o gado estava com tanta sede que fuçava no fundo de nascentes ressecadas, sugando a areia em busca de umidade.

Ela agiu rapidamente e instalou um complexo sistema de canos e bombas para tirar água para o gado de fontes que ainda não haviam secado.

De forma controversa, ela começou a reflorestar também. Gertrudes tinha pouca ideia do que estava fazendo, mas confiava em seus instintos, aguçados por anos de seca na terra natal que ela havia abandonado.

Seus vizinhos –e o marido– pensavam que ela estava louca enquanto plantava árvores ao redor de nascentes de água e ao longo de riachos e jurou que o último pedaço remanescente de floresta virgem, na outra extremidade da propriedade, deveria permanecer intacto.

As palavras dela nem sempre foram ouvidas. “Voltei de uma curta viagem e meu marido tinha derrubado outro pedaço” para pastagem, ela se lembra, balançando a cabeça.

Gertrudes percebeu que as chuvas também estavam mudando.

Vários estudos científicos descobriram o mesmo. Como as florestas tropicais influenciam as chuvas, o desmatamento pode mudar seu padrão. Um influente artigo de 2011 que analisa 30 anos de dados de precipitação constatou que o início das chuvas no Estado de Rondônia, onde a família mora, atrasou em até 18 dias.

As pesquisas desde então tem apoiado essa tendência. Um importante relatório deste ano, que reuniu cerca de 200 cientistas, informou que os dados disponíveis apontavam para uma estação seca que “se expandiu cerca de um mês na região sul da Amazônia desde meados dos anos 1970”.

Antonio Deuseminio, agroecologista com décadas de experiência na floresta tropical, está ajudando agricultores a replantar árvores e trazer água de volta para suas propriedades. Ele trabalha para uma subdivisão do Ministério da Agricultura voltada para o cacau, que, segundo ele, possui os dados meteorológicos mais antigos da região. Embora o total de chuvas não tenha mudado significativamente em Ouro Preto do Oeste, a estação seca ficou mais longa e seca, diz Deuseminio. Para a agricultura, este é um problema sério, porque as plantações e as gramíneas não têm raízes longas o suficiente para encontrar água quando não há chuva.

O clima mais seco também torna o reflorestamento mais difícil. Vinte anos atrás, as espécies da floresta tropical podiam ser plantadas diretamente no solo nu. Deuseminio afirma que agora precisa primeiro plantar árvores resistentes à seca, e somente depois que elas crescerem o suficiente para dar sombra e melhorar o solo, após cinco anos ou mais, ele pode fazer o acompanhamento com espécies clássicas da Amazônia. As mudas da floresta tropical agora lutam para sobreviver nesta parte da Amazônia, diz ele.

MORTE NA FRONTEIRA

Décadas de agricultura tornaram os Freire sensíveis às mudanças das chuvas. Mas para o olho não treinado, as mudanças lentas nas florestas sobreviventes –como aquela no final da fazenda da família– são mais difíceis de ver. Detectar essas mudanças pode exigir anos de estudo metódico, trabalho árduo e meticuloso, com fitas métricas, botas de caminhada e cadernos.

Os ecologistas Ben Hur Marimon Jr. e Beatriz Marimon passam tanto tempo em seus lotes na floresta que fizeram amizade com muitas das árvores. Eles ficam tristes por aquelas que perderam ao longo dos anos. Ultimamente, eles estão perdendo cada vez mais.

O casal realiza pesquisas no campus local da Universidade Estadual de Mato Grosso em Nova Xavantina, uma cidade de soja de 20.000 habitantes localizada a cerca de 1.200 quilômetros a leste da casa da fazenda Freire. A área ao redor é uma fronteira de bioma, um espaço intermediário onde a savana do Cerrado faz a transição para a floresta amazônica. As árvores remanescentes, dizem eles, proporcionam uma visão do futuro.

“É amanhã, hoje”, diz Beatriz, pisando em um pedaço de floresta seca na periferia da cidade. Ben Hur conclui o pensamento. “Esta é a borda da Amazônia, seu muro de proteção, e está morrendo.”

Se o ponto de inflexão marca a marcha irreversível da savana sobre a floresta tropical, os cientistas preveem que o processo ocorra primeiro em florestas onde a savana e a floresta tropical já estão interligadas.

Ben Hur tem 58 anos, uma barba branca bem aparada e botas de caminhada desgastadas –uma vítima mastigada de seu cachorro. Beatriz, 55, tem longos cabelos grisalhos presos em um prático rabo de cavalo. O casal se conheceu na década de 1980, enquanto estudava engenharia florestal na capital Cuiabá. Os dois basicamente têm trabalhado juntos desde então. “Ele gosta de falar; eu gosto de fazer”, brinca Beatriz.

Para monitorar as florestas, o casal marca árvores de tamanhos e espécies variados em seus lotes com pedaços de metal que parecem etiquetas de identificação militares. Eles voltam em intervalos regulares –de três meses a três anos– e medem a circunferência das árvores, a altura e a respiração de dióxido de carbono. As árvores que não sobreviveram são adicionadas a uma lista dos mortos.

As florestas tropicais reciclam grandes quantidades de água devolvendo as chuvas ao céu por meio da evaporação do solo e da transpiração das plantas. Na Amazônia, a umidade que sai do oceano Atlântico é transportada por milhares de quilômetros através do continente sul-americano, caindo na forma de chuva e subindo novamente na forma de vapor até sete vezes até atingir a parede montanhosa dos Andes. Em dias quentes, após uma chuva torrencial, a floresta pode parecer que está fumegando.

Mas o desmatamento em grande escala interrompe esse processo, reduzindo o número de árvores a tal ponto que os níveis de precipitação caem ou se tornam mais concentrados em uma estação chuvosa mais curta. Em algumas partes da região de Nova Xavantina nos últimos 30 anos, diz Ben Hur, as chuvas reduziram até 30%.

Conforme a precipitação muda, riachos e fontes desaparecem, e a floresta remanescente fica mais seca. As temperaturas locais também aumentam –especialmente nas bordas onde a floresta e as terras agrícolas se encontram. Essas vastas clareiras agrícolas planas aumentam a força dos ventos, que podem rasgar a floresta e derrubar as árvores mais altas e mais antigas.

A floresta mais seca também é mais vulnerável ao fogo, que ainda é amplamente usado para limpar terras agrícolas aqui. À medida que mais árvores morrem –por causa do vento, da seca e do fogo– suas mortes aumentam a probabilidade de condições climáticas extremas no futuro, criando um ciclo mortal.

Os primeiros experimentos que imitaram a seca extrema na Amazônia levaram os cientistas a pensar que o clima mais seco mataria as árvores mais velhas primeiro, mas o que Ben Hur e Beatriz descobriram é o oposto. Com raízes mais longas, as árvores maiores são geralmente as mais resistentes –pelo menos à seca. Em vez disso, diz Ben Hur, apontando para as folhas marrons de uma planta próxima, são as árvores novas que morrem. A floresta perde seu futuro.

Para Ben Hur e Beatriz, as florestas em degradação ao redor de Nova Xavantina demonstram que o ponto de inflexão já pode estar acontecendo ali em nível local. A grande questão permanece se esse mesmo processo poderia ocorrer em grande escala em áreas inteiras da bacia amazônica –e em caso afirmativo, quando?

O célebre climatologista brasileiro Carlos Nobre, que ajudou a popularizar a ideia do ponto de inflexão na última década, coloca o precipício entre 20% e 25% de desmatamento do dossel amazônico original. Atualmente, estamos em cerca de 17%, de acordo com importante relatório com 200 cientistas publicado este ano. Nobre acredita que poderíamos ver a morte em massa da vegetação no leste, sul e centro da Amazônia em menos de 15 anos.

Outros não têm tanta certeza.

Marina Hirota, uma cientista do sistema terrestre que trabalhou em modelos antes de passar para o trabalho de campo, diz que as simulações atuais simplificam demais a diversidade de vegetação, tipo de solo e topografia encontrados na bacia amazônica. Em sua opinião, ainda não há evidências suficientes para dizer onde é o ponto de inflexão ou mesmo se esse limite único existe com certeza. Os modelos precisam ser melhorados primeiro, diz ela.

Hirota considera mais provável que o desmatamento desencadeie vários pontos de inflexão menores em diferentes locais da Amazônia, semelhante ao que Ben Hur e Beatriz têm visto em Nova Xavantina.

Mas muitos pesquisadores acreditam que colocar um único número no ponto de inflexão ainda é importante como um sinal de alerta, mesmo que seja muito complexo provar atualmente. Assim que você puder provar, argumenta o ecologista Brando, já será tarde demais.

“Sabemos que há um penhasco por aí e, por isso, mesmo que não tenhamos certeza de onde ele está, precisamos diminuir a velocidade”, diz Brando. “Em vez disso, estamos correndo em direção a ele de olhos fechados.”

VISTA DE CIMA

Nas décadas em que Ben Hur e Beatriz listavam árvores e as envolviam com fitas métricas, a química atmosférica Luciana Gatti estava aprendendo a captar dióxido de carbono dos céus.

Enquanto a vista do solo mostrava árvores sofrendo sob temperaturas cada vez mais altas e secas, Gatti queria entender o que essas mudanças significam para o papel da Amazônia na mudança climática global.

Gatti, de 61 anos, primeiro se especializou em gases reativos e começou sua carreira no Instituto de Pesquisa Energéticas e Nucleares do Brasil. Após a Cúpula da Terra em 1992 no Rio de Janeiro, ela se voltou para a Amazônia, juntando-se a uma safra de talentos científicos caseiros que lutavam por um papel maior do Brasil na pesquisa climática global. Ela agora trabalha para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde seu estreito escritório está abarrotado de fotos de família e credenciais de conferências anteriores. Em sua mesa fica uma bola de estresse em forma de planeta Terra.

Os cientistas estimam que desde a revolução industrial cerca de um quarto de todas as emissões de combustíveis fósseis foram absorvidos por florestas e outras vegetações terrestres e solos, principalmente a Amazônia.

Durante as décadas de 1980 e 1990, quando a migração humana em massa para a Amazônia estava apenas começando, a floresta tropical extraía cerca de 500 milhões de toneladas de carbono da atmosfera todos os anos, mais do que as atuais emissões anuais da Alemanha, Reino Unido, Itália e França juntas. A fotossíntese pelos bilhões de árvores das florestas, usando dióxido de carbono para viver e crescer, serviu como um para-choque vital contra as mudanças climáticas.

Conforme a migração aumentava e mais partes da Amazônia eram desmatadas para a agricultura, os pesquisadores sabiam que a capacidade da floresta de sugar carbono seria atingida. Mas ninguém sabia ao certo quanto.

Para tentar obter uma resposta, Gatti se espremeu em um monomotor de quatro lugares, munida de uma mala acolchoada cheia de frascos de vidro. Do alto do dossel, ela às vezes podia ver a escala da destruição, a fumaça cinza saindo das árvores em chamas e as manchas amarelas de terra cortada do verde da floresta.

As primeiras amostras de ar de Gatti datam de 2000, de um único ponto na Amazônia oriental. Mas ela achou os dados muito limitados e voláteis para dar uma imagem do balanço de carbono para toda a bacia, então nos anos seguintes ela expandiu o trabalho, treinando equipes e contratando aeronaves leves para encher frascos de ar da floresta de quatro partes da Amazônia: Santarém e Alta Floresta a leste, e Tefe e Rio Branco a oeste.

Desde então, as aeronaves coletaram mais de 600 perfis verticais –uma série de amostras coletadas em diferentes altitudes sobre um determinado ponto. A certa altura, Gatti duvidou de seus resultados. Ela ficou deprimida. Os dados não faziam sentido. Não podiam ser verdade. O experimento mostrou que o sudeste da Amazônia estava emitindo mais carbono do que absorvendo, mesmo em anos chuvosos, quando os cientistas esperavam que a saúde da floresta estivesse melhor. Significava que uma parte da floresta tropical não estava mais ajudando a desacelerar a mudança climática, mas aumentando as emissões.

Ela mudou sua metodologia. Mudou novamente. E de novo. No total, ela passou por sete metodologias antes de finalmente aceitar o que parecia impossível. O sudeste da Amazônia não é apenas um produtor líquido de carbono, mas mesmo quando você elimina os incêndios, a floresta sozinha –ou a troca de bioma sem fogo– é uma fonte de carbono. Pesquisadores consideram, em geral, os resultados, publicados recentemente na Nature, como os mais definitivos até agora sobre as mudanças nos fluxos de carbono da floresta tropical.

A parte ocidental da Amazônia, protegida por seu isolamento, está em melhores condições de saúde e ainda pode absorver quantidades substanciais de carbono, mostra o estudo. Mas não é o suficiente para compensar o poluente leste, onde a pecuária e o cultivo da soja invadiram profundamente a floresta tropical. Os chamados pulmões da Terra estão expelindo fumaça. “Estamos perdendo a parte sudeste da floresta”, diz Gatti.

Luciana Gatti acredita que seus números mostram que certas partes da Amazônia podem já estar em seu ponto de inflexão. Ela considera que os dados apontam para o mesmo processo que Ben Hur e Beatriz presenciaram, mas em maior escala: espécies da floresta tropical como a castanha-do-brasil e o dialium guianense dando lugar a árvores como mabea fistulifera e ouratea discophora, que são mais tolerantes ao clima mais quente e seco. Essa mudança de regime libera enormes quantidades de carbono e ajudaria a explicar a capacidade reduzida da floresta de absorver emissões.

“É um caminho sem volta”, diz Gatti.

ÁGUA, UMA PREOCUPAÇÃO CONSTANTE

De volta a Ouro Preto do Oeste, os Freire lamentam o período de seca mais severo do que qualquer um deles se lembra. É meado de agosto e as primeiras chuvas costumavam chegar agora, dizem eles. A estação seca, antes de apenas três meses, agora se estende por quatro ou cinco. Em todo o país, os reservatórios estão perigosamente baixos, e o Brasil sofre uma das piores secas em um século.

A família está se diversificando para tentar proteger seus negócios da seca, capacitando-se na criação e na pecuária de corte para complementar a produção de leite. Eles também começaram uma empresa de sabonetes orgânicos e querem plantar milho.

A água é uma preocupação constante. Alguns fazendeiros próximos já venderam suas terras –principalmente para grandes criadores de gado que resolvem o problema cavando poços profundos ou canalizando água a longas distâncias.

“Vai ficar ainda mais seco”, diz Gertrudes, olhando para a grama amarela de sua fazenda enquanto dois gatos ficam paralisados no calor sufocante da tarde. À distância, a fumaça turva o horizonte enquanto a floresta recém-cortada queima. “A água vai acabar.”

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