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As fintechs vão acabar com os bancões? Felipe Ruiz duvida que isso aconteça

Os resultados recentes divulgados pelos maiores bancos do país mostram que eles ainda possuem um negócio sólido e com enorme capacidade de gerar bons retornos para seus acionistas.

Redação RIC Mais
Redação RIC Mais
As fintechs vão acabar com os bancões? Felipe Ruiz duvida que isso aconteça
Felipe Ruiz é engenheiro com MBA pelo MIT e sócio-fundador do Ações Garantem o Futuro

20 de agosto de 2021 - 17:10 - Atualizado em 2 de setembro de 2021 - 10:08

Quem acompanha de perto as notícias de negócios já se acostumou a ler, com uma certa frequência, matérias que pregam que o fim dos bancos tradicionais está se aproximando. Em geral, a tônica das reportagens é parecida, enumerando fatores que suportam a visão de que os bancos digitais engolirão os “bancões”.

De fato, as fintechs têm ganho cada vez mais espaço e notoriedade em um cenário historicamente dominado apenas pelas grandes instituições financeiras. No entanto, os resultados recentes divulgados pelos maiores bancos do país mostram que eles ainda possuem um negócio sólido e com enorme capacidade de gerar bons retornos para seus acionistas.

No primeiro trimestre de 2021, os quatro maiores bancos de capital aberto do Brasil (Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Santander) apresentaram lucro líquido combinado de R$ 21,8 bilhões, uma alta de 46,4% em relação ao resultado do mesmo trimestre do ano passado. A queda nas provisões foi a grande responsável pela alta nos lucros dos bancos, mas outros fatores também contribuíram para o bom desempenho, como melhorias na margem financeira e reduções de custos. Mesmo com algum risco de piora nos indicadores de inadimplência no horizonte, alguns deles, como o Banco do Brasil, já voltaram a distribuir robustos proventos. Só em 2021, entre dividendos e juros sobre capital próprio o banco já distribuiu mais de R$ 3,3 bilhões aos seus acionistas.

Os bancos digitais, por outro lado, nasceram com uma proposta inovadora e vêm contribuindo para o aumento da bancarização no país. Além disso, também têm desafiado os incumbentes do setor, oferecendo uma experiência diferenciada a custos atrativos. Mas para crescerem de forma rentável, as fintechs ainda esbarram em alguns grandes obstáculos.

A maior parte dos bancos digitais não possui vantagens competitivas duradouras que não possam ser replicadas pelos bancos tradicionais. O modelo de negócio das fintechs, em geral, não apresenta grandes inovações tecnológicas ou de ofertas de serviços, se baseando quase que exclusivamente no apelo do canal digital (mobile), que também é oferecido pelos bancos convencionais, e nas baixas tarifas e taxas.

Além disso, por mais que clientes estejam abrindo conta nos bancos digitais, essas contas ainda são essencialmente secundárias. Isto é, o cliente mantém uma conta principal em uma instituição de sua confiança, onde deixa seu dinheiro aplicado, e usa a do banco digital somente para realizar transações e usar cartão de crédito. Isso, naturalmente, eleva os custos de captação dessas instituições e as torna menos competitivas.

Finalmente, a base de usuários dos bancos digitais ainda está muito concentrada nos jovens, que são o público com maior afinidade com novas tecnologias e maior apetite a risco. Segundo pesquisa da agência Cantarino Brasileira, 59% dos usuários de fintechs têm até 29 anos. Isso é bom por um lado, pois mostra que estão ditando tendências, mas por outro acaba limitando o crescimento dessas instituições, já que a maioria da população bancarizada ainda demanda um modelo híbrido, que combina atendimento físico e digital.

O ano de 2020 trouxe importantes desafios para o setor bancário, como a forte queda na Selic, a introdução do teto do cheque especial e o aumento da alíquota da CSLL, que passou de 15% para 20% (e, em 2021, para 25% de julho a dezembro). Isso tudo sem contar um ambiente ainda mais competitivo. Mesmo com todas essas questões, entretanto, ainda é possível enxergar um futuro próspero para o setor como um todo.

O surgimento de novas empresas inovadoras combinado com a reinvenção dos bancos tradicionais, em última instância, beneficia os usuários dos serviços. Aliada a isso, a agenda do BC voltada ao maior estímulo da competição bancária também tende a ampliar o acesso da população aos serviços financeiros. Haverá, assim, mais competidores brigando por uma fatia de um bolo que também irá crescer. Bancos digitais se tornarão um pouco mais tradicionais, e os tradicionais cada vez mais digitais.