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“Lembrei daquela história de terror que minha mãe contava”, diz relato de enfermeira que combate o coronavírus em Curitiba

Lucas
Lucas Sarzi
“Lembrei daquela história de terror que minha mãe contava”, diz relato de enfermeira que combate o coronavírus em Curitiba
Foto: Arquivo/HC.

28 de março de 2020 - 00:00 - Atualizado em 1 de julho de 2020 - 14:49

O nome dela é Camila Gonçalves Azeredo, enfermeira. Ela é uma das pessoas que tem dedicado a vida a salvar infectados pelo novo coronavírus em Curitiba. Nesta sexta-feira (27), Camila criou coragem e resolveu contar como tem sido sua rotina desde quando começou a trabalhar no combate a doença, na equipe de enfermagem da UTI do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Tomei coragem para escrever um pouco sobre meus sentimentos”, começa Camila, contando que faz dois meses que o medo da Covid-19 começou a tomar conta de seus pensamentos e dos seus colegas. “Lembrei daquela história de terror que minha mãe contava.. a história do sapato preto que aterrorizava, pois a cada passo da história ele estava mais perto de casa trazendo medo e morte pelo caminho”.

Camila contou que, aos poucos, além dos treinamentos, foi presenciando as mudanças drásticas na organização do hospital. “O medo foi crescendo. Duas semanas atrás eu fui ficando até mais tarde no hospital, sem almoço, cansada. Precisava treinar mais e mais”, diz.

Família de Camila. O filho, Joaquim, teve que sair de casa. Foto: Arquivo Pessoal/Colaboração.

Longe do filho

Há uma semana, seu filho, Joaquim, deixou sua casa. “Foi ainda meio doentinho morar com a vovó para ficar mais seguro. Levou todos os brinquedos que já faziam parte da decoração bagunçada da casa“, conta Camila, completando que seu marido, Cris, ficou com ela para cuidar da casa e dela também.

A enfermeira passou a trabalhar diretamente na UTI que cuida dos casos do novo coronavírus, chamada no HC como UTI COVID-19, referência para todo o hospital nesse momento. Além de mais treinamentos, foi então que Camila percebeu o que estava acontecendo. “A paramentação é quente, a máscara machuca, os óculos e o protetor facial embaçam. Não podemos tocar no rosto, não podemos beber água, nem ir ao banheiro depois de paramentados”.

Foto: Reprodução/Facebook.

Camila contou também que os enfermeiros e médicos não podem nem comer. “Não podemos sair para tomar um fôlego ali fora. Se eu sair do ambiente contaminado, preciso jogar avental luvas touca e máscara no lixo. Precisamos poupar material, tudo isso é muito caro e o medo de faltar é grande”.

Sem banheiro

A enfermeira disse que, desde então, não tem nem sequer ido ao banheiro direito, e chegou a ganhar fraldas do marido. “Não posso me dar o luxo de jogar um avental e uma máscara no lixo só porque eu quero fazer um xixizinho. Ganhei fraldas do marido. Não consegui usar nos primeiros dias, a bexiga explodindo e não consegui usar a fralda“, diz ela, contando também que todas as vezes que sai do setor contaminado precisa de ajuda para retirar as roupas e sapatos. “Para não contaminar a parte limpa do setor”.

Antes de ir embora do hospital, a enfermeira disse que ainda precisa tomar um banho com um produto específico. “Com produto degermante pelo corpo todo. Aí meu cabelo está parecendo uma vassoura. Chego em casa, tiro toda a roupa do lado de fora, com ajuda do Cris, roupa direto para máquina e eu direto para outro banho, chegou a parte boa”.

Em casa, Camila tem contado, e muito, com o apoio do marido, mas que a falta do filho tem sido rotina. “Comida quentinha que o marido fez e um cochilo na sala, às vezes, até com direito a colinho do marido. Casa vazia sem o Joaquim, tudo lembra o Joaquim. Aprendi muito essa semana sobre meu trabalho e sobre meu corpo… Aprendi muito sobre meu casamento e sobre a fragilidade humana“.

Tristeza ao telefone

Enquanto está em casa, a enfermeira continua a se lembrar sobre como os dias na UTI COVID-19 têm sido tristes. “Quando o telefone toca no setor, uma dor no coração. Alguém da família de algum paciente querendo notícias. Não podem visitar, não poder vir ao hospital, só recebem notícias por telefone e nem sempre são boas essas notícias“.

Camila finalizou seu relato pedindo que as pessoas se conscientizem, também alertando as mais próximas. “Deus me livre por favor de passar por essa angústia. Que saudade da minha família, da broa da bisa, dos almoços de domingo com as tias falando todas ao mesmo tempo. Se cuidem muito, eu vou precisar muito de vocês depois disso tudo.. Amo vocês“, conclui a enfermeira. Fique em casa.

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Foto: Reprodução/Facebook.