Coronavírus

Modificações genéticas do novo coronavírus são pesquisadas no Paraná

O Projeto Genoma covid-19 já identificou a presença de variantes do SARS-CoV-2 em Curitiba e em Londrina

Redação RIC Mais
Redação RIC Mais com informações da AEN
Modificações genéticas do novo coronavírus são pesquisadas no Paraná
Foto: SETI

16 de fevereiro de 2021 - 16:46 - Atualizado em 16 de fevereiro de 2021 - 16:46

Mais de 200 pesquisadores de instituições de ensino e pesquisa públicas e privadas do Paraná reuniram esforços para investigar as características genéticas do novo coronavírus (SARS-CoV-2), relacionadas às diferentes manifestações clínicas em pacientes infectados, assim como os fatores de resistência e suscetibilidade à covid-19.

A pesquisa está vinculada ao Projeto Genoma covid-19, conduzido pela Rede de Estudos Genômicos do Paraná, no âmbito do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação em Genômica (Napi Genômica). 

Sob a supervisão do coordenador do Curso de Medicina da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), médico e professor David Livingstone Alves Figueiredo, o estudo tem como objetivo contribuir para a compreensão dos mecanismos genéticos que regulam essa infecção viral, auxiliando nas decisões médicas e nas condutas terapêuticas mais apropriadas para os pacientes.

“Essa abordagem pode possibilitar, futuramente, uma análise mais acurada do impacto epidemiológico das cepas circulantes no território paranaense, assim como o impacto clínico, de acordo com aspectos genéticos de cada paciente”, afirma o professor, destacando a importância do sequenciamento genético em massa dos vírus circulantes para a vigilância epidemiológica e subsídios científicos.

Até meados de outubro do ano passado, o Paraná havia sequenciado o genoma do novo coronavírus em 10 amostras de pacientes acometidos com a covid-19. Com o desenvolvimento da pesquisa foi possível ampliar a investigação, aumentando esse número para 78 amostras, inicialmente sequenciadas.

Variantes em Curitiba e Londrina

O estudo revelou que 11% dessa amostragem pertencem à linhagem identificada como P.2 (B.1.1.28.2), detectada oficialmente no mês passado, no Rio de Janeiro. Com ampla circulação no Brasil, as alterações genéticas dessa cepa podem potencializar a velocidade de transmissão do vírus. As amostras analisadas nessa primeira fase são oriundas de Curitiba e Londrina. Nas próximas etapas a pesquisa deve contemplar amostras de pacientes de Cascavel, Foz do Iguaçu, Maringá e Ponta Grossa, com possibilidade de alcançar até 300 pessoas.

“Uma das mutações identificadas, a E484K, característica na linhagem P.2, pertence a uma amostra coletada em outubro de 2020, enquanto as demais são de pessoas acometidas pela doença em janeiro de 2021. Esse dado aponta que a circulação dessa linhagem do novo coronavírus já estava ocorrendo no Paraná, antes mesmo da primeira notificação no País”, pontua o pesquisador Wilson Araújo Silva Júnior, geneticista e diretor científico do Instituto para Pesquisa do Câncer (Ipec), em Guarapuava, onde o estudo está sendo desenvolvido.

“Essa pesquisa é fundamental para demonstrar se realmente as linhagens identificadas no Paraná podem estar associadas ao pior prognóstico e evolução da doença, bem como ao agravamento da pandemia registrado nos últimos meses”, afirma a professora Andréa Name Colado Simão, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Imunologia Aplicada da UEL, que também atua como bioquímica do Laboratório de Diagnóstico Molecular do Hospital Universitário de Londrina.

As mutações podem trazer importante repercussão na evolução da doença, seja na gravidade ou na sua perpetuação. “Alterações genéticas podem ser responsáveis pelo prolongamento de pandemias e pela adaptação do vírus ao hospedeiro humano, dificultando ainda mais as ações de prevenção, até mesmo de vacinas”, alerta Felipe Tuon, professor e pesquisador do Laboratório de Infecções Emergentes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Segundo o virologista e professor da Unicentro, Emerson Carraro, na medida em que a população começa a ser vacinada, novas variantes podem surgir com perfil de replicação que escape desta imunidade induzida. “Um exemplo prático é o que ocorre com o vírus influenza, que necessita de atualização anual da vacina para acompanhar o surgimento de novas variantes virais”, conclui.

A pesquisa paranaense também revelou a presença da cepa inglesa, a VOC Variante SARS-CoV-2 emergente 202012/01, também chamada de B.1.1.7, em uma amostra de paciente com manifestação clínica grave. Essa variante, detectada tanto no Reino Unido quanto na África do Sul e no Brasil, tem sido caracterizada por uma disseminação mais rápida que as outras, cerca de 70% mais transmissível.

Projeto Genoma Covid-19

O Projeto Genoma Covid-19 estuda o comportamento do novo coronavírus desde os casos de pacientes com quadros clínicos graves, mantidos em Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) com ventilação pulmonar até em pacientes com quadros clínicos leves ou assintomáticos.

Para realizar a pesquisa, iniciada em julho de 2020, foram coletadas amostras de sangue e de tecidos de pacientes com a covid-19, obtidas de várias instituições de saúde, inclusive do Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e do Laboratório Central do Estado do Paraná (Lacen), ambos localizados em Curitiba. Em Londrina, no Norte do Estado, a coleta ocorreu no Hospital Universitário da UEL, a partir da seleção de 14 pacientes com quadro clínico leve da doença, 32 casos moderados e mais 84 amostras de pessoas com quadro grave.

O superintendente de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, Aldo Nelson Bona, afirma que os resultados desses estudos colocam o Estado na vanguarda do conhecimento científico sobre o novo coronavírus e, em curto prazo, devem orientar protocolos de tratamento e prevenção da doença.

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