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Cientistas deixam laboratórios e promovem Marcha pela Ciência pelo mundo

Redação RIC Mais
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22 de abril de 2017 - 00:00 - Atualizado em 22 de abril de 2017 - 00:00

Manifestantes na marcha pela Ciência em São Cristovão, no Rio, protestam contra cortes de verbas (Foto: Wilton Júnior, Estadão Conteúdo)

As manifestações se opõem ao que é classificado como ataque crescente à ciência

Milhares de cientistas em todo o mundo deixaram seus laboratórios para sair às ruas no sábado, junto com estudantes e defensores da pesquisa, protestando contra o que classificam como ataques crescentes à ciência. A Marcha pela Ciência, que coincidiu com o Dia da Terra, estava prevista em mais de 500 cidades pelo mundo, com a participação de dezenas de sociedades científicas não partidárias.

Em Genebra, na Suíça, manifestantes levaram placas que diziam: “Ciência – Uma Vela no Escuro” e “A Ciência é a Resposta”. Em Berlim, milhares de pessoas participaram de uma marcha desde uma das universidades da cidade até o Portão de Brandemburgo. “Precisamos tomar mais decisões baseadas em fatos novamente e menos em emoções”, disse Meike Weltin, estudante de doutorado em um instituto ambiental perto da capital. Em Londres, físicos, astrônomos, biólogos e celebridades se reuniram para uma marcha pelas mais famosas instituições de pesquisa da cidade. Os apoiadores carregavam cartazes mostrando imagens de uma dupla hélice e símbolos químicos.

O protesto estava colocando os cientistas, que geralmente se afastam de militância, em uma posição mais pública. Os organizadores descreveram a marcha como política, mas não partidária, para promover a compreensão da ciência, bem como defendê-la de vários ataques, incluindo propostas de cortes no orçamento do governo dos EUA sob o presidente Donald Trump, como uma redução de 20% na verba do Instituto Nacional de Saúde.

Os cientistas que participaram na marcha disseram estar preocupados com a rejeição política e pública de descobertas científicas como as mudanças climáticas e a segurança da imunização por vacinas. “Os cientistas acham assustador que evidências tenham sido ofuscadas por afirmações ideológicas”, disse Rush Holt, ex-físico e congressista democrata que dirige a Associação Norte-americana para o Avanço da Ciência. Para ele, não se trata apenas de uma marcha contra Donald Trump, mas as suas políticas são um dos alvos do protesto. Apesar de dizer que a marcha não é partidária, Holt reconheceu que a manifestação foi concebida na Marcha das Mulheres em Washington, um dia depois da posse de Trump, em 20 de janeiro.

“A verdade é que deveríamos estar marchando pela ciência há 30 anos, 20 anos, 10 anos”, disse a co-organizadora e pesquisadora de saúde pública Caroline Weinberg. “A atual situação (política) nos levou de um estágio de ignorar a ciência para flagrantemente atacá-la. E isso parece está galvanizando as pessoas de uma maneira como nunca antes”, afirmou. “O método científico foi desenvolvido para ser não-partidário e objetivo. Deveria ser aceito pelos dois partidos”, concluiu, se referindo às duas principais siglas nos EUA, os Partidos Republicano e Democrata. 

No Rio

Sob chuva, cerca de 150 pessoas participaram da marcha no Rio, em frente ao Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na manhã deste sábado. Elas protestaram contra os cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), que chegam a 44% e resultam na redução de bolsas acadêmicas e de investimentos em pesquisas e em laboratórios.

Estudantes e professores de universidades do Estado, como a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), além da UFRJ, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e de entidades de pesquisa, como a Fundação Oswaldo Cruz, levaram cartazes com dizeres como “Ciência não é gasto, é investimento” e tesouras gigantes, numa crítica aos cortes.

Eles gritaram palavras de ordem contra o presidente Michel Temer (PMDB) e o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e destacaram em suas falas os riscos da falta de financiamento, no longo prazo, para o desenvolvimento da ciência no país. Citaram também o desestímulo para as novas carreiras representado pelas reformas trabalhista e da Previdência do governo federal, e pelas novas regras para a terceirização.

“Os cortes já vinham desde 2013, sempre com a alegação da crise, e se aprofundaram. Não há justificativa, é uma política equivocada, e que pode provocar um retrocesso grande. Ciência é algo que não se constrói da noite para o dia, mas que é fácil de destruir”, disse o vice-presidente da SBPC, o físico Ildeu Moreira. “O auge dos investimentos foi em 2010, mas nunca chegamos a ter 1,2% do Produto Interno Bruto, quando países como Coreia do Sul e Israel têm 4%”.

“Temos que reagir. Mostrar à sociedade brasileira que a ciência está de pé, afirmar o valor da educação. Se não há bolsas, se os laboratórios estão desconstruídos, damos uma sinalização objetiva para que os jovens se afastem da ciência”, disse o reitor da UFRJ, Roberto Lerer. A instituição acumula déficit de R$ 160 milhões.

“Esperamos que este não seja um projeto de desmonte da ciência, que seja algo conjuntural e reversível”, afirmou o diretor do Instituto Oswaldo Cruz, Wilson Savino.

O MCTIC informou que está avaliando o impacto da redução orçamentária e pediu aos seus institutos que apresentassem prioridades e necessidades para 2017, na expectativa de que parte dos recursos seja descontingenciada ao longo do ano.