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Catadora de recicláveis é enterrada envolta em pedaço de lona em Palmas

Segundo familiares, Simera de Fátima Paz morreu após sofrer um infarto; a funerária alega que a falta da causa da morte na certidão de óbito os obrigou a tomar medidas de segurança devido a pandemia

Redação RIC Mais
Redação RIC Mais
Catadora de recicláveis é enterrada envolta em pedaço de lona em Palmas
Foto: Reprodução/Grupo RIC

27 de julho de 2021 - 15:48 - Atualizado em 28 de julho de 2021 - 11:13

A família de uma catadora de recicláveis de Palmas, no sudoeste do Paraná, está indignada com a forma que precisou se despedir de Simera de Fátima Paz, de 39 anos, que morreu após sofrer um infarto. Ela foi velada e enterrada envolta em um pedaço de lona, com caixão lacrado, como parte de um enterro social no último final de semana. 

Tudo começou na última sexta-feira (23) quando Simera não resistiu após sofrer o infarto. Com poucas condições financeiras, o marido e os quatro filhos não tinham como pagar pelas cerimônias fúnebres e recorreram ao enterro social, que é oferecido pela Prefeitura Municipal. O benefício é concedido para ajudar pessoas em vulnerabilidade social e costuma custear urna funerária, transporte funerário, velório, sepultamento, pagamento de taxas e colocação de placa de identificação. 

O que ninguém esperava é que o corpo da ente querida fosse entregue enrolado em um saco de lona preta e dentro de um ataúde lacrado. O auxiliar de produção Adilson Paz, irmão da mulher, explica que todos ficaram surpresos quando abriram a janela de visualização do caixão e viram apenas um pedaço de plástico. 

“Nós conversamos com a funerária, me pediram roupa, tudo, para fazer o velório e acabou chegando o corpo lacrado e nós não podemos nem vê-la. A família está indignada com isso. Chegou lacrado, foi tirado a tampinha em cima do caixão e veio enrolado em um plástico, mas não foi Covid, foi um infarto que deu. […] Estamos todos abatidos, não sabemos o que fazer. Não foi fácil”,

disse Adilson. 

Com a intenção de ver a familiar pela última vez, o marido e os quatro filhos de Sirente afirmam que solicitaram a abertura do caixão, posto que a mulher não morreu de Covid-19 ou de qualquer outra doença transmissível. No entanto, segundo eles, a funerária responsável pelo enterro social solicitou R$ 3.500 porque iria precisar preparar o corpo para o velório. 

“Mil reais eles queriam à vista e R$ 2.500 eles queriam em seis vezes no cartão. De onde o pobre vai tirar esse valor?. Eu acho que ela está sem roupa”, desabafou uma parente ainda no dia do velório. Outra ainda completou: “Só porque ela catava papelão, isso aí é uma humilhação”. 

No dia 24 de julho, Simera foi enterrada da mesma forma em que foi velada, já que, conforme a família, não foi possível pagar o exigido pela funerária. “Não dá nem para saber se é ela ou não é ali dentro, não sei porque uma coisa dessas. Pior que um animal. É uma tristeza para o pobre porque o pobre é pior do que um lixo, pobre não tem dinheiro, não tem valor nenhum. A coitadinha catava lixo podre para sustentar os filhos, ajudando a limpar a cidade, para chegar e não poder nem ver o corpinho dela”, finalizou uma irmã. 

O que diz a prefeitura de Palmas 

Em nota, a Prefeitura de Palmas informou que o município possui contrato com a Funerária Santa Fé, especializada em funerais para atender pessoas de baixa renda, e que a empresa não pode realizar a cobrança de quaisquer valores à família encaminhadas pela Secretaria Municipal de Assistência Social. 

A administração da cidade disse ainda estar apurando o que ocorreu para que possa tomar as medidas cabíveis, entre elas, se necessário, “sanções administrativas, que podem culminar na rescisão contratual, aplicação de multa e impedimento de licitar com a Administração Pública em período especificado”. 

O que diz a funerária 

Também por meio de nota, a Funerária Santa Fé informou que o corpo da catadora de recicláveis foi encaminhado sem a causa da morte na certidão de óbito e, por esse motivo, um irmão de Simera concordou em realizar as cerimônias com caixão lacrado. O RIC Mais teve acesso ao documento e comprovou que a morte está especificada como “causa indeterminada, na dependência de exames complementares”.

Ainda segundo a empresa, “em momento algum foi solicitado valor aos familiares, o que também se comprova pelo do irmão da falecida junto ao boletim de ocorrência”. Veja nota na íntegra: 

“Anexo no presente e-mail a certidão de óbito onde consta que a causa da morte só seria apresentada em 45 dias, por mais que a família afirmasse que foi infarto, o perito que fez a autópsia NÃO atestou na certidão de óbito a causa da morte, como pode ser confirmado na certidão de óbito.

Neste caso em conversa com o próprio irmão da vítima este concordou que por segurança de todos o caixão fosse lacrado CONFORME RESTA COMPROVADO ATRAVÉS DO BOLETIM DE OCORRENCIA LAVRADO NO DIA DOS FATOS.

Estamos em meio a uma pandemia da COVID 19 que já matou mais de 500 mil pessoas somente no Brasil, foi por esse motivo, além da certidão de óbito atestando causa inconclusiva da morte, bem como a autorização do irmão da falecida que o caixão foi lacrado.

Em momento algum foi solicitado valor aos familiares, o que também se comprova pelo do irmão da falecida junto ao boletim de ocorrência.

Quanto ao procedimento, foram tomados todos as cautelas possíveis para garantir a segurança de todos com base nas informações contidas na certidão de óbito e do laudo do IML“.