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Caso Romário: o que é preciso saber sobre diabetes e cirurgia bariátrica

Redação RIC Mais
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31 de janeiro de 2017 - 00:00 - Atualizado em 31 de janeiro de 2017 - 00:00

Marlus Moreira é chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Instituto Mário de Abreu, em Curitiba (Foto: Divulgação)

Cirurgião de Curitiba fala de procedimentos anti-obesidade, incluindo o que foi feito no senador e ex-jogador

A cirurgia bariátrica como forma de tratamento do diabetes entrou em pauta nas redes sociais após o ex-jogador e senador Romário ter postado fotos visivelmente mais magro. Romário admitiu ter passado pelo procedimento de interposição ileal – quando o íleo, parte final do intestino delgado, é sobreposto sobre a parte inicial, o duodeno – para tratamento de um diabetes.
O caso levantou dois pontos de discussão. Primeiro, a utilização da interposição ileal para o tratamento do diabetes, pois a prática ainda não está regulamentada e estaria em fase de experiência. O segundo ponto é o uso da cirurgia bariátrica para pessoas com baixo IMC (índice de massa corporal, calculado dividindo-se o peso pela altura). Romário teria um IMC de 31 antes da cirurgia.
Para orientar sobre boas práticas em cirurgias metabólicas e oferecer mais informações sobre esse procedimento o dr. Marlus Moreira, chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Instituto Mário de Abreu, em Curitiba, esclarece os pontos em discussão.

Com qual índice de IMC uma pessoa pode pensar em cirurgia bariátrica?
No Brasil, a cirurgia bariátrica para controle de peso é recomendada com IMC a partir de 40, mas também consideram-se aptas pessoas com IMC acima de 35 associado ao diabetes. A literatura médica, desde 2011, recomenda que pacientes com diabetes severo (de difícil controle) sejam considerados à intervenção cirúrgica com IMC a partir de 30.

Qual a relação entre cirurgia bariátrica e a diabetes?
Essa relação é antiga, porém, vem sendo utilizada há poucos anos. Mais precisamente a partir de 2007, quando especialistas de todo o mundo votaram e homologaram as recomendações para intervenção cirúrgica em diabéticos. Em 2015, mpliou-se ainda mais as recomendações para cirurgia em diabéticos, especialmente naqueles com IMC a partir de 30.
Tecnicamente, a cirurgia bariátrica foi criada para reduzir e controlar o peso e assim evitar os malefícios do excesso de massa. Contudo, durante os anos de evolução das cirúrgicas anti-obesidade foi observado que a melhora nos índices glicêmicos em diabéticos ocorre muito antes de haver perda de peso substancial. Isso despertou a ideia de que existe um efeito cirúrgico que vai além da mera perda de peso e, de fato, muitos pacientes abandonam uso de drogas antidiabéticas já no momento da alta hospitalar, inclusive do uso de insulina.
Isso ocorre porque a cirurgia tem o poder de induzir alterações no metabolismo dos diabéticos. Em nossa experiência, em estudo conduzido na população brasileira, demonstramos que a intervenção cirúrgica pode reduzir e estabilizar o diabetes, evitando as tão indesejadas variações glicêmicas (hipo e hiperglicemia).

Como avalia a “interposição ileal”, procedimento pelo qual o senador Romário foi submetido?
A interposição ileal (IT) hoje gera uma grande expectativa por sua promessa de resolução do diabetes e mesmo com publicações sugerindo benefícios, essa técnica ainda não é regulamentada. Isso ocorre porque os resultados da IT isolada ainda são limitados e o mecanismo ainda não foi plenamente esclarecido, colocando-a como de uso exclusivo para investigação e experimentos. Atualmente não acredito que possa ser levada à população em grande escala antes de oferecer esse tipo de informação.
Tive a oportunidade de conduzir alguns experimentos com o íleo durante minha especialização em NY, entretanto os resultados foram inconclusivos e os estudos naquele momento acabaram interrompidos.

Qual procedimento você indicaria ao senador?
Especificamente nesse caso é difícil opinar, pois não temos acesso à condição clínica dele. Mas a opção seria por um procedimento com o qual tenha experiência e segurança para oferecer ao paciente, no qual os resultados sejam conhecidos e possam ser avaliados antes de tomar a decisão final de optar por cirurgia. Hoje não é preciso recorrer a procedimentos experimentais, pois existem pelo menos quatro tipos de técnicas diferentes e aprovadas que nos dão resultados ótimos e previsíveis, risco cirúrgico baixo e com raras complicações. Essa terapia cirúrgica existe, funciona muito bem e pode ser usada para toda população com segurança.

Até onde vai o desejo do paciente em confronto com a ética médica na realização de cirurgia bariátricas?
Esse desejo vai até onde existam normas claras e definidas sobre as indicações. Então, primeiramente devemos entender que cirurgia bariátrica se destina à perda de peso. Neste caso não vejo confronto ético, as normas já estão estabelecidas e basta segui-las.
Agora, se formos abordar a cirurgia metabólica (ou, leigamente, a “cirurgia do diabetes”), cujo foco é controle glicêmico e não somente perda de peso, pode existir conflito ao confundir as indicações e o momento de intervir. Nesse aspecto, o Brasil ainda não definiu as regulamentações e por isso existe margem a interpretações errôneas.
A boa notícia é que já tramita proposta de um score metabólico desenvolvido e aprovado em conjunto pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Soc. Bras. de Endocrinologia (SBEM), Soc. Bras. de Diabetes (SBD) e Associação Bras. de Estudos sobre Obesidade (ABESO), onde essas indicações são técnicas a partir de dados laboratoriais e clínicos. Acredito que tal normatização, após aplicada, irá resolver a polêmica e trará benefício à população em geral, evitando qualquer conflito ético ou legal.

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