Coronavírus

Pandemia faz artistas de rua de Curitiba contarem com doações para sobreviver

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Lucas Sarzi
Pandemia faz artistas de rua de Curitiba contarem com doações para sobreviver
Foto: Lucas Sarzi.

15 de maio de 2020 - 00:00 - Atualizado em 1 de julho de 2020 - 14:44

Rua XV de Novembro, Centro de Curitiba. Conhecida como Rua das Flores por alguns, Calçadão da Quinze por outros, é também palco de muitos artistas de rua da capital paranaense. Figuras que estão em nossa memória por alguma das passagens pelo Centro.

A Rua XV poderia perfeitamente ser chamada de Rua dos Artistas. Isso porque são eles que dão cor ao dia a dia dos curitibanos. Mas com a pandemia do novo coronavírus, se viram sem poder estar perto do público, por causa das aglomerações, e com isso, ficaram sem sustento.

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Faz mais de dois meses que Carlos não dá vida a Chameguinho. Foto: Lucas Sarzi.

Já faz bem mais de um mês que os artistas de rua não trabalham por medo de se contaminarem e até mesmo de contaminar outras pessoas. O palhaço Chameguinho, que há mais de 30 anos anima o tradicional ponto do Centro de Curitiba, teve até que mudar de profissão temporariamente.

“Um anjo da guarda viu e me ofereceu um serviço que é totalmente fora da minha área, para trabalhar de cuidador, eu aceitei, porque pelo menos vou ter um salário do mês“, contou Carlos Teles, o homem por trás do palhaço Chameguinho.

“Eu tenho três filhas, entre elas uma bebê que acabou de nascer. Me vi desesperado porque em março foi minha última apresentação. Até uma semana, duas, você consegue aguentar, mas depois complica”.

Pela primeira vez em seu longo tempo de carreira, Chameguinho se viu triste. O que dói, nesse momento, é não saber quando vai poder voltar a fazer as pessoas sorrirem no Centro de Curitiba. “Foi a primeira vez que o palhaço dobrou sua roupa e guardou, sem dizer que amanhã iria usar. A primeira vez que o palhaço guardou a maquiagem e sem previsão de usar”.

Chameguinho disse que sente muito a falta de estar no Centro, desempenhando o trabalho de sua vida. “Está sendo difícil. Desde o dia 15 de março eu não passo a maquiagem, porque se eu fizer isso, vou desobedecer as autoridades, vou botar em risco minha família e outras pessoas. Tenho que aguardar que o coronavírus vá embora e que a arte volte a sorrir no calçadão da Rua XV“. O contato de Chameguinho é o (41) 99924-7332.

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O homem aranha de Curitiba teve que trocar de máscara. Foto: Lucas Sarzi.

Sem abraços, sem fotos, sem dinheiro

Um dos personagens preferidos das crianças, o homem aranha, há mais de um mês não sai de casa se não for por extrema necessidade. Até ele teve que trocar a máscara e contar com a ajuda dos amigos no momento de necessidade.

Único auxilio que eu recebi foi o auxilio amigos. Nessa hora que a gente descobre que tem amigos de verdade. Meus amigos do teatro, da poesia, estão me ajudando bastante. Não faltou, nem vai faltar, comida“, desabafou João Mário, o homem por trás do homem aranha.

Segundo João, conhecido por Jota Eme, o contato com as crianças é o que mais lhe faz falta. “São crianças que eu conheço desde um ano de idade. Elas estavam por lá desde sempre. Sinto falta do exercício da função de ser o homem aranha de Curitiba com orgulho. Colocar a máscara e trazer um pouco de sonho para as pessoas”.

Para ele, a pandemia tem feito com que as pessoas repensem seus atos. “Todos nós. As coisas podem mudar para melhor, o ser humano tem que esquecer um pouco a vaidade, a mesquinharia e a pretensão de ser melhor que alguém”. O telefone para contato é o 98892-5443.

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Plá tem vivido de doações. Foto: Lucas Sarzi.

Um pouco de música em maio ao caos

Sozinho e tentando manter um pouco do que lhe restou de trabalho, o cantor Plá, uma das figuras mais icônicas da Rua XV, tenta não parar. Através da venda de seus discos e da doação das pessoas, tem sobrevivido.

Antes da pandemia já era difícil, mas agora piorou bastante porque as pessoas se fecharam ainda mais. Comecei a mostrar minha música em 1984, tenho 62 discos gravados, mas nesse período estou vivendo mais de doações das pessoas que me conhecem”, desabafou Ademir Antunes, o homem que dá vida ao Plá.

Tentando manter seu trabalho nas ruas, Plá tem ido a Rua XV pelo menos duas vezes por semana, mas não tem dado certo. “O que eu busco é passar algo para as pessoas, mas percebo que estou ali meio que sobrando. A situação está crítica, nunca passei por isso”, comentou o artista. A conta bancária de Plá, para doações: Caixa Econômica Federal, poupança, agência 3876, operação 013, conta 6071-6. Ademir Antunes dos Santos, CPF 317.707.629-49.

Plá acredita que a maior lição da pandemia é tentar despertar para a vida. “Ver melhor a distribuição das coisas, desapegar mais do egoísmo, saber que no fundo estamos num barcão muito grande e que todo mundo está junto: uns estão se afogando, outros boiando, outros não. Que isso desperte para um novo modo de viver, viver com o necessário, sem ostentação. Estamos de passagem por aqui“.

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Artistas de uniram para buscar doações. Foto: Lucas Sarzi.

Campanha de doações para ajudar os artistas

Como forma de tentar dar um pouco de luz em meio a este momento tenebroso, um grupo de mais de 40 artistas se uniu para arrecadar doações. Eles planejam fazer lives através das redes sociais, mas também conseguiram um ponto de apoio na Praça Rui Barbosa, onde qualquer um que quiser pode ajudar e deixar sua contribuição.

“Estamos arrecadando alimentos e produtos de higiene e limpeza aos artistas que não estão podendo trabalhar. Fizemos uma verdadeira corrente de solidariedade e queremos continuar com isso para ajudarmos quanto mais gente possível”, comentou Waldir Rangel, que é cantor.

As doações podem ser levadas direto ao ponto de arrecadações, que fica na Praça Rui Barbosa, em frente ao ponto de ônibus, entre as ruas Emiliano Perneta e André de Barros. O contato de Waldir é o (41) 99930-4598.

Apoio aos artistas de rua pela prefeitura de Curitiba

Em nota, a prefeitura de Curitiba informou que os artistas que procuraram ajuda da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) foram encaminhados para a Fundação de Ação Social (FAS) e orientados a se cadastrar nos CRAS para receber o auxílio em alimentação.

Para os artistas de rua, especificamente, a prefeitura disse também que foi lançado, no ano passado, e está em execução este ano, um edital do Fundo Municipal da Cultura. A ação forneceu apoio financeiro a projetos relacionados aos artistas de rua. Esse foi um edital inédito lançado pela Prefeitura especialmente para atender os artistas de rua.

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