Agronegócio

Agricultores argentinos seguram vendas de soja por incerteza com cenário cambial

Reuters
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9 de abril de 2021 - 16:32 - Atualizado em 9 de abril de 2021 - 16:35

Por Hugh Bronstein e Maximilian Heath

BUENOS AIRES (Reuters) – Os agricultores argentinos têm limitado suas vendas de soja mesmo diante dos elevados preços internacionais da commodity, visando evitar exposição à frágil moeda local, enquanto produtores de país concorrentes –como Estados Unidos e Brasil– anseiam por negociar a mercadoria.

A tendência surge em momento em que o país sul-americano, maior exportador de óleo e farelo de soja do mundo, necessita urgentemente das divisas geradas pelos embarques para sair de uma longa recessão, agravada pelos efeitos da pandemia de Covid-19.

A taxa de câmbio oficial do peso argentino cedeu 29,6% nos últimos 12 meses, considerando o valor da moeda na última quarta-feira, para 92,40 pesos por dólar. Com essa volatilidade cambial, os agricultores argentinos decidiram que o grão de soja estocado vale mais do que possuir pesos no banco.

“Nossa moeda é a soja. Não podemos confiar no peso”, disse à Reuters o agricultor Francisco Santillán, da província de Buenos Aires, principal distrito agropecuário do país. Embora as exportações sejam feitas em moeda estrangeira, os agricultores recebem a moeda local em suas transações.

Segundo dados oficiais, até 31 de março os agricultores argentinos haviam comercializado 31% da soja da safra 2020/21, cuja colheita teve início há algumas semanas. Na mesma data do ano passado, essa cifra era de 37%.

Os preços da soja e do milho, enquanto isso, atingem os mais altos níveis nos últimos sete anos. Na Argentina, o preço da oleaginosa é de cerca de 330 dólares por tonelada, ante cerca de 220 dólares há um ano.

Por sua vez, os produtores dos principais concorrentes no setor, Brasil e EUA, correm para vender suas safras garantindo os preços atuais.

No Brasil, até 2 de abril os agricultores haviam vendido 66,6% da safra esperada, acima da média histórica de cinco anos para o período, de 57,1%, segundo a consultoria Datagro, que estima a produção brasileira da oleaginosa em 2020/21 em 135,48 milhões de toneladas.

Um operador do mercado de grãos nos EUA, onde o ciclo de desenvolvimento das safras é oposto ao da América do Sul, disse que alguns agricultores já estão vendendo até metade de sua próxima safra, antes mesmo de o plantio começar.

Santillán afirmou que, em vez disso, ele e seus vizinhos têm armazenado a soja em “silobags”, enormes sacos plásticos que se multiplicam nas planícies pampeanas. Eles vendem apenas o suficiente para pagar suas contas, e já pensam na próxima safra de trigo.

A indústria de esmagamento local também não espera grandes vendas por parte dos agricultores neste ano. “Muito pelo contrário”, disse um operador de uma grande empresa exportadora internacional –que, em linha com as políticas da companhia, pediu para não ser identificado.

Segundo a CIARA-CEC, câmara de empresas processadoras e exportadoras de grãos da Argentina, a indústria está operando atualmente com uma capacidade ociosa de 46%.

“O problema é o nível de incerteza, principalmente em relação à taxa de câmbio para os próximos meses”, disse Gustavo Idígoras, presidente da CIARA-CEC.

(Reportagem adicional de Mark Weinraub em Chicago, Ana Mano em São Paulo e Agustín Geist em Buenos Aires)