MULHERES DO MUNDO, UNAM-SE

Pesquisadoras, escritoras, historiadoras e outras mulheres explicam o que é sororidade e a importância dela

O slogan “Mulheres do mundo, unam-se”, usado na década de 1960, se mantém atual — e hoje é impulsionado pela sororidade, conceito que representa a união entre mulheres através da quebra da competitividade feminina

Reportagem: Maria Isabel Miqueletto

Edição: Laríssa Ilaídes

Edição de imagens: Heloísa Helena

Edição de vídeo: Paulo Rafael

Fotografia: Eva Ramos

Prazer, me chamo Sororidade e você?

Durante a adolescência, a designer de moda Suelen Matos via todas as mulheres a sua volta como rivais. Ela sentia que só conseguia ter amizades verdadeiras com homens e sempre ouvira que outras meninas sentiam inveja dela. Na contramão, também odiava a si mesma: via problema em seu cabelo, em seus traços e cor da pele.

Não demorou para perceber a ligação entre os pontos.

“Quando a gente aprende a odiar outra mulher, automaticamente começamos a nos odiar também”, conclui. “Mas durante a época da faculdade, fui bombardeada por palavras como empatia e sororidade. Com isso, comecei a me olhar no espelho com outros olhos e a perceber meu valor e minha potência revolucionária – e a praticar isso com as mulheres ao meu redor.”

O que significa a tal Sororidade?

Essa palavra que Suelen descobriu na faculdade, a sororidade, significa “irmandade de mulheres” (sisterhood, em inglês).

Idiomas como o português recorreram ao latim soror, que também significa “irmã”.

Quando surgiu?

O termo sororidade foi proposto, pela primeira vez, pela escritora feminista Kate Millett, no final dos anos 1960. O objetivo era mostrar a importância da luta diária das mulheres contra opressões – e como a união poderia fortalecê-las.

Entendendo mais a fundo

Para ilustrar a necessidade da sororidade, a escritora Babi Souza propõe uma analogia com as princesas da Disney:

A Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Rapunzel ganharam fama pelas produções da Walt Disney Studios. Além de serem princesas há outras características que as unem: todas têm uma vida vazia e solitária antes de encontrar o príncipe encantado, pouca segurança em si, sem amigas e sofreram algum boicote por outras mulheres.

Para a escritora Babi Souza, essas personagens podem ter contribuído na distorção da amizade feminina e reforça crenças sexistas de que só existe amizade verdadeira entre homens.

“A maioria desses discursos já é identificada como machismo. Mas a ideia de que não temos a capacidade de criar laços entre nós ainda passa despercebida por grande parte da sociedade – uma prova disso é o fato de que, de um modo geral, poucas pessoas conhecem o significado de sororidade”, reflete a autora.

Convenhamos, a rivalidade feminina é apresentada a muitas meninas desde cedo. Diante disso, a ideia da sororidade surge como uma maneira de gerar laços de solidariedade para que as mulheres deixem de competir entre si e passem a se apoiar no combate às desigualdades de gênero e barreiras sexistas. Trata-se de olhar com empatia para as companheiras do mesmo sexo.

Experiência ELA: unindo mulheres de negócios

“Não somos estimuladas a ter parceria entre mulheres. Sinto até arrepio quando ouço comentários como ‘mulher se arruma para causar inveja nas outras’, ‘tapa na cara das inimigas’ ou ‘beijinho no ombro que o recalque passa longe’”, relata a psicodramatista, Elen Milek.

Milek nos contou que despertou para a importância da união feminina após o nascimento de sua primeira filha, Manoela. A pequena a inspirou na criação da Experiência ELA, um programa de desenvolvimento pessoal para mulheres de negócios. Elen conta sua experiência em seu relato escrito, na segunda parte desta reportagem.

BNDT: disrupção através da dança

Aulas de dança para mulheres sem competitividade entre as participantes e nem julgamentos. Essa foi a ideia da psicóloga Jade Quoi, quando começou o projeto em 2015.

“O primeiro encontro foi uma catarse, todas as meninas se abrindo [emocionalmente], eu chorei, elas choraram. Fui para casa sem saber que buraco eu tinha aberto (risos). Na semana seguinte pensei: pode uma aula de dança mexer tanto com o emocional das pessoas?’ Percebi que tinha um outro propósito junto”, recorda.

Ao longo dos meses seguintes começou a entender, de fato, o movimento que tinha iniciado. Foi assim que surgiu o BDNT (Bunda Dura Não Treme), grupo de dança livre para mulheres que une psicologia e dança.

Acho que a sororidade só acontece quando a gente está bem com a gente. É muito difícil, mas a gente precisa se libertar dessas questões de julgamento e rivalidade com as outras mulheres

Jade Quoi

“Quando comecei a me profissionalizar nunca senti que conseguia dar meu máximo, porque é um meio muito competitivo. A dança tem a coisa do corpo perfeito, quem dança melhor… não era confortável”, conta.

Nessa época, quando dançou na Espanha, sentia, também, o boicote de suas colegas.

“Era bem coisa de filme: elas iam ensaiar e não me chamavam, falavam em catalão para eu não entender. Eu tinha 18 anos, estava sozinha em Barcelona e não tinha a segurança e confiança que tenho hoje”, relembra.

Esse período negativo na dança serviu para Jade entender como queria que o BDNT fosse: um espaço para as mulheres se divertirem. “Notei que o que fazia as mulheres ficarem [nas aulas] era essa rede de apoio que a gente cria, esse envolvimento emocional, de autoconhecimento. O BDNT me mostrou que é possível ter amizade entre mulheres, a gente se respeitar, se amar – e ter empatia”, analisa. “Empatia, pra mim, não é se colocar no lugar do outra, mas entender que o outra é o outra – e aceitar isso.

Sororidade pesquisada

Não é de hoje que o discurso de que não é possível existir amizade entre mulheres existe. Desde Platão até o mundo contemporâneo, perdura a ideia de que os homens são mais capazes de desenvolver amizade conectiva. É o que explica Marilda Ionta, pesquisadora e professora de História.

“É um discurso canônico construído desde a antiguidade clássica. As mulheres foram excluídas da amizade, porque era uma relação política, que regia os laços de convivência na polis, e a mulher não podia estar nas polis. A amizade só podia acontecer entre iguais – e a mulher não era considerada uma igual, porque era inferior”, resume.

Por outra lado, Marilda reforça que: 

“A vida e a vivência mostram o contrário, as mulheres sempre tiveram uma ampla rede de amizade, mas é escondida por uma sociedade que é masculina e falocêntrica. Acontece desde a relação entre mãe e filha, irmãs, amigas.”

Logo, esse pensamento crítico precisa ser reforçado para haver uma construção social positiva. “Por que precisa ser tão repetido? Porque não é natural, é algo que precisa ser construído socialmente”, defende Marilda que também salienta a falta de estudos acadêmicos sobre elas, já que pesquisas com recorte de gênero feminino são recentes.

Para Marilda, o conceito de sororidade não é ideal. É preciso politizar as relações femininas.

“A ideia de amiga-irmã (sororidade vem de soror, que significa irmã) despolitiza a relação que é criada entre as mulheres, porque recorre a uma metáfora familiar, e o feminismo sempre criticou isso”, contrapõe. “Políticas de fraternidade foram nacionalistas, discriminatórias, xenófobas. Acho que não é o caso de criar o inverso do masculino, mas criar uma coisa nova.”

Vilma Piedade, outra autora brasileira, também questiona a ideia de sororidade. Em seu livro Dororidade (Editora Nós), Piedade defende que o conceito é antigo e foi importante para o feminismo, mas não dá conta de todas as experiências. Para ela, é preciso considerar a dor das mulheres negras, que é agravada pelo racismo. Para contemplar isso, propõe a ideia de dororidade, que contempla não apenas a dor do machismo, mas também do racismo.

A ORIGEM DA SORORIDADE: ESSA IRMANDADE É ANTIGA

O termo sororidade, como conhecemos hoje é recente, mas a ideia já perpassa gerações. “A palavra está deslocada de sua origem”, defende Ana Paula Vosne, professora de história e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR.

“A noção de sororidade nasceu nas comunidades evangélicas dos séculos 17 e 18. Na época, as mulheres religiosas se reconheciam como iguais. Em suas comunidades, exerciam funções muito importantes, ao contrário do que comumente se imagina dos séculos passados”, explica.

Por conta da religião, essas mulheres tinham papel de liderança, eram pregadoras e até viajavam juntas pelos Estados Unidos  um marco para a época. “Há um certo ‘igualitarismo’ na visão da religião: todos [independentemente do gênero] se reconheciam em Cristo. E esse discurso religioso teve um desdobramento social e político”, reflete Vosne.

> Leia mais sobre: “O surgimento do termo “sororidade” e o conceito como ferramenta política”, complemento desta reportagem.

Com o passar das décadas, essa união atingiu movimentos sociais e políticos, como o abolicionista pelo fim da escravidão. “As cristãs começaram a incluir as irmãs negras. Surge uma irmandade que ultrapassa as fronteiras raciais”, pontua. Essas mulheres incorporaram a experiência religiosa dentro do movimento por direitos.

A convergência de duas correntes  a cristã e a participação das mulheres no movimento abolicionista  culminou na percepção da injustiça que viviam por serem do sexo feminino. “Elas começaram a perceber que precisavam defender as mulheres também, além dos negros, e, partir disso, a se organizar”, conta a historiadora. “E achavam que as mulheres deveriam participar de uma ampla reforma da sociedade, uma apoiando as outras.”

SOLIDARIEDADE ENTRE MULHERES, MAS NÃO SÓ ISSO

Sororidade é comumente associada à ideia de solidariedade e apoio entre mulheres pela compreensão mútua de sua condição – que é considerado o lado emocional do termo. No entanto, isso é inspirado mais nos feminismos comunitários latino-americanos do que em Millett.

“A sororidade foi construída em seu potencial político para que se reescreva a existência cotidiana da vida das mulheres, que estava esquecida e abandonada”, pontua Marlene Tamanini, professora doutora do programa de pós-graduação em Sociologia e coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Para Tamanini, é preciso dar um passo adiante para que a união resulte em melhorias sociais efetivas:

“A sororidade vai muito além de ser solidária com a vizinha ou a amiga por sermos mulheres – é uma ferramenta de emancipação. É preciso tomar sua dimensão política e cobrar o Estado por políticas públicas”, elabora.

Foi o que questionou Nátaly Neri, cientista social e youtuber no canal Afro & Afins. Neri publicou em seu Twitter que não prega união feminina, mas, sim, direitos para as mulheres. Isso para explicar que não é preciso ser amiga de uma mulher para serem aliadas na luta política por direitos.

“União é organização coletiva. Exigir amizade é distorção interesseira de sororidade para evitar apontamento de crítica dentro do movimento feminista”, expõe em outro tweet.

Eu não tenho que amar todo mundo. A sororidade é pensada como uma ilusão da harmonia e homogeneidade entre mulheres, é romântico, uma noção de unidade entre elas. As mulheres são diferentes entre si e podem ser inimigas também, às vezes. É preciso reconhecer as diferenças”, elabora a pesquisadora Marilda Ionta. “A amizade vai além de uma ajuda, é algo que o poder não pode tocar – portanto é muito mais radical e revolucionário. É preciso ser entendida como uma abertura para o outro, para o diferente”, finaliza.

“A sororidade vai muito além de ser solidária com a vizinha ou a amiga por sermos mulheres — é uma ferramenta de emancipação. É preciso tomar sua dimensão política e cobrar o Estado (…)”

Marlene Tamanini

Política por.de.para Mulheres

Quando viu os adesivos misóginos nos tanques de carros que haviam sido feitos para ridicularizar a ex-presidenta Dilma Rousseff, Eneida Desiree Salgado, professora do curso de Diretor da UFPR, viu que precisava fazer alguma coisa a respeito da forma como as mulheres eram tratadas na política. Criou, então, o projeto Política por.de.para Mulheres.

“O grupo surgiu em 2015, não foi um ano fácil. Coloquei em prática a ideia de promover oficinas, para que as mulheres se sentissem à vontade para discutir política e fazer política cotidiana institucional, nos sindicatos, entre outros, e também na política partidária”, relembra.

Tornou-se outro exemplo de como a união entre mulheres pode ajudá-las a ocupar espaços que foram, por muito tempo, negados a elas. Criado dentro da UFPR, em Curitiba, tinha o formato inicial de um grupo de pesquisa. Dois anos mais tarde, ofereceu o primeiro Curso de Iniciação à Formação Política para Mulheres, com conteúdos sobre diversas áreas do Direito.

Naquela época, em 2015, ficou claro para Eneida que tinha uma questão de gênero muito forte nas críticas recebidas pela ex-presidenta.

“Hoje temos uma crítica social presente muito forte ao presidente, mas nenhum tem uma caracterização como teve com a presidenta, de misoginia e machismo. Era as pessoas se sentirem à vontade para explorar a figura feminina dela”, analisa. “Se você falar com qualquer mulher que já fez campanha [política], elas têm relatos horrorosos de violência física e simbólico e de machismo.”

POR MAIS SORORIDADE LITERÁRIA

A sororidade pode ter diversos desdobramentos em atitudes do cotidiano. Um deles é o intelectual. Mas por que consumir conteúdos produzidos por mulheres é praticá-la?

 “A gente entende essas formas de expressão de uma mulher [enquanto escritora], que não é só para mulheres, mas que dá esse tratamento à condição da mulher, como uma forma de sororidade. É uma forma de estar com o outro, tentando criar uma condução amorosa para a reflexão de todos esses temas que envolvem estar no mundo enquanto mulher”, resume a escritora curitibana Luci Collin.

Luci descobriu isso após ver a análise de uma pesquisadora que fez mestrado e doutorado sobre sua obra. Ela mostrou que em um corpus de 70 contos da autora eram evidenciadas as formas de ser mulher, tema recorrente nos 30 anos de carreira da curitibana. “É um ato de disponibilidade para que essa proximidade se estabeleça, para frequentar essa visão e experiência de mundo a partir das mulheres para todos e todas”, defende.

Mulheres, escrevam

A mudança de paradigma, em que as mulheres perceberam que os cânones da literatura eram me maioria homens e que portanto, precisava-se começar a dar visibilidade para escritoras, foi alavancada pelos ideais da segunda onda do movimento feminista, na década de 1970.

“Essa onda incentivou a ideia de pensar o mundo a partir da visão das mulheres. Desde essa época há uma consciência da importância de ler outras mulheres, porque isso permitia pensar o mundo de uma maneira profundamente diferente”, explica Miriam Adelman, socióloga e professora de Letras e Sociologia na UFPR.

Para a socióloga, qualquer interpretação do que chamamos de sororidade foi criada a partir da consciência setentista. Mas os desafios continuam presentes, ainda hoje.

“Estamos na defensiva para manter os ganhos. No curso de Letras da UFPR, por exemplo, tem a questão do cânone – quem se estuda e quem se lê. Apenas agora que as estudantes estão exigindo que os professores reflitam sobre isso [para ter mais mulheres]. É apenas agora que estão demandando essa mudança, é tardio. Temos muito trabalho a ser feito na academia hoje”, analisa.

Outra razão para incentivar a pesquisa da literatura feita por mulheres é reduzir a invisibilidade acumulada durante séculos de pouco acesso à educação. Entra aí a empatia para perceber que lê-las hoje, é apoiar a evolução de todas as mulheres nesse mercado.

Leia Mulheres: clube de leitura

Nesse cenário, existe o movimento Leia Mulheres, um clube de leitura criado para incentivar o consumo de obras de escritoras mulheres, visto a falta de espaço e credibilidade que muitas podem sofrer. Em Curitiba, os encontros são mediados pela escritora e tradutora Emanuela Siqueira.

“[Por isso] buscar se aproximar da literatura feita por mulheres, sem aquela necessidade de polarizar, mas amorosamente, em uma compreensão de que precisamos, sim, nos colocar (…) disponíveis para conhecer novas autoras”

Luci Collin

POR ELAS

Nesta reportagem, convidamos três mulheres que vivem em Curitiba para escrever crônicas e artigos de opinião sobre como a sororidade perpassa suas vidas. É, também, um ato político e a própria prática do conceito dar espaço para que elas contem suas experiências e falem por si só. Por isso, ouvimos na íntegra Elen Milek, Suelen Matos e Wal Dal Molin.

“Eu e ELA: como minha filha me despertou para a sororidade”

Por Elen Milek, psicodramatista, fundadora do programa Experiência ELA – Empreendedorismo, Liderança e Autonomia Feminina

Sou mãe de dois filhos. Um adolescente de 15 anos e uma menina de 10. Ora, veja você: ao trocar a fralda do meu piá, a long time ago, com apenas 8 meses, durante uma brincadeira de criança, o bebê mexeu no “pipi”. Lindo e descobrindo o corpinho. A plateia em volta reagiu com entusiasmo: “isso mesmo”, “Que lindo pegar aí”, “Que macho, uau” (suspiros de orgulho dos nobres ao redor). Ao escutar aquilo, eu só agradecia o fato de o piá ter sobrevivido a mim por longos 8 meses e, além disso, nada a declarar.

O tempo passou e a cena repetiu-se. Agora a protagonista era a minha filha ManuELA e o roteiro era o mesmo: fralda, mãozinha na “perereca” e gente ao redor. Para o meu espanto, a reação não foi nem perto da anterior (“isso aí, Manu. Pega na pepeca e seja uma super mulher”). Aliás, foi o contrário. Veio um sonoro: “Tira a mão daí. Que feio para uma menina.”

Como eu já acreditava na minha capacidade de produzir filhos, pois o mais velho estava muito bem, obrigada, sobrou espaço no meu peito para sentir uma baita indignação. Aqueles 150 ml de indignação que não servem para matar ninguém, mas servem para mudar o mundo, pelo menos ao meu entorno.

Pensei na hora e com uma clareza jamais sentida antes: eu não vou ficar aqui parada, sem fazer nada, vendo a minha filha crescer em um mundo que a julga por colocar a mão na “perereca”. Lógico que, naquele momento, revivi algumas experiências da minha história, com frases como: “isso não é coisa de mulher”, “mulher não fala palavrão”, “desse jeito nenhum homem vai te querer”, “assim você vai ficar para titia”, “isso é roupa de biscate” e a que ouço até hoje: “cabelo comprido é coisa de adolescente.”

Chega! 

Eu não quero acreditar, aceitar ou ser cúmplice desse mundo. Minha filha vai crescer tendo voz, fazendo escolhas de acordo com seu gosto pessoal, cuidando das suas coisas, vestindo-se baseada nos seus próprios conceitos de moda e ter o cabelo conforme seus desejos. Eu lutarei com ela e por ela. Cada vez que eu a autorizava, eu também me autorizava a ser cada dia mais dona dos meus atos.

Logo nas primeiras horas de vida da minha filha, ao chegar no colo do pai, aquela bebezinha linda já conseguira um olhar de admiração daquele homem que, na nossa relação de quase 20 anos, eu nunca tinha visto. Sim, ela é a nova mulher da casa e me despertou a capacidade de ter empatia por ela e lutar com ela, pelos sonhos dela que definiram a mulher/menina em que ela se transformou 10 anos depois daquele olhar. Sem ciúmes ou rivalidade. Portanto: que reine a sororidade.

Não somos estimuladas a essa parceria entre mulheres. Sinto até arrepio quando ouço comentários como: “mulher se arruma para causar inveja nas outras mulheres”, “tapa na cara das inimigas”, “beijinho no ombro que o recalque passa longe”, “juntou mulher, dá confusão.”

Enfim, uma enxurrada de comentários que moldam crenças e comportamentos. Vejo muitas colegas com o piloto automático ligado, repetindo barbáries sem entender a dor e a solidão da mulher que não se sente pertencente ao grupo no qual está inserida.

Entender  o diferente

Ter um filho me ensinou sobre o respeito ao diferente, à energia masculina, aos medos de um menino e às incertezas que passam na cabeça daquele que, em breve, será um homem adulto.

Ter uma filha me ensinou sobre ter empatia por uma mulher, fazer contato com a minha fragilidade, permitir-me ter medo e ser imperfeita. Ver minha filha livre e lutar com ela, pela liberdade de expressão dela, me ensinou a ser parceira das mulheres, encorajar mulheres e acolher as mulheres.

O nascimento da minha filha e a nossa parceria me trouxe a certeza que a liberdade de expressão é um direito. Vê-la livre e amada por tanta gente me encorajava a ser cada vez mais autêntica e acreditar que eu poderia ser aceita do jeito que eu sou.

Esse movimento foi tão incrível e inspirador que transbordou das nossas almas de mãe, mulher, menina-moça, e atingiu outras mulheres em um movimento lindo e disruptivo. Do nosso amor de mulher nasceu o ELA: uma experiência que colabora para o desenvolvimento pessoal para mulheres empreendedoras. Não era mais dar voz à minha ManuELA e, sim, a muitas ELAs por aí. A experiência ELA continua me autorizando a criar o meu jeito autoral de viver e potencializando outras Manuelas a colocarem a mão onde bem entenderem.

Aprendi sobre a importância da aliança entre mulheres, baseada na empatia e no companheirismo, na busca de alcançar objetivos em comum. Sororidade. Obrigada, filha.

“Sororidade como potência revolucionária”

por Suelen Matos, designer de moda, especialista em africanidades e cultura afro-brasileira

Fomos criadas aprendendo a odiar e competir com outras mulheres e isso, muitas vezes, é reforçado dentro de nossas próprias casas. É comum ouvirmos histórias em que a mulher diz: “sinto que minha irmã compete comigo”, ou, até mesmo, “minha mãe diz que a profissão da minha prima é melhor do que a minha.” Todas essas falas, que suscitam competitividade, enraízam-se no inconsciente e, mesmo sem perceber, entramos nesse jogo da competição com as mulheres ao nosso redor.

Eu sempre via outras mulheres como rivais em potencial. Durante a minha adolescência, sentia que conseguia alimentar, com mais naturalidade, amizade com homens do que com mulheres, afinal, “elas sempre sentiam inveja de mim” (outra frase comum). Quando a gente aprende a odiar outra mulher, automaticamente, começamos a nos odiar também. Eu era extremamente cruel com meu corpo. Odiava a cor da minha pele, a textura e forma dos meus cabelos, o tamanho da minha boca e nariz.

Ser mulher sempre foi uma “coisa insuportável”, me anulei por muitos anos: tentei modificar meu corpo, sentia que precisava ser muito magra, alisar meus cabelos e ter a pele mais clara. Já que era mulher, precisava ser o tipo que a sociedade acreditava que era o ideal. Recordo-me que, na época do colégio, era comum ‘zoar’ as meninas que fugiam da forma padronizada.

Cresci rígida. Ao entrar na faculdade, escolhi design de moda. Irônico alguém que não se achava bela querer trabalhar com beleza. Foi aí que encontrei a minha. No terceiro ano da graduação, ouvi falar sobre algumas mulheres que tiravam seus sutiãs em praça pública e protestavam contra o machismo, as “femen”. Achei a discussão muito interessante, mas não me reconhecia naquelas práticas. Busquei entender o que significava o termo feminismo. Fui bombardeada por palavras como empatia, união e sororidade. Mas o que realmente tudo aquilo simbolizava?

Comecei a me olhar no espelho com outros olhos, perceber a minha beleza, meu valor e minha potência revolucionária. Comecei a ter mais empatia por mim mesma e, com isso, praticar esses novos conceitos com outras mulheres. Busquei grupos em que eu pudesse debater e entender mais e enaltecer mulheres. Mais do que me aceitar, comecei a me amar. E, graças a isso, percebi que amava outras mulheres — até mais do que afetivamente, mas, sim, romanticamente.

Em 2017 conheci minha atual companheira, após uma vida toda me relacionado com homens. Relacionar-se romanticamente com outra mulher é um ato revolucionário, é sair da norma de competição, ódio e repulsa que somos condicionadas a praticar. É mais do que possível existir um amor genuíno e recíproco na mesma proporção.

Vivemos juntas há mais de dois anos. Além de sermos diferentes fisicamente, também somos um casal inter-racial, o que desperta mais olhares. Gostamos de consumir conteúdos diferentes, mas temos os mesmos valores de vida e de futuro. Somos feministas, ela é psicóloga de mulheres e eu, uma antropóloga que pesquisa contextos e situações vividas por mulheres negras. Nossas práticas de sororidade ultrapassam as paredes do nosso lar e chegam até diversas outras mulheres por meio de nossos trabalhos.

O termo sororidade significa união, irmandade. Mas eu acredito que a união começa por nós mesmas, como seres sociais, nos unirmos com nossa alma, nosso espírito, nosso corpo, nossa história. Entendermos o quão potentes e revolucionárias somos, pois é a partir daí que conseguiremos criar um movimento muito maior, atingindo outras mulheres. Quando uma mulher se movimenta, outras se movimentam com ela.

Avós, cigarras e sucrilhos: notas sobre sororidade

Por Wal Dal Molin, escritora, filósofa e advogada colaborativa

Na vizinhança das coisas sem relação, ajusto o relógio para às 5h e acrescento as últimas notas no meu caderno-clichê de capa dura vermelha: descobri que Xamego foi a primeira palhaça negra do Brasil; que o inventor dos sucrilhos era inimigo do clitóris e que Maria Anna, a irmã de Mozart, foi uma musicista maravilhosa. Também: um time foi campeão. Uma celebridade faleceu. O meu bairro foi invadido por cigarras e um bougainville vestiu de rosa um pinheiro próximo de casa. Às 5h posso tomar um bom banho e secar os cabelos com dignidade. Amanhã é mais um dia de levar os filhos, trabalhar, fazer, comprar, terminar, escrever, pagar, suar e não engordar. Nesse não lugar entre hoje e amanhã, penso no processo de construção de uma palhaça. A maquiagem, o sapato, o nariz vermelho, as piadas. É muita coisa. Talvez ela tivesse que acordar às 4h pra dar conta de tudo. Eu descobri Xamego no documentário “Minha avó é um palhaço”. Ela assumiu a personagem quando o marido adoeceu, mas o fez no anonimato, confirmando a tese de Virginia Woolf. Era anos 40 e o público não poderia saber que Xamego passou a ser interpretado por uma mulher, a Maria Elisa, a avó da palhaça Birota. É uma boa história contada pela neta. Não sei se Maria Anna teve netas. O que sei é que os textos dizem que ela era uma musicista habilidosa, perfeita e que fazia duetos com Mozart. Mas chegaram os 18 anos, o casamento, filho e uma carreira interrompida. Penso no processo de desconstrução de uma musicista. Será que ela dedilhava entre uma troca de fralda e outra? Me conforta imaginar que ao menos Maria Anna nunca comeu sucrilhos. Lembrei da lista de compras. Acendo a luz. Risco sucrilhos e acrescento amendoim e paçoca. Ostras talvez? Fleabag olharia para a câmara agora. Apago a luz. Ajusto o relógio para as 05h30 (um banho mais curto agora) e lembro da palestra de outro dia. O ator cômico disse que o nariz vermelho é sempre uma autorização. Uma autorização para o lugar da rebeldia, do anárquico, do fracasso, do desajuste. Para novos personagens. Um nariz vermelho amanhã cairia bem. Eu poderia dormir um pouco mais e não secaria o cabelo. Acho que o processo de construção começa por aí e também por um sapato grande e confortável. Ou seria melhor, desconstrução? Roupas (in)adequadas. Risos soltos e aquela marginalidade estrangeira que Christian Dunker lindamente nos conta no livro sobre a escuta: Tornar-se palhaço é encontrar esse lugar de estrangeiro no interior de uma situação familiar. Mas é também tornar-se conhecido dentro do estrangeiro. O estrangeiro que habita em cada um de nós. Meia noite dando as caras e eu sigo no picadeiro dos devaneios e no cultivo das olheiras. Tudo bem. Já entendi que elas são absolutamente fundantes da existência de todo o ser que deseja romper o cíclico “dia da marmota” em verbos no infinitivo: dormir, acordar, fazer, levar, comprar, terminar, escrever, pagar, suar, não engordar. A verdade é que gosto de pensar que minhas notas são o meu exercício noturno de sororidade. Uma espécie de ação hamster que toda noite revisita a roda da história gerando um contingente bom de energia, afeto e empatia por aquelas, essas e tantas outras mulheres esquecidas. Apago a luz e faço notas mentais no clichê vermelho: a vida das cigarras é uma advertência. Não como a de Olavo Bilac citando Ortigão, para sua Amélia. O grande autor, descontente com a publicação de um soneto de sua noiva, disse a ela que o primeiro e grande dever de uma mulher honesta é não ser conhecida. Recomendou assim, que ela escrevesse tantos versos quando desejasse, mas somente para seus irmãos, amigas e principalmente para ele. Jamais para a humanidade. As cigarras vivem um bom tanto de sua vida embaixo da terra, algumas até durante 17 anos. Um belo dia de primavera decidem sair e gritar. A ciência irá dizer que esse grito é de acasalamento e feito pelos machos. Já a literatura poderá dizer que é o som da existência. Estamos aqui humanidade. Existimos e não é possível nos ignorar.

Por que as mulheres estão exaustas?

Entrevista com a cronista Ruth Manus

Por que as mulheres estão exaustas?

Por tudo. Por sobrecarga de trabalho, sobrecarga de trabalho doméstico, por pressão social, pressão estética, por medo, por ansiedade, por culpa, por serem mães, por não serem mães, por serem casadas, por não serem casadas e, acima de tudo, por acreditarem que devem ser super-heroínas.

O que espera despertar nas leitoras com este livro?

Reflexão. E algum incômodo. Espero, do fundo do coração, que as mulheres reflitam sobre a injustiça do sistema no qual vivemos. E não estou falando só das leis. Estou falando dos comportamentos, das cobranças, das invasões que fazem à nossa vida privada. Coisas sutis, que nem sempre percebemos, mas que vão, aos poucos, nos tirando do sério.

Muita gente se identifica com você, de várias classes e posicionamentos. E você se posiciona claramente sobre diversas temas, às vezes até polêmicos. Como lida com isso?

É a única forma de deitar minha cabeça no travesseiro com tranquilidade. Tenho que ser coerente com aquilo em que acredito e, acima de tudo, com aquilo que aprendi em casa, com a minha família. Aprendi a ter sede de justiça social, a me revoltar com um sistema injusto e violento e a não me calar — especialmente quando querem o meu silêncio. Não vejo qualquer outra hipótese que não seja a de honrar o que meus pais e irmãos me ensinaram desde criança. Lido com serenidade porque sei que não há, para alguém que pensa como eu, outra opção.

Você coloca muito da sua vida pessoal nas crônicas. Já repensou essa exposição?

Acho que minhas crônicas só fazem algum sucesso porque são extremamente humanas e sinceras. Não há filtros. E acho que é isso o que toca as pessoas. Eu vivo uma vida que, felizmente, não tem nada a ser escondido. Eu só procuro não expor demais as pessoas que me cercam (o que às vezes é uma missão difícil), porque eu fiz essa escolha de vida, elas não. E eu tenho que respeitar.

“Isso é a verdadeira sororidade: respeitar e acolher em vez de julgar. Busco usar minha influência para frisar que somos livres para escolher nossos caminhos”

Ruth Manus

A sua crônica “A estranha geração dos adultos mimados”, publicada no Observador teve mais de dois milhões de leitores e 300 mil compartilhamentos. Ou seja, você conversa com as portuguesas, assim como com as brasileiras. Então não somos tão diferentes assim, certo? (risos)

Engraçado, né? Acho que há, de fato, muitas angústias que são generalizadas. Não são de um país ou de outros, mas questões geracionais, que ultrapassam fronteiras. E também ultrapassam o gênero. Esse texto, por exemplo, abarca homens e mulheres de nacionalidades diversas. No fundo, acho que, antes de qualquer coisa, somos todos humanos, vivendo os mesmos tempos.

Você é uma voz poderosa, em especial a temas que envolvem as mulheres, como o feminismo. Como usa essa influência?

Tento usar com muita responsabilidade e senso de humanidade. Penso no que vou dizer, leio antes de falar, ouço opiniões diferentes da minha. E, acima de tudo, bato muito na tecla da liberdade. O feminismo quer mulheres livres para serem o que quiserem. Todas decisões são respeitadas e bem-vindas, desde que tomadas livremente pela mulher. Temos que respeitar as decisões umas das outras, mesmo que sejam diferentes das nossas. Isso é a verdadeira sororidade: respeitar e acolher em vez de julgar. Busco usar minha influência para, cada vez mais, frisar que somos livres para escolher nossos caminhos, sejam eles quais forem.

Em 2017, você comentou em entrevista que seu público é majoritariamente feminino, mas tinha vontade de criar um produto que homens pudessem ler. Como vê isso hoje?

Esse livro é o quinto que escrevo e o primeiro que é mais direcionado ao público feminino. Mas fiz questão de, na contracapa, ter a frase de recomendação de um homem, o Zack Magiezi, que é um grande amigo. Quis isso exatamente para reforçar a importância da leitura também dos homens, uma vez que essa luta, sem eles, é ainda mais difícil. Por isso, amigos homens, vocês estão todos convidados para embarcar nessa leitura (e nessa jornada) conosco.

> Confira o guia “3 documentários inspiradores para entender as dimensões da sororidade, complemento desta reportagem.

Gostou? Compartilhe com as mulheres que você considera importantes em seu círculo.

Faça parte desse movimento e acompanhe mais conteúdos dedicado ao universo feminino em nossa editoria especial: Mulher, Solte sua Voz!

© 2020 Grupo Ric Todos os direitos reservados

Informamos aos nossos visitantes que nosso site utiliza cookies. Ao usar nosso site, você concorda com nossos Termos de Uso. A maioria dos navegadores aceita cookies automaticamente. Para ver quais cookies utilizamos, acesse nossa Política de Privacidade.