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Diretor financeiro do Corinthians revela valor da folha e explica como foi possível investir em grandes reforços

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Gazeta Esportiva

28 de agosto de 2021 - 07:30 - Atualizado em 28 de agosto de 2021 - 07:45

O Corinthians fechou 2019 com um déficit R$ 195,4 milhões. O resultado do ano seguinte também foi negativo, em R$ 123,3 milhões. De 2018 a 2020, a dívida do clube saltou de R$ 469 milhões para R$ 956,9 milhões, sem contar a dívida relacionada à Neo Química Arena com a Caixa, que ficará em torno de R$ 269 milhões, já com o abatimento dos R$ 300 milhões oriundos da venda do nome do estádio.

Em suma, esse era o cenário do clube em janeiro de 2021, quando Duilio Monteiro Alves assumiu a presidência sob o discurso de que implementaria uma política de austeridade financeira até o fim do seu mandato, agendado para dezembro de 2023.

Os primeiros balanços divulgados pela gestão apresentaram bons resultados, mas também mostraram que o caminho para colocar ‘a casa em ordem’ será longo. Por isso, não se imaginava um Corinthians com força no mercado para contratar grandes jogadores ainda nesta temporada.

Mas, entre julho e agosto, o Timão contratou Giuliano, Renato Augusto e Roger Guedes, três atletas de alto nível e representam investimentos pesados. A crítica e as dúvidas entre torcedores e jornalistas foram imediatas.

Para entender por que o Corinthians tomou a decisão de investir nesse momento, como o clube terá condições de arcar com essas novas despesas e de que maneira o planejamento pode ser afetado, a Gazeta Esportiva buscou explicações com o diretor financeiro Wesley Melo.

“Por diversas vezes informamos à Fiel que chegaria a hora de contratações pontuais para equilibrar nossa equipe de futebol e aumentar nossa competitividade, o que também é importante para o incremento das receitas. E este momento chegou”.

Nesta entrevista exclusiva, Wesley também revelou o valor atualizado da folha salarial do elenco de futebol profissional masculino.

“Com todas as movimentações de atletas, saídas e contratações, a folha deve ficar entre R$ 10 milhões e R$ 11 milhões”.

Formado em ciências contábeis pela Universidade São Judas Tadeu e com MBA em Controladoria pela USP (Universidade de São Paulo), Wesley Melo também é CFO (Chief Financial Officer) da Mediabrands, do grupo IPG, um dos cinco maiores do mundo no ramo de publicidade.

Com essa base de conhecimento e experiência, ele acredita que o Corinthians tem potencial para encerrar o ano com uma receita bruta acima de R$ 500 milhões, uma barreira jamais superada na história corintiana.

“Existe, sim, essa possibilidade pela geração de novas receitas batalhadas pelo nosso departamento de marketing e também pela expectativa de venda de jogadores”.

Dentro de todo o planejamento financeiro comandado por Wesley Melo, separar o futebol profissional do clube social e dos esportes amadores está fora de cogitação.

“O nosso modelo de gestão é para contemplar clube e futebol juntos, nunca separados. O caixa é único para atender a tudo que nossa instituição se propõe a oferecer aos torcedores e sócios”.

Na última quarta-feira, o Corinthians apresentou o balanço financeiro do primeiro semestre de 2021 com um superávit de R$ 394 mil. A dívida total, sem contar a Neo Química Arena, foi reduzida para R$ 977,4 milhões. O departamento de futebol fechou em R$ 33,9 milhões no azul. Em compensação, o clube social e os esportes amadores, juntos, acumularam um déficit de R$ 8,8 milhões, além de R$ 25,5 milhões relacionados a despesas financeiras, que remetem a juros e encargos.

Confira, abaixo, a entrevista exclusiva com Wesley Melo, diretor financeiro do Corinthians, na íntegra:

A política de redução de despesa e aumento de receita é constantemente abordada pelo clube. Mesmo assim, as contratações de jogadores como Renato Augusto, Giuliano e Roger Guedes surpreenderam muita gente. Inclusive, houve muita crítica. Para a gente entender o que está sendo feito: essa postura no mercado já fazia parte dos planos no início do ano?

“Com muita responsabilidade financeira e orçamentária, estamos conseguindo voltar a investir no futebol, depois de praticamente sete meses reduzindo drasticamente os custos – principalmente do futebol, mas também na nossa sede social.

Desde o início da gestão, o presidente Duilio vem manifestando o nosso compromisso em transformar nossa gestão administrativa e financeira. Todas as tomadas de ação têm sido baseadas sempre em nosso ‘planejamento estratégico’ e no nosso orçamento. E por, diversas vezes, informamos à Fiel que chegaria a hora de contratações pontuais para equilibrar nossa equipe de futebol e aumentar nossa competitividade, o que também é importante para o incremento das receitas. E este momento chegou”.

Como o clube se tornou capaz de assumir esses investimentos em reforços tão valorizados?

“O Corinthians tem, sim, uma situação econômica e financeira delicada, com um endividamento expressivo, que estamos atacando com as melhores práticas de gestão e com as ajudas de profissionais internos qualificados, da Falconi e da KPMG, que foram contratadas para dar suporte a todo esse processo.

Contudo, o Corinthians tem um superávit operacional (relação entre receita e despesas antes da incidência do custo financeiro) e capacidade de geração de receitas que nos permitem fazer esse investimento no futebol. E usamos a expressão “investimento”, e não custo, pois confiamos que o time competitivo tem, sim, capacidade de trazer ainda mais receitas.

Para se ter uma ideia, no último Brasileiro, o Corinthians poderia ter alcançado R$ 7 milhões a mais caso tivesse terminado em oitavo lugar. Então esse investimento significa premiações maiores, classificação para competições internacionais e ampliação de receitas, que ocorrem quando seus jogos passam mais na TV aberta do que no Pay-Per-View, obtenção de novos patrocínios.

Esperamos também o retorno do público na Arena e, com isso, maior procura pelo Programa Fiel Torcedor. Tudo isso também gera novas oportunidades de marketing, que foram estruturadas para potencializar e muito as receitas geradas com essas contratações”.

O Corinthians ainda se depara com dificuldades com o fluxo de caixa. Por que, então, o clube entende que já é o momento para investir em reforços renomados? O ideal não seria aguardar um pouco mais e resolver pendências mais urgentes?

“Desde 4 de janeiro, início da gestão, o nosso discurso é o mesmo. Sempre falamos que trabalhamos para reduzir significativamente os custos com futebol, mas que, em determinado momento, faríamos algumas contratações pontuais para equilibrar nosso elenco. Mesmo com essas novas contratações, o custo mensal do futebol ainda ficará bem abaixo do que estava em dezembro de 2020. E as saídas de alguns outros jogadores por empréstimo, venda ou encerramento de contrato, também devem acontecer ainda até o final do ano. Ou seja, haverá nova redução de despesas.

Entendemos que este era o momento ideal para investir em nossa equipe, não só por todo o trabalho de gestão que estamos fazendo, mas também pelas oportunidades de mercado que surgiram”.

O ex-presidente Andrés Sanchez revelou que a folha salarial do elenco corintiano fechou em 2020 na casa dos R$ 14 milhões. Com todas as negociações feitas nesses meses de 2021, quanto o clube conseguiu reduzir desse valor? E qual será o valor da folha com a inclusão de Renato Augusto, Giuliano e Roger Guedes?

“Com todas as movimentações de atletas, saídas e contratações, a folha deve ficar entre R$ 10 milhões e R$ 11 milhões, o que se encaixa no nível de competitividade que o futebol brasileiro exige. A austeridade existe para deixar o investimento mais eficiente e o time, mais competitivo”.

Em março, durante entrevista coletiva, você disse que o futebol não poderia ser visto apenas como despesa, mas também como investimento, devido às receitas que um time qualificado pode dar ao clube. Com esse ‘novo time’, diante das eliminações precoces nos torneios de mata-mata, pensando no lado financeiro, qual deve ser o objetivo mínimo do Corinthians no Campeonato Brasileiro?

“Sim, tratamos como investimento. E subiu ao máximo a responsabilidade de assertividade de nossas contratações. Não tenho procuração para falar do futebol, mas financeiramente, um bom desempenho esportivo em 2021 projeta melhores receitas variáveis, vinculadas à posição no Brasileiro, e mais direitos de transmissão num torneio internacional importante como a Libertadores. É preciso lembrar também que a gente já projeta o retorno do público para o final deste ano, o que deve alavancar a procura pelo programa Fiel Torcedor, que foi uma das principais receitas que o clube perdeu durante a pandemia”.

O balanço financeiro semestral apresentou um pequeno superávit, mas uma melhora grande em relação a 2020. Quais atos concretos foram cruciais para isso? E o que mais o clube espera realizar para conseguir resultados financeiros ainda melhores?

“São diversas ações que correm em paralelo. O mais importante de tudo com certeza é uma mudança de mentalidade de gestão financeira do nosso clube que tem sido muito bem absorvida e executada. Hoje, cada um dos nossos diretores conhece seus custos e receitas e as acompanha de perto, e mensalmente a diretoria reavalia se o orçamento está sendo cumprido à risca.

A devida compreensão do atual momento financeiro que o clube vive orienta a responsabilidade nas tomadas de decisão. Nesse resultado do primeiro semestre, que foi muito importante por demonstrar principalmente uma nova tendência de resultados financeiros positivos, o que mais se destaca são: a corajosa e expressiva redução de custo no futebol; as novas receitas trazidas pela equipe de marketing; e as reduções de custos administrativos e operacionais no clube.

Ainda temos uma jornada longa pela frente, mas estamos muito animados com resultados que ainda podem vir com geração de novas receitas, especialmente com os ativos digitais, com melhora de eficiência apurada com a ajuda da Falconi e com captações de novos recursos e renegociações de dívidas com a ajuda da KPMG e do nosso departamento jurídico”.

Hoje, o que preocupa mais: a dívida de curto-prazo, de cerca de R$ 588 milhões, ou a dívida total, que se aproxima de R$ 1 bilhão? Qual o plano para esses dois desafios?

“Ambas são relevantes. A dívida de curto prazo exige um trabalho absurdo para lidarmos no dia-a-dia com nossas obrigações. Já a dívida total gera despesas de juros e multas, que nos sufocam. Tudo precisa ser atacado com a mesma urgência e com planejamento integrado.

Como eu disse anteriormente, são várias ações para reverter esta situação. Ações para baixar custos e trazer novas receitas. E, talvez o mais importante, que sejam ações todas alinhadas com nosso Planejamento Estratégico de três anos”.

Apesar do futebol fechar no azul, o clube social e os esportes amadores continuam dando prejuízo ao Corinthians…

“No primeiro semestre eles geraram um déficit operacional de R$ 8,8 milhões. Cada esporte e departamento do clube hoje tem uma gestão de custos muito responsável, baseada no orçamento, sob responsabilidade de cada diretor, e há também uma integração maior com o departamento de marketing para geração de receitas específicas para cada modalidade. O plano é continuar com essa disciplina financeira e a busca contínua pela geração de novas receitas para buscarmos um equilíbrio melhor”.

Que consequências seriam causadas se o clube deixasse de usar o dinheiro do futebol para cobrir esta área? Isso é cogitado?

“Sua pergunta é importante, porque há algumas críticas frequentes ao clube social, como se o futebol fosse plenamente independente dele. O clube social não prejudica o futebol, ao contrário: existe todo um custo operacional dentro do clube social que presta serviço ao futebol. Os departamentos jurídico, de marketing, financeiro, TI (Tecnologia da Informação), todos eles são parte dos custos do clube social, mas obviamente eles são fundamentais para as operações do futebol.

O investimento em conteúdos, tanto de pessoal quanto de equipamento e desenvolvimento de plataformas digitais, absolutamente necessárias hoje, traz resultados para o futebol profissional, o de base e o feminino. E há relações ainda mais diretas: nosso departamento de esportes terrestres tem toda uma história de revelação de atletas mirins de futsal que migram para o gramado. A gente pode falar de Fagner e Roni como exemplos. E nós temos o ginásio Wlamir Marques, um dos melhores poliesportivos do país.

Por que reduzir as oportunidades de uso e aproveitamento dele a apenas um esporte? Então é preciso ter cuidado com essa crítica que vê o clube social como prejudicial ao futebol. Ainda assim, nossa estratégia é mitigar os custos do clube com receitas específicas. O nosso modelo de gestão é para contemplar clube e futebol juntos, nunca separados. O caixa é único para atender a tudo que nossa instituição se propõe a oferecer aos torcedores e sócios”.

Deixar de disputar ligas de elite em alguns esportes pode se tornar um caminho inevitável?

“Não é nosso objetivo. O objetivo é tornar cada esporte autossustentável financeiramente, de modo que essa participação se transforme, em médio prazo, numa fonte preciosa de receita para o clube como um todo”.

Qual é a atual situação das pendências com as folhas salariais do futebol profissional e da base?

“Tivemos alguns atrasos, mas, hoje, os salários estão todos em dia. Acertamos essa semana algumas pendências com a base e acertaremos o restante até o final do mês”.

Existe a possibilidade do Corinthians superar, pela primeira vez, o valor de R$ 500 milhões com receita bruta anual?

“Sim. Não estamos refletindo isto no nosso orçamento ainda, mas existe, sim, essa possibilidade pela geração de novas receitas batalhadas pelo nosso departamento de marketing e também pela expectativa de venda de jogadores”.

Qual é o tamanho, em valores, do impacto da ausência de torcedores na Neo Química Arena?

“A receita anual com bilheteria poderia ficar entre R$ 60 milhões e R$ 70 milhões, se não tivéssemos a pandemia. É importante dizer que a Arena ainda gera outras receitas – camarotes, cadeiras, eventos, locações de espaços – que ficaram ou ainda estão suspensas durante esse período difícil da pandemia, além, é claro, de refletir no nosso programa de Fiel Torcedor.

Por outro lado, há o custo de estrutura operacional que tem que ser mantido – seguros, manutenção, energia etc – independentemente da existência de receitas, o que gera uma “perda dupla” nesse momento”.

Will Dantas, empresário de Pedrinho, revelou que fez um novo acordo com o Corinthians sobre a parte que o clube deve a ele pela venda do jogador. Quando o Corinthians espera ter condição de honrar com a primeira parcela?

“Já pagamos parcialmente em 2021. Em 2022, como acordado, pagaremos o restante”.

*Nota da redação: O Corinthians tem de pagar R$ 33 milhões ao empresário, que aceitou o parcelamento em três vezes. O clube não cumpriu com o combinado e Will Dantas fez um novo acordo verbal para tentar evitar ir à Justiça.

Neste caminho que o Corinthians tem trilhado desde o início da gestão Duilio Monteiro Alves, como você imagina o clube em dezembro de 2023, ao fim do mandato, na área financeira?

“Esperamos encerrar o mandato com um equilíbrio bem melhor entre o nosso endividamento e a nossa geração de caixa. Nenhum clube do Brasil, mesmo os mais equilibrados economicamente, zeraram a dívida: a intenção é torná-la administrável em seus prazos, aumentando receitas e permitindo a realização de mais investimentos. Com custos sob controle, mapeamento de fontes de receita e, mais importante, com uma consolidação de mentalidade da importância de melhores práticas de gestão administrativa e financeira, a tendência é que isso se reflita no campo”.