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Paranaense campeão da Champions relembra título histórico e arrisca palpite para a grande final

Nascido em Londrina, Élber foi um dos destaques do Bayern de Munique na campanha de 2001

Guilherme
Guilherme Fortunato / Produtor
Paranaense campeão da Champions relembra título histórico e arrisca palpite para a grande final

22 de maio de 2022 - 09:00

Vencedor de 13 títulos e terceiro estrangeiro com maior número de gols no Campeonato Alemão pelo Bayern de Munique, o londrinense Élber Giovane de Souza, o Élber, foi foi um dos grandes destaques da vitoriosa campanha do time alemão na Liga dos Campeões da UEFA, em 2001.

Em entrevista exclusiva para o RIC Mais, Élber relembrou a trajetória do Bayern até a decisão contra o Valencia da Espanha, em Milão, na Itália. Os bávaros estavam há 25 anos sem vencer a Liga dos Campeões e vinham de uma derrota histórica para o Manchester United da Inglaterra (1999), dois anos antes.    

Élber foi recebido pelos torcedores em seu retorno ao Estádio Olímpico de Munique com o Olympique Lyon. (Foto: Site Oficial do Bayern)

“Eu estava machucado naquela final contra o Manchester United. Faltavam dois minutos para acabar o jogo, quando o presidente da UEFA nos convidou para descer e receber a taça. Quando chegamos no gramado já estava 2 a 1 para eles. Depois daquela decisão, nós trabalhamos bastante e nos unimos para vencermos em 2001”, relembra o atacante. 

A campanha daquela edição da Champions League foi bem complicada. Foram duas fases de grupo, onde o Bayern de Munique liderou ambas. No caminho, adversários como os franceses Paris Saint-Germain e Lyon, além do tradicional Arsenal da Inglaterra foram deixados para trás pelos bávaros. 

“Nosso time não era o favorito. Tinha o Real Madrid, que começava a era ‘galáctica ́, o United também tinha um timaço. Com nossa filosofia alemã de futebol e muito profissionalismo, conseguimos chegar até as finais de novo”, conta. 

De acordo com Élber, a união dos jogadores e a gestão do técnico Ottmar Hitzfeld foram fundamentais para o time suportar a pressão e o excesso de jogos da temporada. 

“O treinador era muito gente boa! Tratava todos como iguais, até mesmo quando tinha que cobrar jogadores como Oliver Kahn. Ele começou com a rotação dos jogadores. Eu não queria ficar de fora não, mas tinha que aceitar, né?”, brinca o londrinense.

Reencontro com o rival 

Na primeira frase de mata-mata em 2001, o destino reservou um acerto de contas entre o Bayern de Munique e Manchester United, algoz dos alemães na final de 1999.

“A culpa não foi deles terem nos tirado o título. Foram erros nossos que nos custaram aquela taça. Tivemos chances para marcar gols e não fizemos. Nós sabíamos que tínhamos condições de vencê-los dessa vez. Bastava jogar o futebol que nós estávamos acostumados”, revela.  

O primeiro jogo foi em Old Trafford, casa do United. Para Élber aquele jogo foi especial para ele. Os alemães venceram por 1 a 0, dentro do ´Teatro dos Sonhos´, com gol de outro brasileiro do elenco, Paulo Sérgio. 

“É o sonho de todo jogador poder jogar lá em Old Trafford. A torcida deles é apaixonada! Chega a arrepiar só de ver eles cantando para o time” 

O jogo de volta, em Munique, também foi vencido pelo Bayern por 2 a 1, com um gol de Élber e vaga garantida para as semifinais. 

Entre as quartas de final contra o United e a semifinal diante do Real Madrid, Giovane Élber passou por uma cirurgia no joelho que quase o tirou do confronto com os espanhóis e precisou insistir para o técnico Ottmar Hitzfeld colocá-lo no jogo, onde acabou sendo decisivo para a classificação bávara até a final. 

“Eu senti uma dor antes do confronto em casa contra o Manchester. Depois do jogo eu fui para Berlim e me falaram que teria que passar por uma cirurgia. Logo após a operação, já comecei a recuperação, pois faltavam 10 dias para o jogo contra o Madrid. No vestiário do Santiago Bernabéu eu estava com os pontos no joelho e pedi para o médico tirar para eu jogar”, lembra o artilheiro. 

De fora da final de 1999, Élber conta que a motivação para jogar, mesmo sem aval do médico, era chegar a outra decisão  O brasileiro elegeu os espanhóis como o adversário mais difícil que enfrentou com a camisa bávara. 

“Nós nos encontramos muitas vezes naquele período, inclusive na edição anterior, quando eles nos tiraram na semifinal. O ambiente do Bernabéu é diferente. Até o vestiário deles é perfumado! (Risos). É o tipo de jogo que não dá ficar fora”

A teimosia deu certo! 

Giovane Élber convenceu os médicos e o técnico de que estava pronto para enfrentar o Madrid. Aquela foi a eliminatória dele. Marcou gol nos dois jogos diante do Real. O Bayern venceu os dois jogos, 1 a 0 no Santiago Bernabéu e no estádio Olímpico de Munique por 2 a 1 e levou seu time a mais uma decisão de Liga dos Campeões. 

“Quando marquei o gol na Espanha, comemorei beijando meu joelho e brinquei com médicos, dizendo que estava realmente pronto para jogar”, brinca 

Segundo Élber, durante sua trajetória ele sempre gostou de enfrentar times espanhóis. “Deixava nosso time jogar”, revela. 

Giovane Élber beija o joelho após marcar contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu
(Foto: reprodução / site oficial do Bayern)

Título dramático na Alemanha

Quis o destino que adversário da final da Champions League fosse o Valencia, outro time espanhol. Mas antes de encarar a decisão de Milão, o Bayern de Munique enfrentou naquele ano uma das mais apertadas edições da Bundesliga, como é conhecido o Campeonato Alemão. 

O título foi decidido na última rodada. Os bávaros empatavam sem gols com o Hamburgo, fora de casa. Enquanto isso, o Shalke 04, concorrente ao título daquele ano, vencia seu jogo diante do Unterhaching por 5 a 3. Os resultados deixavam o time de Munique com a taça, mas aos 45 minutos do segundo tempo, o Hamburgo abriu o placar. 

“Eu fui substituído quando ainda estava zero a zero. Quando o Hamburgo fez o gol, eu não acreditei. Não era possível que perderíamos outro título nos acréscimos” descreve

A emoção não parou por aí. Aos 49 minutos do segundo tempo, o árbitro deu um recuo intencional do zagueiro do Hamburgo e marcou um tiro livre indireto para o Bayern. O artilheiro daquela geração lembra da escolha do batedor, onde até o goleiro Oliver Kahn foi para área tentar marcar o gol. 

“O Kahn foi correndo para área. O pessoal do time empurrou ele e diziam ‘sai daqui que você vai acabar fazendo falta`. Aí o Andersson, que eu nunca vi cobrar falta, acertou aquele belo chute e conseguimos empatar e ficar com o título”

Élber terminou o Campeonato Alemão com 15 gols, sendo o principal artilheiro do torneio em 2001. Foi o terceiro título consecutivo do Bayern, que chegava com moral na decisão da Liga dos Campeões. 

Drama e goleiro herói 

Oliver Kahn (esquerda) celebra com Élber (Centro) e Ballack (direita).
(Foto: Bayern de Munique)

O estádio San Siro, em Milão, estava lotado com 79 mil pessoas no dia 23 de maio de 20001 para a final da Liga dos Campeões da Uefa entre Valencia e Bayern de Munique. Apesar de já ter assegurado o título alemão na temporada, a pressão pelo quarto título da Champions League e a quebra do jejum de 25 anos desde a última taça era enorme para os jogadores. 

“O pensamento no vestiário era de foco total. Já tínhamos garantido o título nacional, só falta o último objetivo. Nós trabalhamos muito para chegar naquela final”

Assim como toda a temporada, a final também teve tom dramático. A tensão tomava conta dos dois lados, já que o Valencia havia perdido a decisão do ano anterior para o Real Madrid, por 3 a 0. 

“O time deles era muito bom e bem montado. Eles tinham perdido no ano anterior e conseguiram chegar a outra final, que não é fácil quando se fala da Copa dos Campeões”, recorda. 

Apesar da mentalidade forte que é característica do futebol alemão, o Bayern precisou de resiliência para vencer os espanhóis, que abriram o placar logo aos três minutos de jogo, com Mendieta cobrando pênalti. O drama alemão só aumentou quando Scholl perdeu a chance do empate para o Bayern, desperdiçando o pênalti, que foi defendido pelo goleiro Cañizares do Valencia. 

“No intervalo, apesar do resultado adverso, o sentimento era de confiança. Nós acreditamos o tempo todo, nem que fosse um empate, mas não sairíamos derrotados”

No segundo tempo, logo aos cinco minutos, a sorte dos alemães mudava. O árbitro marcou outro pênalti para o Bayern, depois que Carboni colocou a mão na bola dentro da área. Effenberg cobrou e empatou o jogo. Depois do gol, a confiança bávara cresceu e o time seguiu pressionando o Valencia até o final do tempo normal e por toda prorrogação. A decisão então ficou para os pênaltis.   

“O Paulo Sérgio mandou a bola lá na catedral de Milão (risos). Isso porque ele entrou só para bater um pênalti. Foi estranho, pois o Paulo era muito seguro na cobrança. Depois tivemos a sorte do Kahn estar num dia inspirado”, brinca

Paulo Sérgio (centro) e Giovane Élber (esquerda) comemoram título da Liga dos Campeões da UEFA (Foto: Bayern de Munique)

Nas cobranças seguintes, os batedores converteram suas cobranças, até que Oliver Kahn defendeu a cobrança de Zahovic. Na batida seguinte, o zagueiro Andersson desperdiçou a cobrança, aumentando o drama alemão. Mas o alívio veio em seguida. Carboni chutou na trave e Effenberg marcou e levou a cobrança para as alternadas. 

Lizarazu (Bayern) e Kily González (Valencia) converteram suas cobranças. Até que Pellegrino chutou para defesa do goleiro Kahn e enfim acabou com a angústia bávara. Era o quarto título do Bayern de Munique da Champions League.   

“Nós ficamos tão felizes, que até esquecemos dos pênaltis errados. Foi só festa, nem lembramos de brincar com o Paulo”, comenta. 

Para Élber, a grande lição daquele título foi de “nunca desanimar”. Para o atacante, a experiência vivida no futebol serviu para toda vida. 

“Dentro do campo você sabe que o jogo dura 90 minutos. O importante é acreditar até o final. Se o adversário foi melhor e mereceu, tudo bem. O time só não pode desanimar e desistir antes do apito final”

Para a final da Liga dos Campeões de 2022, entre Liverpool e Real Madrid, o londrinense acredita que a mentalidade e a camisa do Madrid farão a diferença na decisão. 

“As coisas para o Real Madrid estão dando muito certo. Eu mesmo pensei que eles não chegariam, mas chegaram. Quando chega no momento decisivo, eles viram a chave, se transformando em gigantes”, aposta. 

Autor de 193 gols e 57 assistências com a camisa do Bayern de Munique, Élber está atrás apenas de Robert Lewandowski e Cláudio Pizarro, na lista dos maiores artilheiros estrangeiros do clube. O brasileiro não ficou em cima do muro e deu sua opinião sobre quem escolheria como centroavante do Bayern se fosse o técnico do time. 

“Ah, o Lewa é o cara. São tempos diferentes, mas ele é muito profissional e a cada ano marca mais gols. Como eu além de marcar gols dava muitas assistências, acho que nós dois formaríamos uma bela dupla de ataque”, finaliza. 

Lewandowski é o principal jogador do clube nos últimos anos
(Foto: Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images)

Final de 2022

A final da Champions League de 2022 será em Paris, na França, no sábado (28), entre Real Madrid e Liverpool. Os espanhóis buscam seu 14º título da principal competição de clube do mundo. Já os ingleses, conquistaram seis vezes da Liga dos Campeões e tentam o heptacampeonato na capital francesa.