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Matheus Pereira não se arrepende de cavadinha no Corinthians, e agora mira chance no Barça

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Gazeta Esportiva

24 de dezembro de 2020 - 09:00 - Atualizado em 25 de dezembro de 2020 - 00:00

Negociado por quase R$ 10 milhões com apenas 18 anos de idade, passagens por sete clubes, experiência na Europa, oportunidades em times gigantes, chegou a formar dupla com Cristiano Ronaldo, às vezes treina com Messi e é autor de uma polêmica cavadinha.

Talvez, você esteja imaginando um jogador consagrado, já em fim de carreira, sem muito mais o que ambicionar no futebol. Profundo engano.

Esse é um breve currículo de Matheus Pereira, meio-campista de apenas 22 anos que foi formado e revelado pelo Corinthians e atualmente integra o elenco do Barcelona B.

Aliás, os europeus podem até não saber – e ele não faz questão de contar -, mas por aqui ele era conhecido como “Pirulão”.

“Surgiu de uma treinadora que eu tive no futsal, no Juventus da Mooca. Ela me viu daquele tamanho e, na época, tinha o Alex Silva, que chamavam de Pirulito. Ela falou: ‘vou te chamar de Pirulão’. Na época, fiquei puto. Aí já viu, né? Quando você fica puto é que o apelido pega (risos)”.

Por videoconferência, Matheus atendeu a reportagem da Gazeta Esportiva durante uma destas tardes em que não se tem muito o que fazer na Espanha, a não ser cultivar o namoro que já dura sete anos.

“Aqui, moro só com a minha mulher. Fora de campo está sendo bem diferente para mim por causa dessa pandemia. A gente não pode sair. Às 15 horas, os comércios todos fechados. Se quiser sair, tem de ser pela manhã, mas de manhã estou treinando, normalmente”.

A situação atípica também fez com que o contato com Lionel Messi não seja mais o mesmo.

“Ano passado fiz bastante treinos com o time principal. Agora, tem sido mais difícil, por causa da pandemia. A parte médica está com receio de misturar todo mundo e, de repente, ter de colocar muitos jogadores em quarentena”.

O foco, no entanto, segue intacto. Jogar a terceira divisão espanhola pode até parecer frustrante para quem saiu do Timão para assinar com a Juventus-ITA. Mas, o brasileiro encara de outra maneira.

“Minha adaptação tem sido bem fácil. Desde quando cheguei, todos têm procurado me ajudar para eu entender o clube. E, para mim, estar aqui é muito importante, um sonho que estou realizando. Espero conquistar grandes coisas, dar sequência, chegar ao primeiro time”.

Tempo para isso Matheus terá, afinal, o vínculo com o time da Catalunha vai até janeiro de 2024.

“Voltar para o Brasil com essa experiência não seria má ideia, mas não penso em voltar agora. Não fecho as portas, mas aqui estou evoluindo muito, taticamente, ofensivamente, mentalmente. Acho que meu foco é continuar pela Europa. Estou tendo uma sequência boa”.

Os dias com CR7

Se o objetivo no momento é chamar atenção da comissão técnica da equipe principal do Barça para ser promovido e ter a chance de jogar com Messi, Matheus Pereira conseguiu, em menos tempo, entrar em campo pela Juventus, em um clássico com a Internazionale. Foram poucos minutos, e um ‘quase gol’ que teria assistência de Cristiano Ronaldo.

“Foi a minha estreia. Se eu faço aquele gol… Na hora que ele cruzou, vi a bola chegando e já pensei no gol, mas o zagueiro acabou bloqueando. Aquela seria para colocar no DVD (risos)”.

Não só naquela partida, o português encantou a “Pereira”, nome reconhecido pelos italianos.

“Todo mundo fala, mas vi de perto para acreditar o quanto ele trabalha, o quanto ele se dedica. Depois de tudo que ele ganhou, continuar com essa vontade que ele tem é impressionante. É o que mais me marcou”.

Craques lá e craques aqui

Antes de desembarcar em solo estrangeiro, Matheus Pereira também viveu momentos que, certamente, devem causar inveja a muitos garotos que sonham em crescer no futebol.

“No Corinthians, teve uma pré-temporada que viajamos para os Estados Unidos (2015). E teve um dia que eu acabei ficando na mesa com Renato Augusto, Fábio Santos, Petros, Gil, Cássio… Eu só ficava escutando, não fala nada. Ia falar o quê? (risos) Uma hora, o Renato parou, olhou e falou assim: ‘Cara, sei como é isso. Na sua idade eu também só ficava ouvindo’ (risos)”.

O Pirulão, nessa época, tinha apenas 17 anos. No clube alvinegro, a expectativa era grande em cima do que ele poderia render em campo. A idade sequer foi desculpa para Tite apostar no meia em um duelo de oitavas de final, contra o Santos, em Itaquera, com prejuízo no placar agregado.

“Pra ser sincero, eu não esperava. Lembro que fizemos o primeiro jogo na Vila e o Jadson tomou cartão. Durante a semana, o Tite fez a reunião e falou que eu ia jogar. Aquela semana já mudou tudo, a alegria lá em cima, eu saí falando para a família toda, foi uma semana que me deixou muito feliz. Me preparei muito”.

No segundo tempo, Tite trocou Matheus por Romero, e o Corinthians, então líder de um Campeonato Brasileiro que viria a conquistar com exuberância, acabou eliminado da Copa do Brasil.

“Acho que para um primeiro jogo, um clássico, uma decisão, acho que eu fui bem”.

Matheus Pereira é muito grato ao convívio que teve com jogadores renomados, cita aprendizados e usa justamente o fato de ter participado de esquadrões memoráveis para manter a calma sobre a própria carreira.

“É difícil jogar assim. O Corinthians tinha Renato, Jadson, Danilo, Elias… Na Juventus, era Khedira, Dybala, Cristiano Ronaldo… Olha o time do Barcelona também. Não é simples o técnico colocar para jogar”.

Matheus Pereira também já defendeu Empoli-ITA, Bordeaux-FRA, Paraná Clube e Dijon-FRA. A ausência de sequência e a rodagem, explica ele, não foram planejados.

“As coisas foram acontecendo naturalmente. Não adianta forçar. Tenho trabalhado bastante, já joguei no futebol italiano, taticamente aprendi muito, já joguei no espanhol, que tecnicamente é muito bom… Na hora que for para realmente dar um passo maior, quero estar preparado, não quero pular etapas”.

A cavadinha da discórdia

Talvez, o salto precipitado tenha sido arriscar uma cavadinha logo no início da carreira, em uma final de Copa São Paulo de Futebol Júnior, com o Pacaembu lotado e toda a cúpula corintiana de olho.

“Não mudaria a batida, não. Só bateria menos forte, mas não mudaria meu jeito de bater. Se eu faço o gol, era capaz de estar até hoje lá”.

A resposta expõe a personalidade forte de Matheus Pereira, que ‘desceu’ para jogar a Copinha de 2016, liderou o Corinthians com a camisa 10, marcou gol na decisão, mas acabou ficando marcado pelo erro diante da marca da cal.

“Na hora que saiu a lista, eu cheguei a comentar com o Del’Amore (ex-zagueiro do Corinthians) que eu ia cavar. Eu estava confiante, achei que ia acertar, só que peguei mais forte, muito embaixo da bola, e errei”.

“Aceito as críticas, as consequências, tive a personalidade de bater daquele jeito, mas as pessoas esquecem que não acabou depois que eu bati. Mais jogadores erraram. Fiquei marcado porque cavei, claro que fiquei muito triste, mas agora levo na boa”.

A despedida do clube aconteceu na metade daquele ano. O caminho, porém, já estava desenhado há tempos.

“Quando joguei a Copinha, tudo estava se encaminhando para eu assinar com a Juventus, eles já tinham demonstrado interesse, quando fiz 18 (em fevereiro), recebi a proposta. Eu não pensei duas vezes”.

Matheus não acredita que a famosa cavadinha tenha acelerado sua saída.

“Acho que não atrapalhou, fiz minha base toda no Corinthians, conquistei muitos títulos. Um lance não apagaria tudo que eu fiz pelo clube. Recebi a proposta e não tinha como recusar”.

Ligado no Timão

Do atual elenco do Corinthians, Matheus Pereira ainda mantém contato com Léo Santos, seu contemporâneo. E, pela TV, ele segue próximo ao clube. Na véspera desta entrevista à Gazeta Esportiva, a equipe de Vagner Mancini havia superado o Goiás, em Itaquera.

“Eu estava assistindo. Fiquei feliz, porque ganhou. Perdeu alguns gols, mas o importante é que fez também (risos)”.

Com as lições da vida absorvidas, Matheus Pereira se mantém focado, sem perder o bom-humor, em busca de um futuro promissor no futebol. A montanha-russa da ainda curta carreira pode enganar a quem está distante, mas são apenas 22 anos de idade e uma esperança concentrada em alcançar o patamar que tantos outros craques vislumbraram para o canhoto meio-campista quando ao seu lado estiveram.

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