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Coronavírus: medidas para tornar as academias mais seguras

Neste artigo Ricardo Martins de Souza, dr. em educação física, proprietário da empresa da BRIEF Effort Club consultoria científica no setor fitness e sócio do Marble Pro Studio analisa as medidas de segurança contra a COVID-19 na reabertura das academias 

Nina
Nina Machado / Comando News
Coronavírus: medidas para tornar as academias mais seguras

23 de julho de 2020 - 17:32 - Atualizado em 23 de julho de 2020 - 17:52

Ao longo da pandemia do novo coronavírus um dos setores mais afetados foi o de fitness, em especial as academias. Como a COVID-19 é transmitida por um vírus que ataca o sistema respiratório, sua proliferação está diretamente ligada ao ato de respirar. E não existe lugar onde isso seja feito com maior volume e intensidade do que em uma academia, que é o local destinado à realização de esforço físico.

A própria OMS destacou que o esforço físico realizado em um local relativamente fechado aumenta a temperatura (pelo maior gasto de energia corporal) e a umidade (pela respiração e suor) do espaço, fazendo dele um ambiente extremamente favorável a contaminação. Para piorar ainda mais a situação das academias, um dos modelos que mais crescia dentro do setor no país era o da “low-cost”. Esse tipo de empreendimento tem como um de seus fundamentos a alta taxa de ocupação por metro quadrado, reduzindo as distâncias e aumentando o risco de contaminação.

Esse risco é tão verdadeiro que diferentes órgãos de saúde ao redor do mundo soltaram notas reforçamento que as academias são locais arriscados. Ainda, de acordo com essas organizaçõe, esse setor deveria ser um dos últimos a voltar a abrir.

As medidas de segurança adotadas pelas academias são eficazes?  

A abertura das academias no modelo atual, mesmo adotando medidas de higienização, não garante em quase nada a segurança de alunos e professores. Para entender o motivo que faz essas medidas de combate ao coronavírus dentro das academias ineficientes é preciso compreender como ele é dissipado. 

O vírus é transmitido entre as pessoas pelo ar, “apoiado” nas pequenas gotículas de água expiradas pelos ciclos respiratórios. Essa água sai de dos pulmões, pois quando o ar entra ele é umectado, ação necessária para conseguir fazer com que o oxigênio seja retirado e colocado dentro do sangue. Essas gotículas podem ficar pairando no ar por alguns segundos ou até algumas horas. Dependendo do fluxo de ar no local, podem ser inspiradas por outras pessoas nesse momento, podem ser depositadas em diferentes superfícies, entrar em contato com a mão de outras pessoas que, se levadas até os olhos ou a boca, podem ser absorvidas pelo organismo e infectar o outro indivíduo.

Algumas medidas adotadas não são úteis

Então, a grande preocupação deveria ser reduzir o tamanho da nuvem de gotículas, coisa que não se vê acontecendo. muito. A única recomendação nesse sentido é a obrigatoriedade do uso de máscaras. Duas medidas pouco úteis adotada pelas academias são os tapetes sanitizantes e a utilização de termômetros laser. 

A própria OMS destacou que a contaminação pelo COVID-19 a partir dos calçados é pouco provável e que os termômetros não são capazes de identificar infectados, apenas detectam que está com a temperatura acima de valores normais. Porém, existem centenas de motivos para a temperatura corporal aumente e, além disso, 80% dos infectados não apresentam nenhum tipo de sintoma e vão passar despercebidos por essa triagem. Existem ainda outros tipos de ações como a utilização de luz ultravioleta e sprays de peróxido de hidrogênio, que na concentração utilizada é inútil e na concentração recomendada para matar o vírus é arriscada.

E quais medidas adotadas são efetivas? 

As três medidas  medidas adotadas pelas academias que são bem efetivas são: o maior distanciamento, o uso de máscaras e a higienização constante das mãos.

A higienização é de longe a medida que traz os melhores. A higienização das mãos evita que uma “mão infectada” entre em contato com a boca e olhos, dois dos três caminhos mais rápidos para a entrada do vírus no organismo, depois da via aérea. O distanciamento usado pelas academias fica entre 1,5m e 2m. Esse distanciamento foi recomendado para ser utilizado em adição ao uso de máscaras e para ações de conversa em repouso, com baixa frequência e profundidade respiratória. 

Claramente não é o caso de uma academia. Esse distanciamento é melhor do que ficar encostado um no outro, mas não garante 100% de segurança, pois o vírus se dispersa pelo ar. 

Apesar da OMS recomendar que não se utilizem máscaras durante o exercício, isso vale apenas para ambientes abertos. Na academia é necessário utilizar sim. Entretanto, as máscaras foram testadas, novamente, em situações em que a respiração é lenta, a umidade dessa respiração baixa e sua frequência pequena. Isso não tem nada a ver com o que acontece na academia.

Desse modo, sua efetividade despenca e não tem como assumir que ela ofereça proteção pelo período de até 2h, conforme é divulgado por vários órgãos.

Existem formas de deixar a academia mais segura?

Existem formas de deixar a academia bem mais segura, mas é necessário adotar medidas que vão de encontro ao modelo de trabalho atual. É preciso sair da zona de conforto e rever todo o negócio, porém nem todos os empresários estão dispostos a isso.  

Opções e boas iniciativas não faltam, a seguir listo algumas que podem ser adotadas para transformar de fato a segurança das academias  

1. Reduzir a quantidade diária de alunos 

Infelizmente essa não tem jeito, menos pessoas precisam passar pelo local diariamente. Quanto maior o fluxo de pessoas, maior a probabilidade de proliferação do vírus. Uma das formas de fazer isso de maneira eficiente é começar a trabalhar com agendamentos de horários. Essa parece ser uma excelente tendência para os próximos anos, pois melhora a eficiência do espaço e aumenta a qualidade dos atendimentos.

2. Obrigatoriedade do uso de máscaras

Apesar de alguns alunos ainda se recusarem a utilizá-las, mesmo sendo menos efetivas que elas poderiam ser durante o esforço físico, elas ajudam. Além disso, não existem riscos. Mesmo que seja desconfortável, não existem quaisquer prejuízos à saúde com sua utilização como também destaca a OMS.

3. Reduzir o tempo de permanência

Permitir permanências de 1h é perigoso. As academias devem limitar o uso em intervalos entre 30 e 45 min, no máximo. A frequência respiratória e a sudorese aumentam proporcionalmente a intensidade e tempo de esforço. Então, limitar o tempo é aumentar a segurança. Além disso, já existem evidências suficientes para sustentar que uma prescrição de 30min de exercícios pode ser perfeitamente eficiente. Cabe aos professores melhorarem a forma com que montam os treinos é realizada e assim fazer com que os alunos aproveitem mais o tempo na sala.

4. Ajuste a prescrição

Existem diferentes formas de prescrever musculação e essas formas impactam diretamente no fluxo da respiração. Séries com maior duração, menor carga e menores intervalos tendem a aumentar a frequência cardíaca e respiratória. Sendo assim, treinos com séries mais curtas, mesmo que pesadas, e maior tempo de intervalo podem ajudar muito na redução do aumento da umidade e calor do ambiente. Além disso, priorize treinos que não sejam máximos. Destaque a importância da manutenção da saúde, não da quebra de um recorde pessoal.

5. Setorizar

A academia precisa ser “dividida” em várias “mini-gyms”. Pequenas academias dentro de uma só. A organização dos equipamentos por grupos musculares deve dar lugar a organização por espaços.

Em cada espaço, devem existir máquinas para vários grupos musculares. Assim, um aluno que entra na academia não fica transitando pela academia toda, ficaria restrito a um espaço determinado. 

Esse novo layout tem dois propósitos: reduzir o contato (já que o aluno do espaço A não terá muito contato com o aluno do espaço B) e ajudar no monitoramento. Se um aluno do espaço A for infectado, você consegue saber quem passou por ali e descobrir quem pode ter sido o infectante e os prováveis infectados.

* a imagem acima é apenas ilustrativa, seria necessário racionalizar o espaço e a prescrição para a escolha dos equipamentos disponíveis em cada setor

6. Equalize os treinos

Já que existiriam setores, seria possível realizar as prescrições de forma que os setores fiquem igualmente ocupados. Sem superlotação em um e baixa ocupação em outro. Além disso, alunos que têm prescrição externa, precisam também atender a essa recomendação, utilizando apenas um setor da academia.

7. Exclua ou minimize o setor de cardio

De longe o setor de cardio é o mais propenso a disseminação do coronavírus e o afastamento de 1,5m a 3m é irrelevante. Uma pessoa conversando normalmente expira de 5L a 7L por minuto. Em um exercício contínuo e moderado, esse valor chega a 50L-60L/min. Isso significa que um aluno no cardio equivale a uns 8-10 alunos na musculação. Bloquear o setor de cardio ou apenas permitir aquecimentos leves limitados a 10 minutos seriam uma opções mais coerentes.

8. Transfira o cardio para ambientes abertos

Feche o setor de cardio e realize atividades com essas características no estacionamento, com maior afastamento e sem a necessidade de máscaras. Segundo a OMS o uso de máscaras em ambientes abertos é desnecessário. Por isso, incentive que os alunos que morem perto da academia venham caminhando ou de bicicleta e usem esse momento para fazer seu aquecimento. Isso é mais seguro e reduz o tempo necessário de treino dentro do espaço fechado.

9. Permita apenas aulas coletivas sem esforço

Um trabalho muito interessante da Coreia do Sul mostrou que mais do que o distanciamento, o esforço nas aulas coletivas parece ser importante. Eles perceberam que aulas de Zumba geraram uma taxa de infecção enorme, mas as de Pilates, nenhuma. Aulas de alongamento, pilates no solo, mobilidade ou qualquer outra atividade de baixa intensidade, com relativo afastamento (2m a 3m), parecem ser seguras.

10. E finalmente, fiscalize

Todas essas medidas só aumentam a segurança da academia se forem propostas e efetivadas. Só estar no papel não adianta de nada. 

ricardo marble pro studio

*por Ricardo Martins de Souza, dr. em Educação Física, atua há mais de 20 anos no mercado. Ministra disciplinas de Fisio. Exercício e Biomecânica para graduação e pós na Ed. Física, Fisioterapia e Nutrição, além de ser proprietário da empresa da BRIEF Effort Club consultoria científica no setor e sócio do Marble Pro Studio