Abonico
Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento

2 de outubro de 2019 - 00:00

Atualizado em 2 de outubro de 2019 - 00:00

Cultura

Weezer faz o melhor show da primeira parte deste Rock in Rio

Cotação: ★★★★½

Existe um par de Weezer no inconsciente coletivo do universo do indie rock. O primeiro é o “clássico”, aquele quarteto festejado e querido que lançou três primeiros álbuns avassaladores entre 1994 e 2001. O segundo é aquela vergonha alheia, uma caricatura de banda que depois do terceiro disco foi perdendo o gás com apenas uma ou outra faixa que prestasse e hoje se tornou aquele dinossauro que teima em, frequentemente, lançar discos de inéditas sem qualquer relevância, levando pau atrás de pau não só dos críticos como principalmente dos fãs que amam até hoje a primeira fase. Só que o público brasileiro nunca foi acostumado a vê-los ao vivo, já que em quase três décadas de carreira o grupo tocou uma única vez no Brasil, como um dos headliners do no Curitiba Pop Festival de 2005.

Por isso provocou expectativa e apreensão o anúncio do Weezer como uma das atrações para este Rock in Rio, trazendo de quebra uma apresentação extra na capital paulista. Afinal, qual seria a banda que viria se apresentar justamente nas duas metrópoles que, mesmo formando o principal eixo cultural do país, ainda não haviam recebido um show da turma comandada pelo guitarrista e vocalista Rivers Cuomo. A incógnita já hvia se dissipado – para o bem – na última quinta-feira em São Paulo. Repetiu-se no sábado, segundo dia do RiR, no conerto feito antes do Foo Fighters subir ao palco Mundo. E mais: coube a Cuomo, Brian Bell (guitarra, teclados e voz), Patrick Wilson (bateria e voz) e Scott Shriner (baixo e voz) entregar à plateia diária de cem mil pessoas aquele que foi o melhor showdo fim de semana inicial desta edição.

Tudo bem que a maioria estava lá para ver o headliner Foo Fighters e muitos sequer tinham nascido quando o Weezer colocou na história o impactante primeiro álbum (homônimo, mais conhecido como Blue Album, lançado em 1994). Isto explica a recepção meia-boca da plateia ao extenso set de 19 músicas. Só que – apenas o público do RiR não deve saber disso – nem só de grandes medalhões do mainstream e repertório cantado em uníssono se faz um grande concerto.  O que conta para o poder de uma performance não é domínio de plateia, muito menos histeria desenfreada e, sim, como aquele artista se comporta no palco e o que o jeito de tocar e o repertório escolhido significam para aquele exato momento. E, bem, o Weezer foi deveras competente, surpreendendo até mesmo aqueles fãs mais céticos que esperavam topar com uma banda fraquejada pelo tempo, sem muito viço ou vigor tal como seus discos mais recentes.

Arranjos power pop, calcado em canções com melodias hipnotizadoras e arranjos básicos, sempre funcionaram direito tanto ao vivo quanto em estúdio. Este é o grande trunfo do Weezer, que ainda trouxe consigo, na bagagem para o Brasil, uma arma ainda mais poderosa: um punhado de covers de canções matadoras, quase todas registradas em um dos dois registros fonográficos lançados neste ano, o Teal Album (o nome verdadeiro é, claro, Weezer mas o apelido vem da cor verde-meio-azulada que aparece no fundo da foto do quarteto). Por isso a equação que somava sete faixas do Blue Album (oito, se for contada a segunda versão a cappellade “Buddy Holly”, guardada para o final) com “Take On Me” (a-ha), “Happy Together” (Turtles), “Africa” (Toto – deliciosamente desafinada o tempo inteiro por Cuomo), “Paranoid” (Black Sabbath – comandada por Bell) e “Lithium”(Nirvana – a única que não está no disco mas que casou perfeitamente com a sede dos fãs que esperavam pelo Foo Fighters) mostrou-se o truque perfeito para fazer um grande show. As releituras bizarras funcionaram muito bem ao vivo, como costura a cada duas ou três canções autorais. Souberam ainda prender a atenção das milhares de pessoas espalhadas pela Cidade Olímpica. Melhor que se fosse tentado enfiar goela abaixo do público faixas desconhecidas (e ruins) dos mais recentes álbuns.

Não bastassem os mísseis chamados “Buddy Holly” (jogado logo na abertura do set list), “Undone – The Sewater Song”, “My Name Is Jonas”, “Surf Wax America” e “Say Isn’t So” (guardado estrategicamente para o gran finale), ainda foram pinçadas de outros álbuns pérolas como “Beverly Hills”, “Hash Pipe”, “Island In The Sun” e “Porks And Beans”. Com exceção dos covers, a música mais nova de um disco autoral do Weezer era de 2008. Dos seis posteriores lançados deste ano para cá, absolutamente nada. Nada de nada. Para a sorte e alegria de quem mantém no seu imaginário particular a imagem imaculada do Weezer em seu início de carreira.

Perfeição nunca esteve entre os grandes objetivos da banda. Isto explica também a atitude “tô nem aí” para as desafinadas de Cuomo ou a atabalhoada divisão entre teclados e guitarra de Bell (que, como tecladista, revelou-se um excelente guitarrista e vocalista). Afinal, esta é a tônica do indie rock. As raízes do gênero estão no punk rock, no slogan “faça você mesmo” e da atitude “vamos fazer de qualquer jeito, não importando a técnica ou o virtuosismo, mas apenas a emoção e o calor da hora”.

E isso foi exatamente o que contou nesta última noite de sábado, 28 de setembro, no Rock in Rio. Rivers Cuomo estava extremamente feliz e bem desenvolto. Conversou várias vezes com a plateia falando um português com gírias e sem sotaque. Tudo bem que havia uma cola no chão, mas nerd do jeito que ele é deve ter treinado com afinco por vários dias antes da viagem. Basta saber agora se esse português todo vai continuar sendo utilizado com mais frequência a partir de agora. Porque esperar mais de uma década para receber um show no Weezer no Brasil é muita coisa.