Gislene Bastos
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Por Gislene Bastos

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O carnaval e o espaço político

O  Carnaval é onde há espaço para a contradição e o respeito.

25 de fevereiro de 2020 - 00:00 - Atualizado em 10 de julho de 2020 - 21:37

Você pode simpatizar ou não, mas o Carnaval segue sendo a maior manifestação da cultura popular. E desde a década de 1930, quando surgiram os primeiros desfiles organizados nas ruas do Rio de Janeiro, esse é um momento de catarse coletiva. Esperado o ano inteiro por quem se envolve ou apenas curte. Planejado. Cultuado. Nas avenidas entre arquibancadas, em frente a algum palco, seguindo blocos e trios elétricos ou mesmo pelas telas  de tv e celular, fica impossível não brincar o carnaval.

Mas há também outro lado tão autêntico quando esse do “sonhar não custa nada”. As antigas marchinas e os sambas-enredo são terreno fértil para a crítica social, histórica e política. Nada mais natural. É o lugar certo. Cultura popular que contagia e ajuda a questionar, provocar a reflexão, educar.

E olha, não falo isso para defender essa ou aquela mensagem cantada e harmonizada em alegorias. Não. Escrevo esse texto hoje numa forma de nos entendermos como seres políticos que somos, e que nossas relações e escolhas são o exercício do fazer política. O pensamento critico se constrói com acesso a informações de valor.

No Carnaval há espaço para todos

As escolas de samba misturam pensamentos que chegam da periferia, classe média, artistas, bicheiros, partidos políticos, pessoas trabalhadoras em geral, e contribuem para dar voz a tantos que não conseguem ser ouvidos. Assim, vimos na principal passarela do samba neste carnaval 2020, um desfile de diferentes. Um Jesus negro crucificado, uma e outra celebridade que se recusa a usar penas de animais abatidos, um ator que coloca em cheque a autenticidade de não notícias (as tais fakenews) compartilhadas aos milhões. E, disfarçada de diversão, surge então a riqueza maior dessa festa que é a formação do conhecimento.

Mas claro, você pode não ver utilidade nisso. Você pode achar campanhas como a do “não é não” pura bobagem… Mesmo com indícios de mais tranquilidade para mulheres nas ladeiras do Recife, por exemplo. Ou, que uma homenagem ao navio símbolo da Marinha do Brasil, o Cisne Negro, não pega bem na folia de Salvador… O  Carnaval é onde há espaço para a contradição e o respeito. E se tal aprendizado vem com festa, alegria, satisfação pessoal, tanto mais a lição será fixada. Concorda?