Cultura

Misticismo e História em quadrinhos

Biografia do “pai do espiritismo” Allan Kardec e adaptação do clássico livro brasileiro Os Sertões são lançadas neste fim de semana em Curitiba

Abonico
Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento
Misticismo e História em quadrinhos
Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa "enviados" diretamente à Paris do século 19 (Foto: Divulgação)

16 de agosto de 2019 - 00:00 - Atualizado em 16 de agosto de 2019 - 00:00

Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa são amigos desde o início da adolescência, há mais de trinta anos. O que os uniu foi a grande paixão pelo universo das histórias em quadrinhos e também o sonho de poder, um dia, trabalhar neste campo. O que foi alcançado. Tanto que os gaúchos formam hoje uma das mais afiadas duplas das HQs brasileiras. A ponto de conseguirem lançar duas excelentes graphic novela simultaneamente, por editoras diferentes. Ou melhor, relançarem os dois livros.

Com arte assinada por Rodrigo e o roteiro de Carlos, Os Sertões – A Luta e Kardec saíram logo no comecinho da década e provocaram burburinho no meio dos quadrinhos nacionais. Expirado o prazo determinado para os direitos de publicação, a dupla negociou com novas editoras e – com direito a pequenos ajustes, acréscimos e mudanças em relação ao material já publicado – vê os dois trabalhos serem postos novamente à venda. O que vem bem a calhar com o momento de ambas as temáticas, por sinal.

Kardec (Chave, 120 páginas) chega às livrarias e lojas de HQs no reboque do lançamento nos cinemas da biografia daquele que é considerado “pai do espiritismo” e da data que marcou os 150 anos de desencarnação do professor francês. Já Os Sertões – A Luta (Quadrinhos na Cia, 96 páginas) leva para o mundo dos quadrinhos um resumo da terceira e última parte da mais famosa obra literária publicada pelo fluminense Euclides da Cunha. Considerado um dos maiores livros nacionais de todos os tempos, Os Sertões (publicado originalmente em 1902) narra a visão pessoal do autor sobre a Guerra de Canudos, ocorrida entre 1896 e 1897 na cidade de mesmo nome, situada no norte da Bahia, para a qual foi enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo para realizar a cobertura jornalística. Em anos de intensa efervescência e polarização em nosso país, é importante notar como este evento guarda várias semelhanças como todas as discussões promovidas em torno de Operação Lava Jato, pedidos de impeachment, acusações de parcialismo da imprensa brasileira e uma boa dose de elementos como fé, messianismo, garra e resistência durante o período de batalha.

Neste final de semana, Carlos Ferreira estará na capital paranaense para lançar as duas graphic novels, na Itiban. No sábado (17), participa de uma sessão de autógrafos de bate-papo com os leitores e fãs das HQs. No domingo (18), ministra uma oficina de roteiro de quadrinhos baseada nas experiências vividas durante a criação dessas obras. Mais informações sobre estes eventos você tem aqui.

De São Paulo, onde mora atualmente e trabalha também com roteiros e direção para filmes e séries, Carlos conversou com o Ric Mais sobre esses trabalhos.

Houve mudanças feitas para as novas edições de Kardec e Os Sertões – A Luta?

Sim! Rodrigo revisitou algumas artes e redesenhou umas cenas para Kardec. Já em Os Sertões – A Luta houve mudança drástica. À história foram acrescentadas páginas novas, um prefácio e oito cenas novas, encomendadas pela nova casa, a Cia. das Letras, dona do selo Quadrinhos na Cia. O Rodrigo também trocou uma cena porque casou com uma ideia que ele teve posteriormente ao lançamento da outra edição. Como ainda estava com a pesquisa viva na cabeça, mudou a cena do momento em que Antonio Conselheiro se depara com as pinturas rupestres e tem a catarse mística que o leva a se tornar o grande líder religioso de Canudos. Também colocamos uma espécie de abdução que lhe deu o poder mitológico pelas figuras como uma forma de revisitar a humanidade. Mas pode ser visto como uma abdução, um surto, uma visão. Ali no início também aumentamos a vida pré-Canudos. No outro livro havia somente ele caminhando pelo sertão até chegar em Canudos. Aqui adicionamos o motivo que o levou a abandonar casa e família em Ipu, no Ceará.

Vocês dois fizeram foram até Canudos para fazer a pesquisa de campo para a graphic novel. Passaram muito tempo por lá?

Eu gosto sempre de fazer pesquisa de campo para filmes e séries que dirijo e escrevo. Fizemos essa viagem em 2008, dois anos antes do lançamento. Pré-organizamos tudo porque acabamos pagando do próprio bolso. Ficamos uns cinco dias, não mais que isso. Foi algo incrível porque enquanto estivemos por lá, o Zé Celso [Martinez Correa, autor e diretor teatral] também estava em Canudos, encerrando a temporada de uma peça que tratava justamente sobre Canudos! E olha a coincidência: agora em julho eu estive na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) para divulgar o livro e o Zé Celso estava por lá para voltar a encenar a mesma peça!

Por que a decisão de adaptar o terço final do livro do Euclides da Cunha, que trata diretamente do confronto como os militares que dizimou Canudos? Foi para dar mais dramaticidade às cenas, já que eram poucas páginas disponíveis para serem criadas e desenhadas?

É importante ressaltar que isto foi uma decisão da primeira editora, mas também acabamos por colocar uma breve presença dos outros dois capítulos de Os Sertões na nossa história. Ali está vivo o sertão, procuramos ressaltar ao máximo a geografia local . Aliás, a terra tem texturas vivas na página. Também falamos sobre o homem, centrando isso nas figuras tanto de Antonio Conselheiro quanto na de Euclides da Cunha, que participa como um personagem da graphic novel. Os dois estão retratados com questões pessoais aqui.

Inclusive existem trechos do diário da viagem para Canudos, tirados de um outro livro escrito por Euclides e publicado anos depois do lançamento de Os Sertões

Sim! Achamos este livro em um sebo e percebemos que poderia ainda dar mais ênfase ao lado do homem. É o lado repórter dele. Estão lá umas partes sobre a visão que o Euclides tem da história, como uma segunda narrativa. Ele entrevista gente dos dois lados, tanto os que defendem o governo quanto os jagunços que resistiam aos ataques. Enquanto o jornalista vai percebendo que as coisas não são bem assim como estão sendo contadas, Rodrigo muda os traços e depois vai para o uso da cor. Antes de fazermos este trabalho eu sempre ouvia dizerem que Os Sertões seria uma obra inadaptável. Só que eu vi o filme Naked Lunch, no qual o diretor David Cronenberg leva para o cinema o livro de mesmo nome escrito por William Burroughs, que também diziam ser algo inadaptável para outras mídias. E o Cronenberg resolve o problema mostrando o processo de criação da obra literária. Foi o que fizemos aqui também.

Enquanto o leitor vai acompanhando o desenrolar dos fatos que levam à luta de Os Sertões, percebem-se claramente muitas semelhanças com este nosso atual período político brasileiro, de Lava Jato, impeachment, prisões, polarização eleitoral e atuação massiva da imprensa na área política nacional, mesmo já tendo passado mais de cem anos da Guerra de Canudos. Você concorda com isso?

Com certeza. E com um detalhe: sempre o povo nordestino está envolvido! Parece uma simbologia. A perseguição que destruiu e dizimou Canudos foi algo racista, fascista, higienista até. Como se existisse uma cultura superior naquele período que demandou uma mobilização do exército para acabar com uma população inteira.

Falando agora sobre Kardec, quando surgiu a ideia de contar a história de como ele se tornou o principal nome do espiritismo?

Eu atuo em três universos dos quadrinhos. Faço roteiros de adaptações literárias, o que, aliás, nem deve ser chamado de adaptação literária. Há um erro por trás desta palavra. Eu não adapto nada, o que faço é o registro da minha leitura destas obras, como fiz com Os Sertões. O que está ali é o que fomenta o imaginário, ligado com o que foi visto na pesquisa de campo. Sou 50% leitor e 50% autor. O segundo universo é de biografias ficcionais. Gosto muito de História. Por isso, Kardec nunca foi somente sobre ele, mas uma visão de todo o século 19 na capital francesa. Descobri Paris e depois descobri Kardec. Então ali no livro estão diversas referencias sobre a cidade, seus personagens. E o terceiro universo é o da autobiografia ficcional, que alimenta os outros dois lados meus.

Apesar de ter surgido na França no século 19, foi no Brasil do século 20 que o espiritismo acabou tomando grandes proporções…

O fato do espiritismo ter potencializado no Brasil como uma religião foi o sentido maior de ter produzido este livro para fechar com a primeira editora. Na graphic novel trato tudo como um fenômeno ainda, antes de se tornar uma filosofia e posteriormente uma religião. Aquele era um momento do século 19 em que havia muita descrença na igreja católica e, por isso mesmo, uma grande potencia do materialismo. Ali está uma efervescência mística através do espiritismo. Kardec, aliás, tem um pouco do Antonio Conselheiro. E também tem o lado racional e cético do Euclides. Acho que os dois livros acabam tratando de histórias sobre místicos.

Você tem alguma ligação pessoal com essa área?

Eu diria que sou agnóstico, apesar de também ser um ocultista. Kardec era, inicialmente, um cético, que não tinha fé em nada. Mas considero que para um cético ter em fé em nada é preciso ter fé que nada exista de verdade. Então, ao invés de ser cético, sou como o Moulder do Arquivo X: não descreio em nada.

Se uma caneca falar com você, então, você vai falar com a caneca…

Olha, dependendo do líquido que está lá dentro muitas canecas já falam com as pessoas… [gargalhadas] Mas achei esta uma boa comparação.

Você e o Rodrigo mantêm uma amizade pessoal que já dura mais de trinta anos e vai além da parceria profissional. No que isso ajuda e atrapalha na hora de fazer um trabalho em conjunto com ele?

Nada atrapalhada a não ser o fato de que nós dois já somos naturalmente atrapalhados… [gargalhadas] Eu e Rodrigo somos quase irmãos. Nos conhecemos na adolescência, quando um tinha 14 e o outro 12 anos. No início, o que nos uniu foi a paixão pelos quadrinhos, aquela vontade de querer ser autor, desenhar, escrever histórias. No primeiro encontro já surgiu uma terceira personalidade, que é a dos dois juntos. Se fosse comparar com o cinema, diria que Rodrigo é o diretor de fotografia, eu sou o roteirista e nós dois atuamos como montadores da obra. Fazemos cada um outros trabalhos paralelos também. E eu não escrevo apenas, também desenho. Por isso acho que sou muito mais metódico quando atuo com outros desenhistas do que comigo mesmo quando eu faço a função. Com os outros sempre vou entregando em partes o roteiro e dialogando enquanto o trabalho evolui. Mas quando sou só eu existe a possibilidade de parar tudo no meio e recomeçar do zero. Como foi o caso do livro que eu vou lançar agora em setembro, no qual assino texto e arte.

E qual é o livro?

Chama-se Hell Brazil Mercearia Noir. Trabalho desta vez com personagens originais e ele se passa na Mercearia São Pedro, que fica em São Paulo [Nota: situada no bairro boêmio da Vila Madalena, a mercearia São Pedro é um conhecido reduto de escritores, poetas e artistas e completou meio século de existência no ano passado.]

Qual é o próximo projeto com o Rodrigo?

A ideia é fazer de Kardec uma trilogia. Como isso resulta nos séculos 20 e 21. Vamos ver se lançamos também pelo Chave, que é o selo ocultista ligado à editora Veneta. Kardec é um lançamento deste selo. Um dos primeiros foi uma biografia de Aleister Crowley.

Do que tratará o encontro que você fará neste domingo?

Será uma oficina sobre HQ, com abordagem em roteiros, mais especificamente tratado sobre religiosidade e misticismo. Quero esclarecer que a linguagem aqui é justamente semelhante a uma experiência religiosa, um fluxo mágico. É curioso como isto é a última frequência de percepçãoo que as pessoas têm deste universo. Pouco se fala sobre isso nos quadrinhos.