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Itaipu desenvolve trabalho pioneiro para o bem-estar de animais no Refúgio Bela Vista

Iniciativa é voltada principalmente aos animais que não podem ser reinseridos na natureza.

Itaipu desenvolve trabalho pioneiro para o bem-estar de animais no Refúgio Bela Vista
Foto: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional.

3 de agosto de 2021 - 13:48 - Atualizado em 3 de agosto de 2021 - 13:48

A Itaipu Binacional está iniciando um trabalho inédito voltado ao bem-estar de animais abrigados no Refúgio Biológico Bela Vista (RBV), unidade de pesquisa, conservação e educação ambiental mantida pela empresa em Foz do Iguaçu (PR). A iniciativa consiste na contratação de uma empresa especializada para fazer a análise comportamental dos animais e ajudar no desenvolvimento de protocolos e ações de enriquecimento ambiental para a melhoria da qualidade de vida dos animais.

O plano de trabalho foi estruturado pela equipe técnica do RBV e conta com o suporte da empresa Biodapt. Serão mais de 860 horas ao longo dos próximos 12 meses em que os profissionais envolvidos no projeto se dedicarão para que os animais vivam mais e melhor.

“Ao final desse trabalho, teremos um diagnóstico completo: se a dieta está correta, se os recintos estão adequados, se eles estão incomodados com alguma coisa; é um olhar bem profissional e individual”

afirma a médica-veterinária Aline Luiza Konell, da Divisão de Áreas Protegidas da Itaipu.

O estudo contempla atividades específicas e planejadas para cada grupo de animais abrigados no Refúgio. Ao todo, são 360 animais de 61 espécies (parte no Zoo Roberto Ribas Lange, aberto à visitação pública, e parte no Criadouro de Animais Silvestres, com acesso restrito aos profissionais do RBV).

Todo o planejamento foi realizado baseado em um modelo estruturado conhecido como Cinco Domínios do Bem-estar, que é amplamente aceito por instituições ligadas à conservação de espécies em todo o mundo.

Basicamente, o modelo preconiza que o animal precisa estar em boas condições físicas e nutricionais, que seu comportamento deve ser o mais próximo possível do que teria na natureza, que o ambiente onde mora deve ser desafiador e ao mesmo tempo seguro; e que as experiências mentais dos animais devem ser positivas, ou seja, é preciso estimular sensações de segurança, alegria, calma, curiosidade, acesso a recompensas, entre outras.

Nesse primeiro momento, todos os animais estão passando por um diagnóstico comportamental, em que são analisados se os comportamentos são naturais e normais ou não. Para isso, as biólogas Júlia Lima e Letícia Oliveira, da equipe da Bioadapt, se revezam diariamente para observar o comportamento de todos os espécimes ao longo do dia, contando, ainda, com o apoio dos tratadores do Refúgio para se familiarizar com os hábitos de cada um.

Durante o último mês de junho, por exemplo, aproveitando o aniversário do RBV, foram promovidas diversas atividades de enriquecimento ambiental nos recintos. A equipe do projeto aproveitou para estudar as interações entre os animais, a forma como se movimentam, os sons que produzem, entre outros detalhes.

A partir de observações como essas, haverá a criação do protocolo de manejo e enriquecimento ambiental para que os animais possam ter acesso a experiências positivas. Segundo a bióloga Ana Cecilia Leite Soares, especialista em comportamento animal da Bioadapt, o objetivo é produzir um etograma – registro detalhado do comportamento dos animais do Refúgio.

Para isso, os dados serão tabulados de forma a identificar se o padrão de comportamento é o semelhante ao que acontece na natureza. “Os dados são comparados aos vários artigos publicados por cientistas do mundo todo”, disse a bióloga. “Também vamos elaborar e entregar uma planilha de atividades a serem realizadas para incentivá-los a interagir e se exercitar, e faremos uma orientação a toda a equipe, mostrando o que funciona para cada animal.”

A Itaipu desenvolve atividades de conservação e reprodução de espécies de fauna ameaçadas desde os anos 1980, quando da formação do reservatório e da operação de resgate de animais denominada Mymba Kuera (“pega bicho”, em Guarani).

Hoje, além dos animais que se ali se reproduzem, o plantel do Refúgio também é composto por espécimes resgatados do tráfico ou de acidentes, ou ainda encaminhados por outras unidades de conservação. Em muitos casos, eles perderam as habilidades necessárias para a sobrevivência na natureza e, por isso, não podem ser reinseridos em seu habitat natural, mas são muito importantes para pesquisas e para a reprodução da espécie.

“Qualidade de vida é o desejo de todas as espécies de animais, e nós faremos tudo o que está ao alcance da ciência para promover bem-estar para os indivíduos que cuidamos. Desejamos a excelência do RBV na recuperação e bem-estar dos animais, assim como já o é na reprodução de espécies ameaçadas, a exemplo da harpia e da onça-pintada”, conclui Aline.