Abonico
Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento

28 de setembro de 2019 - 00:00

Atualizado em 28 de setembro de 2019 - 00:00

Cultura

Mano Brown se emociona ao cantar com ídolos do funk e do soul no Rock in Rio

Mano Brown se emociona ao cantar com ídolos do funk e do soul no Rock in Rio
Mano Brown, vestindo branco e dançando à frente de sua big band (Foto: Rock in Rio/Diuvlgação)

Cotação: ★★★★

Quem vê cara não vê coração já dizia aquele velho provérbio. Por isso muita gente pode ter se espantado quando, em dezembro de 2016, Mano Brown lançou Boogie Naipe, um álbum solo de funk e soul, e no ano seguinte formou uma big bandde mais de dez músicos para percorrer o país cantando ao vivo as faixas deste disco. Seria aquele mesmo cara que, à frente dos Racionais MCs, ficou conhecido desde os anos 1990 pela eterna cara fechada e pose de malvado, vestindo preto e mandando ver uma afiada verborragia de cunho sociopolítico?

Contudo, quem conhece a história do hip hop no Brasil – especialmente nas capitais paulista e carioca – sabe o quanto o canto falado está intimamente ligado não apenas ao sambas das rodas, quadras e morros como também aos passos descontraídos de dança nos salões de baile de black music, promovidos maciçamente entre os anos 1970 e 1980. Por isso, ver Mano Brown sorrindo, vestindo calça e jaqueta brancas, com o cabelo escovinha levemente pintado e dançando sem parar enquanto canta não é nada para se espantar. Especialmente porque ele já levou duas vezes seu projeto Boogie Naipe aos maiores festivais de música deste país.

A segunda foi na noite desta sexta (dia 27 de setembro), o primeiro dos sete dias de Rock in Rio em 2019. Terceira das quatro atrações programadas para o palco Sunset – dedicado a promover encontros entre artistas – Brown já subiu com um nome de destaque à frente de sua orquestrablack: o guitarrista Max de Castro, o filho mais novo do cantor Wilson Simonal. Então, promoveu um desfile das principais faixas do álbum Boogie Naipe. Começou com as dançantes “Gangsta Boogie” e “Dance, Dance, Dance” até chamar ao palco dois dos grandes nomes do soulem tons de verde e amarelo para cantar junto com ele e seu vocalista de apoio Lino Krizz. Hyldon veio para a dobradinha em “Foi Num Baile Black”. Já Carlos Dafé, a grande surpresa do concerto, fez dueto em “Nova Jerusalém”.

Mano Brown já estava visivelmente feliz ao apresentar ao vivo oito de suas criações que fogem do espectro dos Racionais MCs e o levam para um outro espectro musical tão especial quanto o rap. Só que ele ainda estava preparado para mais emoção. Foi o que aconteceu ao chamar ao palco um de seus grandes ídolos. Bootsy Collins não entrou para tocar contrabaixo e serviu mais como um mestre-de-cerimônias do que um cantor propriamente dito. Mas não poderia deixar  de trazer a reboque aquele seu visual estrambólico de sempre, com direito a cartola, roupa colorida e o tradicionalíssimo óculos de estrela. Com a música, a barreira dos idiomas logo foi derrubada entre os dois frontmen. Primeiro vieram “Mothership Connection” e “We Want The Funk”, ambas em homenagem à fase setentista do P-Funk, o famoso combo comandado por George Clinton, do qual Bootsy fez parte por muito tempo. Depois, o set se encerrou com “I’d Rather Be With You”, lançada em meados dos anos 1990, já na carreira solo do icônico baixista.

Às vésperas de completar meio século de vida, Mano Brown ganhou da produção do festival um presentaço na noite de sexta do Rio de Janeiro. Estava ao lado de um dos grandes nomes de toda a história do funk, dividindo palco e vocais com ele. A reverência se traduziu em emoção nos gestos e olhares daquele homem que fez fama com sua cara de mau mas também é um grande festeiro.