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Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento

20 de setembro de 2019 - 00:00

Atualizado em 20 de setembro de 2019 - 00:00

Entretenimento

Elza Soares e sua fome de botar a boca no mundo

Elza Soares e sua fome de botar a boca no mundo
Elza Soares: dois discos em um intervalo de dezesseis meses (Foto: Marcos Hermes/Divulgação)

Planeta fome: o novo álbum de Elza Soares

Cotação: ★★★★

Nem bem Elza Soares lançou um álbum bastante celebrado por crítica e público no ano passado e, agora em setembro, apenas dezesseis meses depois, volta com mais uma pancada tão forte e impactante quanto. Mais uma coleção de faixas, entre inéditas e regravações, todas escolhidas a dedo e formando um repertório que tem um poder devastador sem igual para o enorme guarda-chuva sonoro que convencionou-se chamar de música popular brasileira.

Na verdade o que Elza fez com Deus é Mulher em 2018 volta a repetir com Planeta Fome é algo que não vem sendo comum no mercado fonográfico: chama-se misturar ousadia com a coragem de erguer a voz sobre todas as intempéries para protestar e se expressar.

Já faz um bom tempo que a grande fatia do mainstream da música brasileira – isto é, as duas grandes gravadoras mundiais que restaram depois da revolução digital, estações de rádio de grande audiência, emissoras de TV que insistem em produzir programas musicais e de auditório, a lista das músicas mais executadas em plataformas de streaming– se aninhou na acomodação. Sempre reciclagem de mais do mesmo, fórmulas batidas, elementos já conhecidos, ingredientes que funcionam para hipnotizar um povo cujos ouvidos também se acostumaram a rejeitar o novo, o diferente, o inusitado.

Elza Soares em entrevista exclusiva para o RIC Mais

Isso não funciona com Elza Soares. Mesmo. “Eu canto o que estou vendo neste país. Vou ouvindo aqui e ali, muitas músicas novas que me apresentam e que de uma certa forma contam o que anda acontecendo por aí. Aí vou formando a dedo o repertório de cada um destes discos”, diz a cantora, em entrevista exclusiva, por telefone, para o Ric Mais.

O título Planeta Fome, segundo ela explica, não precisa ser necessariamente subentendido ao pé de letra.

“Não só é comida não, apesar deste ser um período em que o brasileiro precisa de muita força também. Mas também é fome de saúde, de respeito, de cultura, de leitura. Queremos e precisamos de tudo isso”, conta Elza

A arte e as faixas do novo álbum de Elza Soares

Já a arte da capa, assinada pela cartunista Laerte Coutinho, ilustra toda esta diversidade de fomes “do bem” que podem existir em um planeta. “A ideia de todas as ilustrações foi dela”, complemente Elza, a respeito do trabalho gráfico que ainda traz uma boa curiosidade nas entrelinhas: é tanta informação a ser buscada pelos olhos de quem a vê que lembra antigos trabalhos de designers especializados em capas de discos de vinil. Aliás, muito provavelmente em breve deve sair uma fornada de long-plays, já que a fábrica da Polysom pertence à mesma gravadora de Elza, a Deckdisc. Sendo assim, a arte de Laerte vai ficar ainda mais brilhante no mesmo tamanho do bolachão.

Quanto ao caldeirão sonoro, Elza apresenta, orgulhosamente, uma grande mistura sonora. Tem melodias melancólicas (“Tradição”, “Lírio Rosa”) e a fúria verborrágica do hip hop da vertente funky representada pelo Dream Team do Passinho Rafael Mike e do rock com riffs pesados de guitarra de BNegão (“Não Tá Mais de Graça” e “Blá Blá Blá”).

Tem batidas dançantes com elementos eletrônicos (“Não Recomendado”) e uma vinheta quase a capellae que puxa pro afoxé (“Menino”). Tem um míssil do BaianaSystem com Virgínia Rodrigues e Orkestra Rumpilezz (“Libertação”) e o resgate de duas canções mais obscuras do repertório autoral de Gonzaguinha (“Pequena Memória Para um Tempo Sem Memória”, “Comportamento Geral”).

Tem versos celebrando a necessidade atual da resistência tanto coletiva (“País do Sonho”) quanto individual (“Virei o Jogo”). Tem também citações e referências espalhadas por todo o álbum que vão de Titãs (“Comida”) a Chico Buarque (“Geni e o Zepelim”) a uma canção de Seu Jorge eternizada na voz da própria Elza (“A Carne”).

“Canto sempre aquilo que me dá vontade de cantar. Estas duas músicas do Gonzaguinha são demais. Dizem bem o que está acontecendo no Brasil hoje. Ele escrevia para o futuro. Cazuza é outro que também fazia isso.”

As novas músicas e o descontentamento de Elza em relação ao país

As letras das doze faixas, de uma certa forma, fazem um grande coro de descontentamento e indignação de Elza com a situação apresentada há alguns anos no Brasil. Social, econômica e sobretudo politicamente falando. “Esta nova geração está dormindo muito. O que será que aconteceu com a juventude? Está um silêncio profundo por aí… Não vemos mais os estudantes na rua, como já vimos antes. Gente que brigava e buscava alguma coisa. O que colocaram na água do brasileiro, meu Deus? Anda todo mundo amedrontado, só na internet. Parece que não se dá mais liberdade para o povo”, queixa-se a cantora, sem, porém, ousar esconder o brado de insatisfação com a apatia geral de adolescentes e jovens adultos.

Elza reclama e também está longe de querer ficar parada, esperando algo acontecer. Por isso, está sempre ligada ao que está vindo aí no seu futuro, sem querer muitas amarras com o que já foi.

“Vem o filme com a Taís Araújo no papel de Elza Soares. Também vou ser homenageada no carnaval carioca. Serei o tema da minha escola de coração, a Mocidade Independente de Padre Miguel. Já lancei três discos de 2015 para cá. Aliás agradeço a Deus por ter dois produtores tão carinhosos e competentes como o Juliano Almeida e o Pedro Loureiro. Eles vão atrás, agilizam tudo, fazem as coisas acontecerem. Pedro ainda canta, toca, compõe… Ele se envolve na questão na criação. Pena que só chegaram agora há pouco na minha vida.”

Antes tarde do que nunca. Porque, afinal, com Elza o negócio é sempre falar, gritar, botar a boca no mundo. “Blá blá blá é comigo mesmo”, brinca

Álbum “Planeta Fome” 

  • Artista: Elza Soares
  • Produção do álbum: Rafael Ramos, exceto a faixa 1 (BaianaSystem) e a faixa 12 (Rafael Ramos, Bruno Queiroz e Ricardo Muralha)
  • Faixas: “Libertação”, “Menino”, “Brasis”, “Blá Blá Blá”, “Comportamento Geral”, “Tradição”, “Lírio Rosa”,  “Não Tá Mais de Graça”, “País do Sonho”, “Pequena Memória Para um Tempo Sem Memória””Virei o Jogo” e “Não Recomendado”
  • Tempo total: 42:12
  • Gravadora: Deckdisc
  • Lançamento: 13 de setembro de 2019.