Cinema

Filme volta aos anos 1960 para retratar a briga entre Ford e Ferrari nas pistas

Ford vs Ferrari mostra os planos da montadora americana para ameaçar o reinado italiano nas provas europeias de automobilismo

Abonico
Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento

15 de novembro de 2019 - 00:00 - Atualizado em 15 de novembro de 2019 - 00:00

Cotação: ★★★★

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os militares todos voltaram para casa nos EUA e Europa, o que provocou uma explosão de nascimentos de bebês nos anos seguintes. Em meados dos anos 1960, já crescida, entrando no mercado trabalho e com poder de compra, esta geração virou a menina dos olhos da indústria por vários motivos. Uma das áreas– o ramo automobilístico – via nesses jovens uma multidão de compradores em potencial. Outrora em expansão, via neste público-alvo a possibilidade de reverter o primeiro sinal de queda do número das vendas. Tudo isso explica a história que é contada em Ford vs Ferrari, que estreia nesta semana no circuito nacional e traz de volta aos cinemas o nicho de filmes de corridas.

O ano é 1966 e a gigante Ford coleciona vitórias em provas automobilísticas realizadas nos EUA. Contudo, essas corridas só têm popularidade entre os fãs do esporte sobre quatro rodas dentro do próprio país. Por isso, como uma estratégia de marketing visando tanto a exportação quanto o consumo interno por parte dos jovens ligados em eventos esportivos, a empresa decide se aventurar nas pistas e provas mais tradicionais do Velho Continente, começando pelo evento anual das 24 Horas de Le Mans, na França. Só que havia um grande empecilho para as pretensões de vitória e projeção da marca: a presença da sempre badaladíssima e campeoníssima escuderia italiana Ferrari.

Aí que entram os personagens interpretados por Christian Bale e Matt Damon na trama do filme. Damon faz o ex-piloto Carroll Shelby, que teve de largar precocemente a carreira de vitória nas pistas por causa de uma doença congênita que poderia ter mata-lo já dentro do cockpit. Agora na condição de empresário do ramo, ele é procurado pela Ford para implantar em apenas dois meses uma escuderia, um carro competitivo e pilotos que possam bater a grande rival e trazer a vitória do circuito francês. Claro que a história ganha um tom a mais de emoção e rixa depois que a Ferrari nega qualquer tipo de aliança ou parceria que envolva a mistura da linha de produção de automóveis tradicionais e a manufatura quase artesanal da linha esportiva.

A dramaticidade entra por conta da presença de Ken Miles, mecânico profissional e piloto ocasional de corridas que Shelby contrata para ir buscar a vitória e a taça na Europa para a Ford. Temperamental ao extremo, suas reações são sempre imprevisíveis ao se sentir provocado. Dentro e fora das pistas. Diretamente proporcional à sua passionalidade é a sua habilidade para regular o carro e dirigi-lo volta após volta, ultrapassando os rivais e baixando tempos de recordes de volta mais rápida da prova. Com o ego sempre lá em cima, é bem difícil algo conseguir domá-lo quando em ação por trás do volante.

São exatamente Shelby e Miles os trunfos do diretor James Mangold. Conhecido por trabalhos anteriores envoltos em auras bastante dramáticas (como Garota, Interrompida; Johnny & June e Logan), aqui o cineasta trabalha com uma trinca competente de roteiristas para transportar a história real – de Ken, Carroll e da Ford – às telas. Como é um filme de velocidade,  a fotografia também é um primor. Assinado por Phedon Papamichael (responsável pela função em belezas visuais Nebraska, O Hotel de Um Milhão de Dólares e Sideways: Entre Umas e Outras, por exemplo), o trabalho imprime em enquadramentos, paisagens e ritmo toda a tensão necessária vivida por Ken e Caroll nas pistas, boxes e bastidores da profissão.

É justamente neste foco maior nas vidas, sentimentos, desejos e frustrações dos dois protagonista que reside o melhor de Ford vs Ferrari. Vale destacar que a escuderia italiana, apesar de aparecer no título da obra em uma ideia de confronto, é tratada na trama como algo secundário, um detalhe coadjuvante. Na verdade, a luta aqui acaba sendo mesmo entre Ford e Ford. Entre a paixão escancarada de Miles e Shelby pela velocidade sobre quatro rodas e o pragmatismo corporativo de executivos e empresários do alto escalão da companhia. E aqui as consequências sofridas podem ser impactantes e até mesmo irreversíveis.

Ford vs Ferrari (Ford V Ferrari, EUA/França, 2019). Direção: James Mangold. Roteiro: Jez Butterwort, John-Henry Butterworth e Jason Keller. Com Matt Damon, Vhristian Bale, Caitriona Wolfe, Tracy Letts, Jon Bernthal, Josh Lucas, Noah Jupe, Remo Girone. Warner. 152 minutos. Estreia nos cinemas brasileiros: 14 de novembro.