Cinema & Filmes

As atitudes polêmicas de Hebe Camargo

Longa-metragem estreia hoje nos cinemas mostrando as brigas compradas pela apresentadora contra a censura e os políticos brasileiros

Abonico
Abonico Smith / Jornalista e professor especializado em arte, cultura e entretenimento
As atitudes polêmicas de Hebe Camargo
Hebe: A Estrela do Brasil destaca fase polêmica da apresentadora

26 de setembro de 2019 - 00:00 - Atualizado em 26 de setembro de 2019 - 00:00

Cotação: ★★★★

Ainda na adolescência, Hebe Camargo começou sua carreira artística cantando na rádio. Em 1950, participou da primeira transmissão ao vivo da televisão brasileira. Depois, nas décadas seguintes, desenvolveu um caso interminável de amor com a mídia, tornando-se a maior apresentadora de programas de entretenimento da história da telinha, trabalhando quase ininterruptamente até morrer no dia 29 de setembro de 2012, aos 83 anos de idade, enquanto dormia, meses depois de enfrentar cirurgias e um severo tratamento para problemas na saúde. Em seu currículo televisivo estão passagens por várias das principais emissoras nacionais (Tupi, Record, Bandeirantes, SBT, Rede TV!), participações bissextas como atriz em obras cinematográficas e nove discos de carreira, sendo seis deles gravados e lançados entre os anos 1960 e 1967.

Nome indiscutível do primeiro escalão do entretenimento popular brasileiro, Hebe Camargo agora ganha uma homenagem em forma de dramaturgia. O longa-metragem Hebe: A Estrela do Brasil integra um projeto ainda maior, que se tornará minissérie em dez capítulos e será exibida pela Rede Globo no ano que vem – curiosamente, a única dentre todas as grandes emissoras para a qual a artista nunca trabalhou. Andrea Beltrão foi a atriz escalada para incorporar a protagonista, conhecida por seu humor, o gosto pelo brilho em figurinos e cenários e ainda algumas polêmicas que pontuaram sua trajetória profissional. Três elementos, aliás, marcantes na cinebiografia que chega hoje aos cinemas de todo o país.

O principal acerto do longa, entretanto, é justamente o recorte escolhido para enfocar a trajetória pessoal e profissional de Hebe. O grande pecado da maior parte das adaptações biográficas feitas para o cinema é justamente a ambição de querer abarcar detalhes importantes da infância e adolescência de seus personagens, buscando ali naquele período de vida algo que possa solidificar ou se contrapor à figura conhecida depois da fama. Aqui nada importa até o auge de Hebe na televisão. Nada mesmo. A fome que ela mesma diz ter passado, o início de sua trajetória profissional, o estrelato  nos anos 1960, a pausa na carreira para ter o único filho Marcello, os perrengues vividos com o primeiro marido, com quem casara ainda jovem. A história começa já em meados dos anos 1980, quando a apresentadora, já estrela-mor da grade do horário nobre da Bandeirantes, percebia que a uma estrela da TV também pesavam certas obrigações sociais e que sua função em frente às câmeras ia além do entretenimento e passava também pela conscientização de seus fãs e espectadores a respeito de fatos alarmantes da política nacional e da mudança nos costumes sociais. E não vai muitos anos além da contratação pelo SBT, ocorrida em 1986. Portanto, tudo ali é resumido em menos de dez anos, um intervalo temporal na medida para contar algo preciso e bem resumido nas telas.

Por isso a “Estrela do Brasil” aparece o tempo todo lutando a favor da liberdade de expressão. No início, contra o fantasma da institucionalização da censura federal que insistia em permanecer naquele Brasil pós-regime ditatorial militar. No decorrer da trama, pela defesa do público LGBT+ (na época ainda bastante vilipendiado pela sociedade e alvo de injustiças e sofrimento com a explosão dos casos de aids por todo o mundo), dos funcionários com quem trabalhava nos bastidores das emissoras e ainda contra a horda de políticos que, já naquele período inicial de reinstalação de democracia, se aproveitava de seus cargos públicos para legislar em benefício e causa própria.

Por isso saltam aos olhos a personalidade polêmica e o temperamento forte da apresentadora vivida por uma eficaz Beltrão, que incorpora tanto o carregado sotaque paulistano quanto a característica gargalhada que ela dava dentro e fora dos palcos.  Em quase duas horas de projeção, Andrea convence o espectador de que ali está a própria Hebe – com direito a utilizar até mesmo as joias, sapatos e alguns figurinos que eram da coleção da própria artista.

Outro nome de majestosa atuaçãoo é Marco Ricca, que faz o empresário Lelio Ravagnani, com quem Hebe foi casada por 25 anos (até a morte dele em 2000). A vida entre tapas e beijos está retratada de forma crua e direta durante as cenas passadas nos bastidores. Por causa de suas excessivas crises de ciúmes, agravadas pelo consumo de bebidas alcoólicas, tornava Lelio um ser possessivo e extremamente agressivo, a ponto de quebrar objetos e ameaçar violentar fisicamente a mulher em vários momentos após os encontros dela em cena com artistas como Roberto Carlos e Chacrinha. Entrtetanto, horas depois, o mesmo Lelio se mostrava uma grande criatura apaixonada pela esposa, capaz de gestos românticos e atitudes galanteadoras.

O roteiro também joga bastante luz na relação extremamente amorosa com o filho Marcello (Caio Horowicz), retratado como um jovem saindo da adolescência e sem qualquer amigos, capaz de ficar o tempo inteiro na mansão do Morumbi, sem muitas preocupações com trabalho e estudos e ainda tendo toda a cumplicidade dos empregados caseiros mantidos há anos por Hebe. Outra pessoa importante na vida pessoal de Hebe também aparece com destaque no filme: o sobrinho Claudio Pessutti (Danton Mello), também tratado como filho por ela, é o âncora profissional, que cumpre as funções de empresário e assistente pessoal. Aliás, depois de sair da sala de cinema, fica fácil entender porque os dois dividiram a herança afortunada deixada em testamento pela cantora e apresentadora.

Outros dois nomes que não poderiam ficar de fora de qualquer recorte biográfico de Hebe são as suas duas melhores amigas, as atrizes Nair Bello (Claudia Missura) e Lolita Rodrigues (Karine Telles). Aqui o trio protagoniza uma divertidíssima cena em um restaurante chique no topo de um prédio da região central de São Paulo. As amigas, trêbadas, cantam, gritam, tropeçam, cambaleiam e dão um show particular enquanto o pianista do local comanda os acordes e a harmonia de “Cama e Mesa”, um dos maiores hitsromânticos de Roberto Carlos.

Sabendo dosar instantes de drama e comédia e sem soar chapa-branca mesmo tendo nos créditos o apoio (a ponto de questionar o apoio cego a Paulo Maluf da mesma Hebe que disparava críticas à igreja católica e aos políticos), Hebe: A Estrela do Brasil é um belo início de homenagem àquela que fez dos estúdios e camarins da televisão o seu habitat natural. E ainda serve como um gostoso aperitivo para todo o resto de material inédito que vem por aí no próximo ano.

Hebe: A Estrela do Brasil (Brasil, 2019). Direção: Mauricio Farias. Roteiro: Carolina Kotscho. Com Andrea Beltrão, Marco Ricca, Caio Horowicz, Danton Mello, Otávio Augusto, Fernando Eiras, Daniel Boaventura, Felipe Rocha, Stella Miranda, Karine Telles, Renata Bastos, Danilo Grangheia, Claudia Missura, Ivo Muller. Warner. 152 minutos. Estreia nos cinemas brasileiros: 26 de setembro.

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