Comportamento

‘Nós conquistamos o direito de ser feliz’, diz primeiro homem gay a se casar no Brasil

“Eu sempre estudei que a ausência de lei, não quer dizer ausência de direito”, afirma Toni Reis, que se casou com David Harrad, em Curitiba, quatro dias após o STF reconhecer a união estável homoafetiva

Mônica
Mônica Ferreira / Produtor Jr com supervisão de Giselle Ulbrich
‘Nós conquistamos o direito de ser feliz’, diz primeiro homem gay a se casar no Brasil
(Foto: redes sociais)

28 de junho de 2022 - 06:10

O ativista dos direitos humanos da população LGBTQIA+, Toni Reis, e seu companheiro David Harrad, são conhecidos como o primeiro casal gay a registrar a união estável homoafetiva no Brasil. Ela veio após reconhecimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no dia 05 de maio de 2011. Quase 10 anos após a lei, Toni conta em entrevista ao RIC Mais sobre sua trajetória de vida e a luta pelos direitos desta comunidade.

Toni e David casaram-se no dia 09 de maio de 2011, em Curitiba, quatro dias após a lei entrar em vigor. O casal teve um caminho de luta. “Eu sempre estudei que a ausência de lei, não quer dizer ausência de direito”, afirma Toni.

“Depois que eu fui estudar, me aprofundar, eu percebi que tenho direito de ser o que sou. Sendo gay, ou não gay, todas as pessoas têm direito, foi aí que nós começamos a lutar e nos organizamos. Contratamos bons advogados, entramos com ação no Supremo e a gente venceu, esse foi um processo maravilhoso”,

relatou Toni.

Conforme Toni, professor de profissão e também especialista em sexualidade humana, a sociedade ainda coloca muitos desafios para essa comunidade. No entanto, ele acredita que apesar das discriminações, alguns obstáculos foram vencidos. “As pessoas podem casar, adotar, doar sangue, mudar o nome e mudar o gênero; isso é muito importante, nós conquistamos o direito a ser feliz”.

Casamento em 2018
(Foto: Toni Reis)

Toni Reis nasceu em Coronel Vivida, no Sudoeste do Paraná, e também viveu em Pato Branco e Quedas do Iguaçu. Ele relata que teve uma infância e adolescência ‘tumultuadas’.

Eu me lembro bem, a minha mãe era uma pessoa muito trabalhadora, conseguiu criar seis irmãos e me dar estudo. Esse período da infância e da adolescência para mim foi muito difícil porque eu tive que lidar com a minha homossexualidade.

relembra.

Toni fala com carinho da mãe e conta que ela tentava ajudá-lo, mesmo sem instruções sobre o assunto. Agora, com três filhos, com idades de 22 anos, 19 e 17 anos, ele os educa aplicando alguns métodos da sua mãe.

Ativismo

Ao ser questionado sobre sua vida na militância, desabafa: “Sou militante porque eu sofri demais. Eu não desejo para ninguém o que eu sofri dos 14 aos 20 anos”.

“Eu procurei me curar, eu achava que eu era doente, achava que eu era pecador, achava que eu era criminoso. Minha mãe me levou no médico e o médico disse que não era uma doença”,

continuou o educador.

Reis ainda passou por muitos caminhos que o colocavam como uma pessoa doente e de má influência. “Eu sofri demais, e a partir desse sofrimento, eu prometi para mim mesmo que eu ia dedicar toda minha vida para que nenhum adolescente, nenhum jovem, nenhuma pessoa sofresse o que eu sofri “.

“As primeiras discriminações foram na escola, principalmente os meninos me chamando de viado, bixa, marica, não me escolhiam para jogar bola, ninguém queria ficar perto de mim, era um isolamento, essa talvez seja a questão mais triste. A minha família sempre me acolheu muito bem e sempre me ajudaram, não sofri com a minha família, eles também tinham poucas informações, mas hoje eu vejo que ainda tem muito preconceito na sociedade, muitas pessoas expulsam o seus filhos, muitas igrejas tratam muito mal a nossa comunidade”,

desabafa.

Grupo Dignidade

Toni morou um tempo na Europa, onde encontrou David, com quem está há 32 anos e afirma ser o amor da sua vida. Quando voltaram para o Brasil, o casal decidiu formar o Grupo Dignidade, que está completando 30 anos, em Curitiba. Mas a construção do grupo também não foi nada fácil.

“Nós não tínhamos ninguém para nos apoiar, nós tínhamos que emprestar identidade, CPF para registrar porque as pessoas não queriam se aparecer. As pessoas estavam todas no armário. Inclusive, na nossa própria comunidade, as pessoas falavam que nós éramos loucos de estar discutindo esse assunto abertamente”, lamenta o ativista.

Hoje o Dignidade conta com mais de 400 voluntários e o local oferece atendimentos jurídicos, serviço social e psicológico ao público LGBTQIA+.