Desajeitado, sem nenhuma perícia, acendi seu cigarro.

Caracóis de fumaça subiram pelo espaço vazio.

A noite nos envolveu com seu manto negro, intransponível.

Ria alto, quase gargalhava. Estava meio alta pelo uísque.

Senti o vento vindo lá das bandas do rio. Inalei o ar noturno.

“Chuva certa antes mesmo de a noite virar madrugada”, pensei.

 

Andamos lado a lado, a esmo, quase até a fronteira.

Minúsculos pontos de luz brilhavam no rio imenso.

Meus poros se abriram por causa do vento que varou minha camisa.

O suor que antes escorria quente, agora era gelo nas costas.

Toquei em seu ombro e uma corrente percorreu meu corpo.

Acendeu outro cigarro, agora sem a minha ajuda. Perícia…

 

As horas foram relâmpagos e urgiram regressivamente.

Agora já não gargalhava como antes. Mantinha um meio sorriso.

Com certa naturalidade, buscou amparo em meu abraço.

Lentamente, caminhamos pela noite que nos envolvia.

Um trovão foi o aviso, o ultimato. Acatei o alarme.

Chamei um táxi com um sinal. Ele vinha lentamente.

 

Entramos. Grossos pingos bateram no para-brisa.

“Para onde, senhor?”, perguntou o motorista argentino.

“Só me tire desta tortura que me sufoca”, resmungou ela.

Agora, mesmo no escuro, notei que chorava. Tremia.

“Para minha casa”, informei ao taxista. Ele assentiu.

Ligou o taxímetro e, lentamente, pôs o carro em movimento.

 

A chuva chegou violenta. Lufadas atingiram o carro.

Conhecedor exímio da cidade, o taxista parou no meu endereço.

Paguei ao argentino e ele se foi pela rua quase alagada.

“Acende para mim?”, pediu ela na entrada do prédio.

Ignorei a placa de “proibido fumar” e as leis do síndico.

Entramos no elevador. Rápida ascensão. Quase um voo cego.

 

Em casa, evitamos acender a luz. Sentidos ativados.

Pelo toque, nos encontramos. Inquieta e ardente busca.

A paixão foi brasa intensa no braço. Expiação?

E a chuva não pararia tão cedo. Novos trovões.

Em sua bolsa entreaberta, vi mais dois maços de cigarro.

Eu que nunca fumei, provei seu beijo de nicotina.

 

Viciado na loucura que se instalou, deixei-me levar.

Cavalgou-me sem piedade. Fustigou meu corpo em brasa.

Repetidas vezes, me fez esvair em gozo torrencial.

Vi uma estrada reta chegando ao meu encontro. Enveredei.

Senti um sono de quase-morte me invadir. Flutuei.

Como estrela cadente, o brilho do seu cigarro me fez ir além…

 

Jossan Karsten

 

Jossan Karsten

Jossan Karsten

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