A chegada dos filhos

A chegada dos filhos é uma festa de grande alegria para o casal e para toda a família. No entanto, os desafios vêm na mesma proporção e se não forem compreendidos, aceitos e coordenados de forma adequada, podem colocar em risco o relacionamento conjugal. Mas, como fica o casamento após a chegada dos filhos? Na chegada dos filhos ocorre uma evolução dinâmica na vida familiar. O casal, que já estava relativamente adaptado em seu relacionamento, é convocado a sair de sua zona de conforto para incluir os filhos que chegam.

A inclusão dos filhos

A inclusão dos filhos afetará a agenda, as tarefas, os passeios e o trabalho. Da mesma forma, também acionará aprendizados novos quanto ao controle das emoções e da mente, aos acordos na divisão das tarefas, na administração financeira e do tempo, e ao convívio intra e extra familiar. Os filhos nascem e com eles os cônjuges nascem pais. Diante desse episódio incrível, que é a chegada dos filhos, a parceria do casal é desafiada a evoluir. E pode-se dizer que um casal evoluiu, em meio às provas da parentalidade, quando conseguiu fazer com que o papel conjugal e o parental coexistam.

O papel conjugal

O papel conjugal diz respeito à dinâmica do casal em sua forma de interagir. Envolve os aspectos da vida conjunta e a maneira como o casal estabelece as pautas em sua interação. Dessa forma, a constituição da estrutura de sua unidade conjugal passa pela elaboração da sua comunicação, pela harmonização dos estilos e expectativas diferentes de ambos, pelo enfrentamento dos conflitos, pela construção da parceria, pelo aprofundamento da intimidade e pela harmonização na sexualidade relacional.

A manutenção da unidade conjugal

O papel conjugal exerce funções de manutenção da unidade conjugal. Isso significa que ambos os cônjuges se envolvem no sistema do casamento de forma proativa. Ambos exercem o cuidado na manutenção do bem estar conjunto. Fazem isso aprendendo o que é importante para o outro e construindo a autoestima mútua. O exercício do papel conjugal ajuda os parceiros conjugais a não se perderem um do outro, mesmo em meio às mais desafiadoras situações parentais. Em sua caminhada conjugal, muitas vezes, os cônjuges terão que realinhar acordos e se reinventar como casal. Na chegada dos filhos, o papel conjugal será desafiado a coexistir com o papel parental.

O papel parental

O papel parental nasce quando chega o primeiro filho. Nesse momento os cônjuges assumem o papel de pai e mãe e são convocados a incluir o filho na agenda, nas finanças e na vida. O casamento, após a chegada dos filhos, se modifica para acolher, amar e cuidar. E  o casal parece estar pronto para encarar o desafio. Diante daquela vida pequenina e frágil, que agora carregam no colo, parece que nada mais no mundo importa. O foco é plenamente direcionado para esse serzinho incrivelmente fofo, que chamam de “nosso filho”.

Aceitação do papel parental

Aquele serzinho precisa de cuidados constantes, o que é compreendido e aceito por cônjuges que entendem a importância de seu novo papel, o parental. Dessa forma, em meio às restrições de sono, de tempo e de espaço, eles se organizam para assumir as novas tarefas e elaboram as novas pautas necessárias para incluir os filhos em sua vivência conjunta. Eles se envolvem em cuidados com higiene, alimentação, sono e saúde. Os pais que entendem de fato a importância do papel parental, ainda compreendem que construir um clima emocional saudável para a vida familiar é indispensável. Dessa forma, promovem, além do colo físico, também o colo da alma.

Quando o papel conjugal é extinto pelo papel parental

O casamento, após a chegada dos filhos, poderá ser intensamente desafiado. Haverá um risco maior de extinção do papel conjugal para casais que têm uma parceria fragilmente constituída. Ou mesmo para casais que são grandes parceiros na parentalidade, mas que esquecem de investir na relação do casamento após a chegada dos filhos. Nessa dinâmica, parece que apenas os filhos são importantes e merecem ser vistos e atendidos.

A extinção do casamento

Os pais que permitem ser consumidos pelas demandas dos filhos, e não elaboram um tempo juntos para nutrir o seu relacionamento, correm o risco de extinguir o papel conjugal.

Obviamente haverá lacunas relacionais, afetivas e sexuais quando se têm filhos. Isso significa que os cônjuges devem diminuir suas expectativas e exigências de um para com o outro, exercendo empatia e solidariedade. No entanto, vale prestar atenção para não se perderem um do outro ao exercerem o papel parental.

Quando o papel parental é extinto pelo papel conjugal

O papel parental é extinto pelo papel conjugal quando o casal não acolhe seus filhos, não os inclui na agenda, nas finanças e nem em sua vida. Essa situação é característica em casais imaturos e/ou narcisistas. Casais imaturos se mostram irresponsáveis e desinteressados em aprender as habilidades dos cuidados parentais. Muitos casais, nessa condição, estão mais interessados em sair para festas ou em conquistar o mundo em viagens. Casais narcisistas apresentam posturas autocentradas, o que não combina com os cuidados que um filho exige. O casal imaturo e/ou narcisista tende a se perder em idealizações sobre a vida conjugal e familiar e se mostra inábil em assumir o papel parental. Acaba por transferir o cuidado do filho para outras pessoas que se mostrarem solícitas.

Outras pessoas assumindo a função parental

Para um casal assim, o que importa é manter o papel conjugal, de forma que o papel parental fica para um plano secundário ou mesmo poderá ser extinto. Obviamente que um casal, para preservar o seu papel conjugal terá que priorizar algumas pautas para que o seu relacionamento siga forte e em crescimento. No entanto, será necessário haver um equilíbrio. Do contrário, outras pessoas assumirão a função parental e serão chamadas de “pai” e “mãe”.

O papel conjugal e o parental podem e devem coexistir

O casamento, após a chegada dos filhos, ao invés de ser extinto, pode ser enriquecido quando o casal compreender a importância de ambos os papéis, tanto o conjugal como o parental. Isso significa que o papel conjugal e o parental podem e devem coexistir, de forma que um não deve extinguir o outro. Segundo Gary Smaley, em seu livro “Como reinventar o casamento quando os filhos nascem”, quando duas pessoas se tornam três, e às vezes quatro, cinco ou mais, o casal precisa acionar algumas pautas para que o casamento não se perca, conforme listado na sequência.

Fazer do casamento uma prioridade

É uma opção consciente em separar um tempo para avaliar a qualidade do relacionamento e para nutrir o amor e o afeto. Significa assumir um compromisso mútuo no reconhecimento de que o casamento é importante para ambos.

Assumir o controle da agenda

Significa analisar, de maneira consciente, quem está fazendo, o que e quando. Dessa forma, o casal pode buscar por soluções melhores para a administração das tarefas e do tempo. Isso ajudará a eliminar as tarefas desnecessárias e otimizar aquelas que são indispensáveis. Também é importante criar uma agenda para os filhos.

Assumir o controle do dinheiro

Se as prioridades são um casamento sadio e um ambiente de aprendizado positivo para os filhos, então os recursos financeiros devem ser canalizados para a realização desses objetivos, em vez de seguir o estilo consumista de outras pessoas.

Aprender a educar os filhos

Para isso é necessário que se tenha claro que os filhos precisam ser amados e também necessitam saber que há regras. Portanto, é necessário equilibrar afeto e limites.

Descobrir o segredo da intimidade

A intimidade é o cerne de um casamento saudável, de forma que haja um senso profundo de vinculo, de amor, de apreço e de respeito. Para isso é necessário remover os escombros, reafirmar o compromisso e fazer com que o cônjuge se sinta amado.

Preservar o papel conjugal em sintonia com o papel parental é possível. Mas, não se estabelece no automático. É preciso investir de forma consciente em ambos os papéis!

Clarice Ebert

Clarice Ebert

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