Estou na academia, como faço quase que diariamente, depois que saio do trabalho, na redação. Às segundas-feiras, é sempre muito tumultuado, pois a maioria quer expelir do corpo os exageros do fim de semana. Ledo engano.

Caminho pelo espaço à procura de um aparelho vago, mas não encontro. Decido subir ao andar de cima, onde há salas exclusivas para mulheres e espaço (unissex) para abdominais, e afins.

Como os aparelhos de abdominal são pouco procurados, há espaço de sobra para esta dolorosa e necessária prática de exercício físico.

Faço uma, duas, três séries e sinto o corpo reagir com aquela dor prazerosa. Relaxo um pouco, tomo um longo gole de água e me ajeito para finalizar a série de exercícios, quando ele chega.

Há muito que não o via. Há muito mesmo! Luiz é seu nome. Eu o conheci há mais de vinte anos, quando era novo na cidade (e de idade também). Desempregado como ocorre com quase todos os jornalistas pelo menos uma vez na vida, distribuí muitos currículos pelas empresas, sem me importar com o ramo de atividade que ela desempenhava, desde que houvesse uma colocação para mim. Fui chamado em uma delas. Uma fábrica de papel que também mantinha (e mantém até hoje) um grande reflorestamento, além inúmeras atividades ligadas ao agronegócio.

Comecei a trabalhar no barracão da empresa, varrendo o chão, descarregando caminhões e organizando as coisas da matéria-prima.

Em meio aos mais de dois mil funcionários à época, além dos terceirizados, vi ali um campo fértil para colher e imaginar histórias que depois, disseminaria em forma de crônicas, literatura, poesia, dentre outros trabalhos que desempenharia por lazer, uma vez que lá, minha função era outra, puramente braçal.

Sempre tive a sensação de que jornalistas, assim como todos os profissionais da comunicação, carregam consigo uma espécie de estigma, algo que os distinga dos demais. Não que eu procurasse esconder minha condição (de jornalista), mas num momento daqueles, acreditava que não vinha ao caso comentar sobre minha profissão, até mesmo, para não soar como arrogante. Eu era um funcionário como tantos ali, contratado para desempenhar serviços gerais e pronto. E confesso que estava muito feliz com o trabalho, com minha condição de operário.

Mas, segundo o ditado popular, “tudo o que é bom dura pouco”. E foi exatamente o que ocorreu comigo.

Toca estridente o telefone sobre a mesinha da minúscula sala empoeirada. Geraldo, o chefe imediato, atende. Fala alguma coisa, ouve, repõe o aparelho na base e caminha com malemolência em minha direção. Estou com uma enorme vassoura na mão, varrendo um espaço que acabara de ficar vazio pela retirada de enormes sacos de um produto à base de cal.

“Grandão, querem te ver lá no RH. Disseram para ir rápido”, anunciou Geraldo.

“Então, vou trocar de roupa, pois estou todo sujo”, falei sem ânimo, pois via meu emprego indo pelo ralo. “Não devo ter passado na experiência”, pensei à guisa de conformismo.

“Não dá tempo. É para ir lá com urgência”, rebateu o chefe.

Lavei as mãos, embarquei numa Kombi e fui levado até o prédio dos Recursos Humanos.

Sem jeito, me apresentei na recepção.

“Entre aqui!”, gritou o gerente do RH lá de sua mesa.

Meio sem graça, fui até ele que estendeu a mão e me cumprimentou com alegria. Tinha nas mãos meu currículo e possuía informações sobre mim, que até agora, desconheço.

“Eu vejo aqui que você é jornalista e que já passou por alguns meios de comunicação”.

“Sim”, balbuciei. A voz estava embargada e a sensação que eu tinha era a de que o chão ia se abrir numa cratera para que eu entrasse.

“E por que procurou trabalho como operário de serviços gerais?”, indagou.

“Bem… Eu estava desempregado e não tenho medo de serviço, então…”, disse por dizer, sem esperar por clemência.

“Mas eu vou te jogar no fogo, então. Quem mandou ser jornalista?”.

“Como assim?”, indaguei.

“É o seguinte. Ainda não temos um departamento de comunicação e isso faz muita falta aqui na empresa. A diretoria pensou na elaboração de um jornalzinho, uma espécie de informativo mensal que integre as pessoas, pois como vê, aqui se trabalha em turnos e muitos colegas, sequer se conhecem. Agora, vendo aqui que é jornalista, eu te proponho fazer esse trabalho para nós. Que tal? Vai ter um bom aumento no teu salário e você nos ajuda nesta empreitada”, disse e, virando sua cadeira giratória, chamou outro funcionário para que me mostrasse o que seria minha sala de trabalho, em um velho barracão de madeira, quase junto da portaria da fábrica.

Limitei-me a concordar e pronto. Lá estava eu, em minha nova função e, outra vez, ligado à comunicação.

***

Limpeza de sala. Instalação de um computador que era usado na contabilidade. Busca por uma cadeira meio despedaçada que ninguém mais queria e estava montada minha sala de trabalho. Dali em diante, era comigo.

Passei a trabalhar no dia seguinte com muita gana. Queria fazer um bom serviço e manter meu emprego. Comecei a entrevistar funcionários no horário de almoço e a fazer fotos dos colegas. Usava minha velha câmera Kodak amadora e revelava os filmes na cidade, nos fins de semana.

Mas o dono da empresa, em uma das incursões pelo novo espaço de comunicação, viu meu sofrimento e, em silêncio, se compadeceu de mim. Na segunda-feira seguinte, ele mandou entregar na redação, uma novíssima câmera fotográfica digital, Mavica Sony Mvc-fd200.

Emocionado, quase derrubei o equipamento ao tirá-lo da caixa. Li o manual de instruções e aprendi pelo menos o básico sobre a máquina e, em poucos dias, eu já estava craque na fotografia digital. Fotografava, gravava em um disquete e descarregava no computador.

Mas o que isso tem a ver com o Luiz que eu vi na academia? Pois bem, eu conto:

Eu estava na portaria, fotografando uns caminhões de celulose que chegavam à empresa, quando o avistei. Ele estava coberto de pó de pedra, tinha um ar de humildade, mas mantinha o sorriso e um ar de serenidade. Cumprimentei-o e me apresentei.

“Ah, é você que cuida do jornalzinho? Achei muito bom isso. Gostei da ideia”, falou.

“Em que você trabalha?”, perguntei.

“Pois eu sou da pedreira e cuido do britador e das coisas por lá”, disse.

Sim, a empresa tinha (e acho que ainda tem) um britador próprio.

Interessei-me pelo assunto e propus fazer uma matéria sobre aquele departamento. Ele ficou muito feliz e me convidou para ir ao seu local de trabalho.

“Eu quero que você faça uma foto quando eu der um tiro”, disse-me.

“Tiro? Que tiro?”, perguntei sem esconder minha ignorância.

Aí ele me deu uma verdadeira aula sobre a extração de pedra. “Tiro” era a detonação de dinamites que rompiam com a pedra bruta. De lá, o material era levado em caçambas ao britador e moído, transformando-se em pedra brita, pedrisco, pó de pedra, dentre outros subprodutos.

E eu passei uma tarde inteira conhecendo todo o processo que depois, se transformou numa longa matéria para o jornal da firma.

Dali, nasceu uma grande amizade. Na hora do almoço, no ônibus, em vários momentos da semana, eu me encontrava com Luiz e trocávamos muitas ideias. Ele sempre com suas pedras, com seus tiros e eu, com minhas matérias e a mania que tenho de contar histórias.

Saí da empresa tempos depois e voltei para o jornalismo de rua, para os veículos comerciais e não tive mais contato com Luiz.

Não que eu tivesse me esquecido do amigo e colega de trabalho, mas tudo pareceu ficar tão distante, esmaecendo num tempo não contado…

***

Na academia, Luiz era novato. Um instrutor o orientava sobre como usar os equipamentos e ele acatava as dicas com humildade, com paciência, como é de sua natureza.

“Você não é o Luiz lá da fábrica?”, perguntei.

“Sou sim. E você é o jornalista, não?”

Confirmei e nos cumprimentamos. E a conversa começou, para desespero do instrutor que certamente tinha mais pessoas para orientar nos exercícios de musculação.

Luiz contou que havia saído da fábrica por um período, mas voltara há dez anos. Hoje ele exerce outra função e não dá mais seus “tiros” nas pedras, conforme explicou.

Depois de cumprir com três séries de exercícios de abdominal, como estava especificado no manual da academia, Luiz, com a respiração entrecortada por causa do cansaço, disse que estava praticamente aposentado.

“Meu processo de aposentadoria está na fase de cálculos. Daqui a poucos meses, vou deixar o emprego em definitivo, pois é uma aposentadoria especial, por eu ter trabalhado na pedreira por tantos anos. Aquele é um trabalho muito perigoso e a lei leva isso em consideração”, explicou.

Ele não ficou com nenhum problema de saúde por causa do serviço insalubre, mas disse que nunca descuidou dos exames.

“Em muita gente, os fiapos de pedra cortam até os pulmões, acabam com o sistema respiratório, detonam a pele. Eu tive muita sorte, graças a Deus. Trinta e cinco anos trabalhando com isso e meu pulmão está igual ao de um jovem de trinta anos, segundo me disse o médico”, vibrou.

Fiquei impressionado com a história de vida de meu amigo de longa data e muito feliz pelo reencontro.

Era hora de voltar para casa.

“Tenho que ir, Luiz. Precisamos marcar um café uma hora dessas”, falei.

“Precisamos mesmo. Eu ainda guardo o jornalzinho com aquela matéria que você fez sobre as pedras. Relíquia. O advogado fez uma cópia para provar que eu trabalhava mesmo naquele serviço. Não que precisasse, mas acho que ele gostou das fotos e quis impressionar o juiz”, detalhou e gargalhou.

Fiquei impressionado com aquilo. Eu jamais poderia imaginar que um trabalho minúsculo que desenvolvi há muitos anos, poderia servir para comprovar que um trabalhador tinha cumprido com sua função. E, pelo visto, aquilo era motivo de orgulho para ele.

Luiz ficou na academia terminando os exercícios propostos pelo instrutor. Ele disse que precisa perder a barriguinha com urgência. Eu voltei para casa e resolvi fazer este pequeno relato em forma de crônica, falando de uma amizade que, sólida como pedra, resiste ao tempo e, basta uma pequena limpeza para que tudo volte a ser como antes.

Jossan Karsten

Jossan Karsten

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