1

João Batista dos Santos era só mais um dos pobres diabos que teve a má sorte de nascer na cidade de Carliópolis. Aquele era um lugar totalmente inóspito e isolado. O município era cercado por enormes ribanceiras na maioria de seus lados e um rio dividia a outra parte. O único acesso ao lugar era através de uma centenária e decrépita ponte que tempos depois, desabou.

Muitas pessoas morreram ao cair nas correntezas fortes daquele rio, tentando atravessá-lo em busca de uma nova chance, uma vez que o lugar era o que pode se dizer, uma fábrica de loucos.

As lavouras de fumo com o cheiro insuportável de veneno era a base da economia daquela sinistra ilha no meio do nada.

Mas João Batista odiava aquela situação e decidiu sumir dali o quanto antes. Era o mais novo dos quatro irmãos e não podia ver seus sonhos morrerem naquele lugar. “Eu vou desaparecer daqui o quanto antes. Não vou ser vítima do câncer nem do suicídio por causa deste maldito veneno”, pensou num fim de tarde de sábado quando muitos jovens se preparavam para aqueles bailinhos chatos, única diversão do lugar.

E na segunda-feira, contra a vontade dos pais e dos irmãos e sem nenhum plano, João Batista dos Santos estava na plataforma daquela rodoviária caindo aos pedaços da sinistra cidadezinha de Carliópolis.

O ônibus soltando fumaça por todos os lados, encostou. Com as caras desanimadas, dando a ideia de que haviam saído de um velório, as pessoas foram entrando. O destino, a cidade de Avauparaug, que perto de Carliópolis era considerada uma verdadeira metrópole.

João Batista sentou-se no fundo do ônibus. Pela sua cabeça, inúmeros pensamentos e dúvidas. “O que eu vou fazer na cidade grande? Preciso encontrar um emprego. Deus queira que eu não passe fome”, refletiu, sentindo uma lufada de vento bater de cheio em sua cara por causa da janela emperrada que não podia ser fechada por defeito no friso.

Perto do meio-dia, o rapaz desembarcava em Avauparaug. Estava com muita dor de cabeça e tonto por causa de viagem e dos solavancos do ônibus. Meteu a mão no bolso e sentiu muito medo. As notas eram poucas e ele sabia que não sobreviveria nem por uma semana com aquela quantia.

Assim que saiu da rodoviária, percebeu que aquele lugar, apesar de muito maior do que a cidade de Carliópolis, tinha os mesmos problemas, mas com um agravante: eram em escalas enormes.

Andou meio capenga e viu um grupo de homens vestindo camisetas azuis, cavando valas para a instalação de uma rede de esgoto. Sem jeito e tremendo, pelo frio da cidade ventosa e pela vergonha de ter que pedir emprego pela primeira vez, aproximou-se de um homem negro com uma prancheta na mão.

“O senhor é o chefe aqui?”, indagou.

“Sou sim!”, respondeu o homem com ar rompante.

“Eu preciso de um emprego. Faço de tudo!”, disse João Batista munindo-se de uma coragem que ele nem sabia que possuía.

“Emprego eu não tenho. Agora, se você está procurando um serviço, eu posso pensar no teu caso”, falou o negro e gargalhou, instigando os outros ao redor a rirem também.

“Sim, quero um serviço”, redarguiu João Batista, sem jeito.

E com aquelas mesmas roupas de “dia santo” que havia vestido para a viagem, ele pegou no cabo da cortadeira, revezando com a picareta e finalizando com a pá, numa mescla de determinação e raiva para suportar a carga.

“O homem é bom de trabalho!”, disse um dos trabalhadores.

Sentiu náuseas e sentou-se no chão.

“Está amarelo! O que houve?”, perguntou o chefe.

“Eu estou sem comer”, respondeu João Batista sentindo espasmos doloridos no abdômen.

“Vou pedir um rango para você agora mesmo”, falou o negro.

A marmita chegou. João devorou tudo como um cão abandonado. Bebeu muita água e viu suas forças retornarem.

A tarde caiu. A noite veio e ele encontrou hospedagem em um hotel muito feio no centro da cidade, perto do terminal de ônibus. O emprego era sem registro em carteira e os pagamentos seriam feitos nos fins de semana.

Sentiu-se alegre pela decisão que tomara. “De agora em diante, é comigo”, pensou e sorriu tomando um café em uma lanchonete ao lado do hotel.

Em um jornaleco de classificados que estava sobre a mesa vazia do lado, leu a notícia de que uma fábrica de papel estava selecionando pessoas para contratação imediata. Não perdeu tempo. Preencheu um currículo e na segunda-feira, depois de avisar que iria se atrasar (ou talvez nem fosse trabalhar) estava na portaria da empresa.

No fim daquela tarde, João Batista dos Santos era o mais novo e feliz funcionário da Fábrica de Papel de Avauparaug.

***

Um salto no tempo. Dez anos se passaram como um supersônico e agora um João Batista maduro, responsável e amado pelos seus empregadores e colegas, sentia-se feliz à sua maneira. Nunca se negava a fazer horas extras, ganhava bem, era proprietário de uma casa de núcleo habitacional, mas sua vida estava incompleta: não tinha um amor…

“Chegando em casa à noite e saindo de madrugada, sem tempo para uma diversão, dificilmente vai encontrar uma namorada, muito menos se casar”, disse um dos seus colegas em tom de ironia.

João sabia que o homem tinha razão e não parou de pensar naquilo durante o dia todo. À tardinha, quando o supervisor avisou que precisaria de seus serviços extras, entrando pela noite; pela primeira vez, ele disse não.

Foi com muito espanto que os colegas viram aquela cena, mas ele estava decidido: cuidaria de si de agora em diante. De nada adiantava ter mudado de cidade se continuava agindo como antes, escravo de si mesmo.

Mal sabia mexer em computadores, pois seu trabalho braçal não exigia tais práticas, mas em casa entrou na internet a fim de, segundo seus pensamentos ingênuos, “se inteirar do que estava ocorrendo no mundo”.

Tinha telefone celular, mas usava muito pouco. No trabalho, em meio a maquinários perigosos, usar um telefone celular, além de perder tempo, podia resultar em um acidente fatal. Cumpridor de regras como era, essa prática nem passou por sua cabeça.

Mas agora não. Agora ele estava solto na rede e queria conhecer o mundo. João Batista sentia essa necessidade e as respostas vinham do corpo e da alma. A ansiedade por ser diferente, por mudar o comportamento se mostrava como um caminho perigoso que poderia levá-lo a perder a cabeça…

2

Salomé das Graças Prazeres, era o que todos chamavam de um verdadeiro “colírio para a alma”. Linda, de corpo escultural, a moça, desde criança, arrancava suspiros por onde passava. Mas sua história era um tanto quanto pesada e a dita base familiar era algo inexistente em se tratando da beldade.

Nascida na zona rural de uma região montanhosa do Sul, Salomé era filha de Erundina das Graças, e Felipe dos Prazeres. Quando a menina tinha cinco anos, sua mãe começou a viver um tórrido romance com seu tio, Antino dos Prazeres, o irmão mais novo de seu pai.

Quando Felipe descobriu a traição, partiu para cima do irmão, mas acabou levando a maior surra, pois a jovialidade, saúde e destreza do outro, jamais seriam páreos para um agricultor sofrido daquelas bandas.

Desolado e humilhado, Felipe foi embora e sequer mandou notícias para quem quer que fosse, morador daquele lugar esquecido por Deus.

Salomé crescia a olhos vistos e sua beleza era esfuziante.

“Mas esta guria é uma verdadeira laranja de amostra”, diziam uns.

“Que flor mais delicada, meu Deus! Quem dera tocar nessas pétalas rosadas e aromáticas”, suspiravam os mais românticos e poetas de fim de samana.

Salomé se sentia muito incomodada, principalmente porque em casa, Antino tinha dado para brigar com ela e sua mãe por causa dos comentários.

“Essa guria é uma deslavada. Deve ter puxado à mãe que não teve escrúpulos em trair o marido com o próprio irmão”, dizia o padrasto, como se o assunto não estivesse ligado diretamente a ele.

Erundina chorava, mas era extremamente apaixonada pelo rapaz que passava seus dias na bodega do lugar, bebendo, fumando, jogando sinuca e procurando maneiras de ludibriar as pessoas. Idosos aposentados eram os alvos de Antino.

Quando chegava bêbado em casa, depois de brigar com Erundina, Antino embrenhava-se no quarto de Salomé que no começo, achou muito esquisito tudo aquilo, mas depois, algo dentro dela se acendeu e fê-la gostar da situação.

Erundina era merendeira na escolinha da comunidade e no começo, ela entendeu como bênção a permanência do marido/cunhado em casa.

“Graças a Deus ele deixou de frequentar a bodega. Aqueles velhos bêbados estavam levando meu marido para o inferno”, contava a funcionária pública às colegas de trabalho.

Mas a verdade era que Antino vivia um romance com Salomé ainda mais tórrido do que aquele que teve com a cunhada anos atrás.

Uma dor de cabeça muito forte fez com que Erundina voltasse para casa muito mais cedo do que o normal. Ela sentiu que seu crânio ia explodir. Salomé, que tinha abandonado a escola, estava em seu quarto com Antino e os dois faziam sexo.

3

E tudo virou um inferno naquela casa. Erundina pegou um facão usado para cortar cana e expulsou Salomé de casa. Ela acreditava que a filha era a culpada daquela desgraça toda e sequer passava pela sua cabeça, descontar sua ira no marido que tinha um lugar cativo em seu coração, em sua alma.

Carregando o pesado estigma da vergonha, a moça quase foi apedrejada pelos vizinhos. Pegou carona com um caminhoneiro que a deixou em uma cidade litorânea, frequentada por muitos estrangeiros.

Arranjou trabalho em um restaurante como zeladora, mas lavar pratos não estava em seus planos. Tinha um celular pré-pago e certo dia ele tocou. Atendeu. Era Antino que ligava e queria saber onde ela se encontrava.

Sentindo aquela comichão pelo corpo inteiro e um formigamento nas mãos, ela revelou onde morava. No dia seguinte, o tio/padrasto/amante, estava lá.

Eles foram para um hotel barato perto de um trapiche e fizeram sexo o dia inteiro. Salomé sabia que seria demitida, pois havia poucos funcionários no restaurante e na hora do almoço, era o momento em que mais precisavam de seus serviços.

“Guria minha não lava pratos. Guria minha faz amor e vive no bem bom”, disse Antino em tom de gabolice.

De novo aquela quentura pelo corpo todo e a paixão explodindo em labaredas no peito.

Ledo engano pensar que Antino ficaria por ali com ela. Ele voltaria para casa, para os braços de sua mãe e para a segurança de um salário de funcionária pública do município montanhoso.

“Mas e nós?”, questionou Salomé.

“Gostei do ‘nós’. Sim, a gente continua. Você vai usar a beleza em nosso favor. Tua beleza é como a vela de um barco novo, pois tem os ventos sempre a seu favor, não importa a direção que queira seguir”, filosofou o canalha.

E as coisas ficaram acertadas. Salomé atrairia homens com dinheiro e pedia para que eles pagassem coisas para ela. Tudo estava muito bem planejado na cabeça de Antino que repassou as coordenadas à garota várias vezes. Ele a visitaria todas as semanas, mas acompanharia a operação pela internet, pois sua mulher, usando do décimo terceiro, comprara um telefone celular dos melhores e um computador para o marido, um presente caro como forma de reconciliação.

Usando o dinheiro de Salomé, ele alugou um quartinho e comprou um celular versátil para a moça. Abriu várias redes sociais para a garota e exigiu que ela usasse seu nome verdadeiro.

“Teu nome tem um grande apelo. Chama muito a atenção das pessoas. Minha Salomé, tens uma fábrica de dinheiro neste corpo perfeito”, disse e deixou a garota com o ego a ponto de explodir.

***

Em poucos dias de trabalho de Salomé, que giravam em torno de conversas picantes com homens do país inteiro, danças e exposição do corpo em frente à câmera do celular, Antino viu seu dinheiro crescer. Era ele quem cuidava das finanças e, dentre os pedidos da garota, estavam o pagamento de boletos e faturas de cartões de crédito. Depósito na conta de um “parente” muito pobre que precisava comprar remédios. Para seu público, muitas vezes Salomé se passava por defensora ferrenha dos direitos dos animais e angariava quantias enormes para esta causa.

Antino alugou outro apartamento e agora, praticamente morava na praia, indo à casa de Erundina apenas no período em que a prefeitura depositaria o salário da merendeira. Pegava o que podia, dormia uma noite com ela que envelhecera muito depois da saída da filha e, se dizendo muito atarefado no novo emprego no litoral, o malandro descia a serra.

 

***

Em uma das viagens de Antino à casa de Erundina, Salomé teve seu primeiro contato com João Batista dos Santos. O homem que mal sabia usar a câmera do computador, era jovem ainda, mas seu rosto passava um ar de seriedade extrema, de preocupação, talvez.

“Esse cara trouxa é casado, só pode ser. Esses são os melhores para a gente dilapidar. O que pedir, eles dão”, contou Salomé a Altino, em uma conversa pelo celular, quando fazia um balanço dos ganhos do dia, para que ele comparasse com seus extratos dos depósitos, pagamentos e afins.

***

Salomé ficou muito preocupada com João Batista, pois o rapaz não queria apenas ficar no virtual. Na primeira vez, ela usou de suas artimanhas e ele pagou suas contas que ela inventava, sem problema algum. Nos dias que se seguiram, ele estava lá, tão logo saía do trabalho. Embevecido, ele conversava com ela como se a conhecesse há anos.

“Esse cara está me preocupando, Antino. Ele quer coisa real e isso eu não aceito. Sou tua e só tua”, disse, mas o que viu no semblante do tio/amante/padrasto, foi um olhar e um riso de puro sarcasmo.

“Pensando bem, posso evoluir nessa questão. Eu atraio o idiota para cá. Ele vem e a gente faz uma espécie de sequestro de seus bens. Eu posso até fazer o papel de marido traído e tudo isso vai deixá-lo muito embaraçado. Temos um verdadeiro dossiê da vida desse miserável. Ele não é casado, mas tem muito a perder”, falou Antino e agarrou Salomé, rolando com ela na cama que também fazia parte do cenário de sexo virtual da moça.

4

“Quero minhas férias. Preciso dos trinta dias. Já tenho outra para vencer, mas não vou vender nenhum dia”, falou João Batista com autoridade.

“Sem problemas”, respondeu a moça dos recursos humanos.

Dois dias depois, um João Batista cheio de sonhos e muitas ilusões de um amor para toda a vida, embarcou em um ônibus leito e desceu ao litoral. Ele ainda não conhecia o mar…

Hospedou-se em um hotel de frente para a praia e enviou mensagens para Salomé, informando endereço e quarto em que estava. Para ele, a moça disse que morava com a família e seu pai, um dono de supermercado, era muito nervoso.

“Ele já expulsou muitos amigos da minha casa. Você é meu primeiro namorado. Quero fazer tudo certinho. Mas meu amor é muito forte e eu vou te encontrar no hotel”, afirmou Salomé e desligou bruscamente.

Depois de João Batista muito insistir, a moça, por fim, atendeu à chamada. Chorando, ela disse com a voz entrecortada:

“Meu amor, aconteceu a pior coisa da minha vida. Meu pai descobriu tudo e teve um infarto. Meu Deus! Ele pode morrer de desgosto. E para piorar, estamos com o plano de saúde atrasado. Cinco mil reais só de emergência. Mas eu não posso deixar meu querido paizinho morrer. Não posso. Você me ajuda? Pelo amor de Deus, me ajuda”, implorou Salomé.

João Batista ficou calado com o telefone junto ao ouvido. Tudo rodava em torno do rapaz interiorano. “Infarto? Emergência? Dinheiro? Cinco mil reais?”, eram indagações que martelavam em sua cabeça.

“Desligue essa bosta. Deixe que o pato fique preocupado e retorne a chamada”, João Batista ouviu ao fundo.

E tudo se encaixou e as máscaras caíram. Sentiu medo, vergonha, ojeriza por passar por uma situação vexatória como aquela. Mantinha o telefone no ouvido, mas as coisas se distanciaram de sua mente e ele parecia flutuar agora.

A cidadezinha de Carliópolis surgiu como um filme diante de si. Seus irmãos sofridos, seus pais já velhinhos e machucados pelas labutas da vida passaram diante dos seus olhos. Igualmente, seu trabalho na fábrica, as pequenas e sofridas conquistas tomaram conta de sua mente ingênua e sem malícias. E tudo aquilo machucava sua existência. Nem tanto pelo dinheiro que aquela gente havia levado, mas pela inocência torturante em uma mente ávida por buscar ser o que nunca fora.

Desligou o telefone, por fim, ouvindo Salomé chamar:

“Querido? Amor?! Está aí? Pode me ajudar? Meu paizinho…”.

***

Uma sensação completamente alheia à sua vontade, tomou conta de seu corpo. De repente, João Batista estava tomado por uma fúria, por uma espécie de raiva mortal. Ele desceu à recepção, chamou o funcionário, um senhor de meia idade e, como se precisasse lhe confidenciar algo, contou num cochicho, sobre sua situação.

Com gestos paternais, o homem disse-lhe.

“Meu rapaz, o mundo está cheio de gente assim. E eu sei muito bem de quem você está falando. Essa menina é uma coitada, mas o cara que anda com ela é muito perigoso. Ele não tem limites e estragar a vida dos outros é sua função. E com essa coisa de internet, tudo fica ainda mais complicado. Eu peço que você volte para casa e esqueça isso”, falou o homem.

Ele nem teve tempo de dizer nada, quando avistou um carro preto parar em frente àquele hotel de veraneio. Permaneceu onde estava, mas seus olhos estavam fitos na cena. A noite caía e um grandalhão esquisito desceu do lado do motorista e, com um bastão de basebol na mão, enveredou hotel adentro. O homem fez menção de intervir, mas João Batista o deteve com um gesto.

“Você passou esse endereço?”, quis saber o recepcionista.

“Passei”, balbuciou.

“Puta merda. Esse cara vai quebrar tudo no quarto”, sentenciou o homem.

“Mas não vai mesmo”, rebateu João Batista e saiu da sala.

À tarde, pela janela, ele havia visto funcionários da manutenção do hotel guardarem suas ferramentas. Em um carrinho de mão, havia um facão de podar árvores. Foi até lá e pegou-o.

5

A ideia de Antino era a de dar um susto em João Batista e fazer com que ele pagasse uma vultosa quantia para não morrer. “Eu vou pelar esse otário”, pensou e parou diante da porta. Com o punho direito fechado, ia esmurrar, quando atrás dele, João Batista disse:

“Não precisa bater. Estou aqui”.

Antino virou-se sem nada entender, mas o facão afiadíssimo já estava colado em seu pescoço, provocando uma ardência mais imaginária do que física. João Batista sentia a boca amarga e uma fúria crescente. Algo maior do que ele, dizia o que precisava ser feito naquele instante.

“Solte o taco e caminhe devagar, senão te degolo”, ordenou João Batista sem tirar o facão do pescoço de Antino.

Fungando e suando frio, ele obedeceu. Ao aproximarem-se do carro, João ordenou:

“Entre e dirija. Não tente nenhuma gracinha”.

Ao abrir a porta do automóvel, ele se deparou com aqueles olhos perfeitos e com aquele corpo escultural e sedutor de Salomé. Mas não sucumbiu. A fúria lhe dominava agora.

“Eu posso explicar tudo, João! Desculpa aí, vai?! Não machuque o Antino. Ele é meu homem”, disse Salomé.

“Para o banco de trás e calada”, limitou-se a dizer. E agora para Antino: “Toca para a região do porto”. Ele vira aquele lugar quando chegava à cidade.

O motorista quis contestar, mas o fio do facão no pescoço falou mais alto e ele obedeceu.

***

Do alto da pedreira, as luzes dos navios eram estrelas minúsculas cintilando nas águas calmas do mar, o mesmo mar que ele vira pela primeira vez.

“Desça”, ordenou.

“Não ouse machucar meu amor, seu vagabundo, miserável, pobretão do demônio”, gritou Salomé.

“Ande”, tornou a mandar.

Na beira do precipício, com uma lua crescente despontando, João Batista suspendeu o facão e, sem dó nem piedade, fez com que a ferramenta descesse com a velocidade da luz sobre o pescoço de Antino. A cabeça caiu primeiro e depois o corpo voou rumo às águas turvas de um mar noturno.

“Eu te mato e é agora”, gritou Salomé com uma arma apontada para sua cabeça. Ela estava enlouquecida e caminhou rápido de encontro a João Batista que, como num drible, desviou-se dela. Salomé foi pelo mesmo caminho que Antino, com a diferença de que só morreu depois de bater em uma pedra antes de mergulhar para sempre nas águas de um Oceano Atlântico que como João Batista, agora estava muito enfurecido.

Voltou ao carro e pegou duas maletas e uma mochila que estavam no banco de trás e que havia visto quando entrou no automóvel. Soltou o freio de mão, deu a partida e engrenou a primeira marcha. O carro preto, com as luzes apagadas, foi se juntar aos copos que boiavam lá embaixo.

Caminhou pela praia. Lavou o facão nas águas salgadas e, tranquilamente, retornou ao hotel. Entrou sem ser visto. Guardou o facão no carrinho de ferramentas e caminhou até o quarto. No corredor, o taco de basebol permanecia intocado. Ajuntou-o, entrou, deixou as coisas sobre a cama e voltou à recepção.

Uma mulher com sotaque estrangeiro atendia a uma família que acabava de chegar. Depois que os hóspedes se foram, ele indagou sobre o recepcionista.

“Sou apenas eu aqui na recepção à noite. Os meninos e o pessoal da cozinha cuidam das outras coisas”, disse a mulher com um olhar estranho. “Está tudo bem com o senhor?”, quis saber.

“Está sim”, respondeu João Batista e voltou ao quarto.

As duas maletas estavam abarrotadas de dinheiro. Na mochila, havia um computador e vários telefones celulares. Aparatos necessários para aquela operação nojenta.

Guardou suas coisas. Era hora de voltar para casa.

“Quero fechar minha conta”, anunciou.

“O que houve? Não gostou do hotel?”, quis saber a mulher.

“Nada disso. O hotel é ótimo e eu vou voltar logo. É que o trabalho me chama”, disse, assinou a documentação e saiu.

Entrou em um táxi e pediu para ir à rodoviária. Foi ao guichê e comprou passagem para outra cidade um pouco mais distante, pois não havia ônibus direto para Avauparaug naquele horário.

Decidiu não pôr suas coisas no bagageiro. O ônibus partiu e João Batista Dormiu.

Acordou com alguém anunciando o nome da cidade em que haviam parado. Ele ficaria ali, demorou alguns segundos para compreender. Carregando suas coisas, desceu as escadas do ônibus. Ao passar pelo funcionário com uniforme de motorista, levou um susto. Era o mesmo homem que estava no hotel horas antes.

“Você é motorista de ônibus?”, perguntou.

“Sim, sou motorista de ônibus há mais de vinte anos. Eu me chamo Miguel e você, quem é?”, perguntou o homem estendendo uma mão firme que João Batista apertou.

“Espero que tenha feito uma boa viagem?!”, disse Miguel.

“Sim, esta foi a melhor viagem da minha vida”, respondeu.

Ele caminhou afastando-se da plataforma daquela rodoviária. Antes de passar pela porta automática, Miguel gritou:

“João! Cuidado que esse taco de basebol está quase caindo da mochila”.

João Batista voltou-se a tempo de ver um sorriso largo e angelical no rosto de Miguel. Uma piscadela de cumplicidade do motorista, deixou claro ao rapaz que havia perdido a ingenuidade, que ele nunca estivera sozinho naquela jornada.

Jossan Karsten

 

Jossan Karsten

Jossan Karsten

Compartilhe essa opinião:

Opiniões do colunista