Há pouco tempo vi uma apresentação sobre o ecossistema de inovação de Israel e os dados são surpreendentes. O País, com apenas 8 milhões de habitantes (menor que o Paraná), tem 6.600 startups ativas. Está em primeiro nos rankings mundiais de startups de tecnologia per capita; de investimento de capital de risco per capita; e de porcentagem do PIB destinado à P&D. 

Durante a apresentação, pensei comigo que todo esse crescimento nas últimas décadas foi em meio a guerras e conflitos. Deu até vontade de perguntar a respeito ao apresentador mas, como em nenhum momento ele entrou nesse assunto, achei melhor não fazer essa abordagem durante a palestra.

A curiosidade me levou ao livro Nação Empreendedora: O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina, de Dan Senor e Saul Singer. Não é um livro novo, foi lançado nos Estados Unidos em 2009 e no Brasil em 2011. Mas é uma obra fascinante porque conta em detalhes como Israel chegou ao topo. E tudo tem muito a ver com as guerras e conflitos.

Israel é um país pequeno, com muitas montanhas e um grande deserto. É cercado de nações vizinhas com quem não têm um bom relacionamento. Por viver num permanente estado de tensão, o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres. Por enfrentar inimigos sempre maiores, Israel apostou na inovação e na tecnologia dentro de suas forças armadas.

Jovens israelenses acostumaram a ir para o combate onde tomam decisões de vida ou morte. Muitos deles, com apenas 23 anos, estão no comando de tropas de 100 soldados. No calor da batalha, têm que decidir, inovar, usar a tecnologia com a qual foram treinados. Foram forjados na escola de gestão da vida real. Quando deixam o serviço militar, os israelenses vão para o mercado de trabalho preparados para tudo, com uma formação sólida. 

Um aspecto interessante abordado pelo livro é que tudo que foi descrito no parágrafo anterior vale para as mulheres. Então elas saem do exército ainda mais empoderadas, competindo em pé de igualdade com os homens nas carreiras profissionais.

Outra cultura militar israelense levada para a vida profissional civil é a “insubordinação”. Eles são estimulados a questionar as ordens e decisões dos oficiais superiores quando acham que há um equívoco. Não são punidos por isso. Nas empresas israelenses, as reuniões podem ser nervosas. Os funcionários questionam os chefes a ponto de saírem da sala todos de rostos vermelhos pelo calor da discussão. Em seguida, começam a rir e conversar, e a vida segue em frente.

Por crescerem num lugar pequeno, cercado de vizinhos hostis, os jovens israelenses também gostam de sair para o exterior assim que possível. É uma espécie de necessidade de liberdade e intercâmbio cultural e intelectual. Os israelenses viajam pelo mundo inteiro, aprendem coisas, voltam para casa e querem fazer algo diferente. É um DNA nômade e empreendedor como em nenhum outro lugar. O antigo modelo social dos kibutz, onde as pessoas trabalham e vivem em função da comunidade, também desenvolveu há muito tempo o senso de colaborativismo e de sustentabilidade.

Como a história da nação israelense também é de muitos fracassos e recuperação, o medo de errar não existe. Pelo contrário, predomina entre os empreendedores a cultura de que o erro faz parte de quem está tentando. Não se deve esperar anos em busca do projeto “perfeito”, da fórmula de sucesso. É preciso arriscar, colocar em prática. Se errar, se aprende com o erro para refazer. 

O fundamental do livro é que se mostra a importância do estudo e da tecnologia. Existe o risco, a aventura e a coragem, mas Israel investe muito em educação, nas escolas civis e militares. São quatro universidades entre as melhores do mundo e seis prêmios Nobel conquistados. Aliado a isso, há uma iniciativa do governo para estimular empresas de alta tecnologia, com investimento onde o risco fica com o governo. Nação Empreendedora é um belo livro. Não tem uma abordagem técnica, está mais para uma narrativa ficcional agradável. Conta histórias interessantes de israelenses que estão há décadas surpreendendo o mundo, assim como o próprio País e seus avanços. O título do livro em inglês é Startup Nation. Não podia ser mais apropriado.

Cris Alessi

Cris Alessi

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