Voltar melhores após a pandemia

Precisamos voltar melhores dessa vivência em meio a pandemia causada pelo novo coronavírus. Já faz um tempo que os estudiosos sobre a sociedade atual sinalizam que a solidariedade está em decadência e que o ativismo alienante está nos desumanizando. As evidências apontam que a sociedade se configura cada vez mais como a sociedade da ideologia do sucesso, do desempenho, do cansaço, do espetáculo, da liquidez, das representações, das fake news, do reino do dinheiro e das relações descartáveis.

O mundo girando em outra frequência

Os aspectos sinalizadores de que a humanidade não vai bem estão borbulhantemente evidentes no contexto do planeta, tanto no ambiente secular como no ambiente religioso. Borbulharam tanto que o caldo desandou. Antes, nada parecia ter força para desativar a máquina mortífera desse cenário. No entanto, eis que surge uma pandemia, por conta do novo coronavírus, que faz o mundo girar em outra frequência.

O impensável aconteceu… o mundo desacelera, quase para, e somos estimulados a ficar em casa, isolados e cuidando uns dos outros.

Certamente, mais à frente, voltaremos ao cotidiano dos estudos, do trabalho, das reuniões e dos ajuntamentos. No entanto, devemos ter aprendido algo, ou seja, precisamos voltar melhores, para não retornar para as engrenagens precedentes das desumanizações de outrora.

Questionar é necessário

Será que o cenário atual seria uma metáfora psicossomática da vida em sociedade? Similar a uma enxaqueca ou uma dor no estômago, que poderia denunciar um quadro de ansiedade, um vírus invisível solapando vidas, poderia estar escancaradamente denunciando que estamos acelerados, competitivos, egoístas e arrogantes demais? Que a nossa proximidade relacional está tóxica? Será que estamos aprendendo alguma coisa com essa situação? Ou simplesmente estamos saudosos para que o mundo volte, o mais rápido possível, a girar na “normalidade” de antes?

O reconhecimento da toxicidade da arrogância

As acirradas competições, entre quem sabe mais e quem tem o melhor ponto de vista, continuam aprisionando a humanidade em relações tóxicas. Aliás, como alguém já sabiamente disse “um ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. Ou seja, um ponto de vista, se estiver isolado de outros pontos de vista, não é grande coisa para se compreender o todo. Seria apenas narcisismo, arrogância, não importando o quão cientificizado, argumentalizado, espiritualizado ou teologizado que algum discurso seja. Ninguém é tão bom, ou mesmo totalmente esclarecido, ao ponto de não precisar abrir-se para outras visões de mundo.

Perder-se em seu próprio ponto de vista, representa uma clausura existencial, numa prisão em que a percepção de mundo é bloqueada por grades que impedem avançar para além de um palmo a frente do próprio nariz.

A arrogância de braços dados com a ignorância

O arrogante, comumente anda de braços dados com a ignorância e a alienação. Tentar conversar com um indivíduo assim, é como tentar se esquivar de um abuso. O que vale é a sua opinião impulsiva, num desejo de que a sua verdade prevaleça, essa que é julgada por ele como absoluta e inquestionável. O outro, para o arrogante, é só mais um depósito de sua falácia e alguém a ser convertido às suas ideias impositivas. O arrogante raramente escuta algo para além das suas próprias ideias e pensamentos.

A viralização da arrogância

Infelizmente, em uma sociedade que fomenta o narcisismo e o hedonismo, as posturas arrogantes se viralizam de forma pandêmica. Nessa pandemia social o reino passou a ser do dinheiro e seus súditos fieis adoecem cada vez mais em ansiedades e insônias. As pessoas passaram a ser objetos de uso e subjugação para a promoção da riqueza, do prazer, da fama, da felicidade e do bem-estar, e se tornaram descartáveis caso não servirem mais para esse fim. Portanto, voltar ao normal de outrora, sem termos aprendido o principal como comunidade humana, parece um retorno insano para a manutenção da arrogância e do egoísmo. No entanto, esse não parece ser um bom retorno, pois seguiríamos reinventando as mesmas engrenagens. Ao contrário, precisamos voltar melhores. O antídoto da arrogância é a humildade. Talvez assim, mais humildes, possamos redescobrir os efeitos da solidariedade e da amorosidade para a convivência humana.

Não simplesmente voltar ao normal

Quando a pandemia passar, não podemos simplesmente voltar ao normal. Seria o mesmo que retroceder para o consumismo exacerbado, para a aceleração produtiva, para as insônias, as ansiedades patológicas, para o distanciamento conjugal e familiar, para as relações tóxicas, de interesses e descartáveis. O normal de antes era tóxico, desumanizador, alienante e adoecedor. Voltar a girar o mundo nessa engrenagem, sinalizará que os sobreviventes não aprenderam a lição principal.

O que precisamos melhorar

Teremos evoluído com tudo isso se aprendermos a desacelerar, a valorizar a família, a dar atenção a quem amamos, a estabelecer rotinas mais saudáveis, a amar, servir, respeitar e cooperar uns com os outros, a construir confiança, a falar assertivamente e a escutar empaticamente. Significa assumir o nosso verdadeiro tamanho, o de humano, aceitando os nossos limites e ajustando melhor os nossos valores. Voltar melhor envolve ser mais ético, leal, humilde, amoroso, cooperativo, empático e aberto aos demais. Envolve valorizar as relações, seja no casamento, na família, no trabalho ou na missão.

O retorno para voltar melhores começa hoje

Com menos egoísmo e mais humanidade venceremos a atual situação e voltaremos melhores para a vida cotidiana. Isso significa que precisamos voltar melhores já, no aqui e agora. É preciso começar o exercício de ser melhor no presente e não abandonar as novas posturas na sequência, simplesmente voltando ao “normal” de antes.  Mesmo que não alcancemos tudo e todos, que estejamos abertos ao alcance do que for possível.

Precisamos voltar melhores da pandemia, e o retorno começa hoje!

*As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição do portal RIC Mais.

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Clarice Ebert

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